Uma imagem de um sensor de glicose e três palavras: “Juntos para sempre”. Essa é a tatuagem que o pai Bruno Campos Fonseca, de 48 anos, escolheu para representar uma parte da história vivida ao lado do filho, Pedro Henrique de Souza Campos, que está prestes a completar 18 anos.
Empresário e morador de Catalão, em Goiás, Bruno acompanhou as mudanças na vida da família desde que Pedro recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1, em novembro de 2018, quando tinha 10 anos.
O contato de Bruno com o diabetes já existia por meio do irmão gêmeo, Bráulio, que convive com diabetes tipo 1 há mais de 35 anos. Mas foi com o diagnóstico do filho que a condição passou a fazer parte diretamente do cotidiano da família.
Poucos meses depois, Bruno decidiu registrar na pele um dos elementos que passaram a fazer parte daquela nova realidade. A tatuagem do sensor surgiu em meio ao período de adaptação e, anos depois, continua associada a uma fase importante da história dos dois.
O diagnóstico que mudou a rotina da família
Pedro recebeu o diagnóstico um mês depois de completar 10 anos. Para Bruno, a notícia representou uma mudança que ultrapassou os cuidados específicos do filho e alcançou toda a dinâmica familiar.
Glicemia, insulina, alimentação e monitoramento passaram a exigir atenção em situações que antes faziam parte do cotidiano de outra maneira.
“Jamais imaginei que a diabetes tipo 1 impactaria tanto a minha vida como naquele mês de novembro de 2018”, conta Bruno.
A mãe de Pedro também mergulhou no processo de aprendizado. Segundo o pai, ela passou a estudar sobre diabetes tipo 1 e hoje dá aulas de contagem de carboidratos.
A família foi, assim, construindo uma nova forma de lidar com o dia a dia, enquanto Pedro crescia e começava a assumir responsabilidades sobre os próprios cuidados.
O papel do pai vai além do tratamento
Para Bruno, estar presente na vida de um filho com diabetes também significa criar espaços em que a condição não seja o assunto principal.
Ele entende que o pai pode ajudar a proporcionar momentos de lazer, esporte e distração, além de acompanhar as responsabilidades que fazem parte da vida do adolescente.
“Pai, na minha maneira de pensar, é aquele que vai distrair o filho, levar o filho para uma prática esportiva, para uma distração fora da rotina de aplicação de insulina, do furar o dedinho para medir a glicemia”, explica.
Na visão dele, essa presença precisa caminhar junto com a cobrança por responsabilidade, inclusive em relação à escola e aos próprios cuidados.
Com a proximidade dos 18 anos, esse processo ganha ainda mais importância. Pedro está deixando a adolescência e ampliando a participação nas decisões relacionadas ao diabetes.

Quando o cuidado passa a ser também responsabilidade do filho
Ao longo dos anos, Pedro passou a conhecer cada vez mais o próprio diabetes.
Bruno conta que o filho sabe identificar suas hipoglicemias e hiperglicemias, utiliza a bomba de insulina e passou pelo processo de adaptação às tecnologias de monitoramento.
Para o pai, esse aprendizado representa uma conquista construída aos poucos.
“O Pedro Henrique é um adolescente, aliás, já quase adulto, que sabe se compreender, conhece suas hipoglicemias, suas hiperglicemias, sabe totalmente lidar com sua bomba de insulina, soube atravessar o aprendizado do Libre”, conta.
A responsabilidade que Bruno observa no filho também ajuda a transformar a relação entre cuidado e autonomia. O pai continua acompanhando, mas vê Pedro cada vez mais preparado para conduzir os próprios cuidados.
“Ele é totalmente responsável, totalmente cuidadoso e sabe que ele tem que se cuidar no seu dia a dia de uma maneira geral”, afirma.
Um imprevisto durante uma prova de laço
Foi durante uma prova de laço, em Bálsamo, no interior de São Paulo, que Pedro quebrou a bomba de insulina.
O episódio aconteceu enquanto ele praticava uma das atividades de que gosta e se tornou uma das lembranças mais difíceis para o pai desde o diagnóstico.
“Jamais ninguém terá noção do quão foi desesperador aquele dia”, lembra.
O susto foi superado e, para Bruno, acabou se tornando mais uma experiência entre tantas outras que a família precisou enfrentar desde que o diabetes entrou na rotina.

As noites em que a preocupação não deixava Bruno dormir
Os desafios não ficaram restritos aos acontecimentos durante o dia. Bruno conta que a preocupação com a glicemia de Pedro também esteve presente durante a noite.
O medo de uma glicemia muito alta ou muito baixa fez parte dos primeiros anos após o diagnóstico e, segundo ele, chegou a tirar seu sono.
“Uma mistura de medo e certezas estão nesses quase oito anos de diagnóstico. Medo de muita coisa acontecer, de sono que perdi com medo da glicemia dele estar ou muito alta ou muito baixa”, relata.
Com o passar do tempo, essa preocupação passou a conviver com outra percepção: a de que Pedro estava aprendendo a reconhecer as próprias necessidades e a lidar com elas.
A tatuagem que nasceu poucos meses após o diagnóstico
O pai já tinha nove tatuagens quando decidiu fazer mais uma. Os nomes dos filhos já estavam registrados em seu corpo, mas ele queria representar também aquela nova experiência que havia chegado à família.
A inspiração veio de outro pai, que havia tatuado uma bomba de insulina. Como Pedro ainda não utilizava a bomba naquele momento, Bruno escolheu a imagem do sensor que fazia parte do acompanhamento da glicose.
Naquela época, a tecnologia também estava associada a um período de descobertas e preocupações. Bruno conta que muitos sensores apresentavam falhas, o que gerava medo, embora o equipamento também tivesse facilitado o acompanhamento de Pedro.
Foi nesse contexto que ele escolheu a imagem para a tatuagem e acrescentou a frase “Juntos para sempre”.
“Eu tatuei a imagem do Libre e dentro da imagem a ‘juntos para sempre’. São três palavras que vão me carregar até a eternidade”, conta.
Para Bruno, a tatuagem acabou registrando não apenas um dispositivo, mas uma fase de aprendizado da família.
“Essa tatuagem marcou muito uma época, um período em que descobrimos de fato o que é conviver com a diabetes tipo 1”, explica.
O futuro de Pedro
Com a proximidade dos 18 anos, Pedro se prepara para uma nova etapa da vida. Para Bruno, os anos desde o diagnóstico mostraram que o filho vem construindo responsabilidade para lidar com o diabetes e com as próprias escolhas.
Bruno espera que Pedro forme sua própria família e leve para essa nova etapa os valores que considera importantes.
“Espero, e estou vendo com os meus próprios olhos que ele será um homem diferenciado, um pai de família dedicado, trabalhador, honrado, temente a Deus, e exemplo principalmente para os filhos que ele vai ter”, afirma.
O pai também mantém a esperança de que a cura do diabetes tipo 1 possa um dia chegar. E essa expectativa não está relacionada apenas ao filho, mas a todas as pessoas que convivem com a condição.
“De onde eu estiver, terei orgulho demais de quem você é”
Ao falar diretamente com o filho, Bruno deixa de lado os detalhes da rotina e fala sobre o homem que vê Pedro se tornando.
Chamando o filho de “Pedrin”, ele destaca o orgulho que sente pela trajetória dele e reforça a importância de manter a fé.
“Meu filho, Pedro Henrique de Souza Campos, Pedrin para muitos, meu filho pra mim e pra sua mãe, nosso amado”, diz.
Bruno também reconhece que não sabe o que o futuro reserva e fala sobre a possibilidade de, um dia, não estar presente para acompanhar todas as etapas da vida do filho.
“Seu pai pode não estar aqui mais, mas pode ter certeza que de onde eu estiver terei orgulho demais de quem você é.”
A declaração termina com uma frase direta: “Eu te amo com toda a força da minha vida.”
Desde o diagnóstico, Pedro cresceu aprendendo a lidar com o diabetes tipo 1 e ampliou, ao longo dos anos, a responsabilidade pelos próprios cuidados. Bruno acompanhou esse processo de perto, entre momentos de preocupação, imprevistos e novas descobertas.
No corpo do pai, a tatuagem continua registrando uma parte dessa trajetória. E as três palavras escolhidas por Bruno resumem, para ele, o que permanece mesmo diante de todas as mudanças: “Juntos para sempre”.
