A obesidade infantil está associada a um risco maior de desenvolver diabetes tipo 2, condição que faz o nível de açúcar no sangue subir. No Brasil, 572 mil crianças apresentam níveis elevados de glicose associados ao índice de massa corporal (IMC) elevado, segundo dados citados no Posicionamento Brasileiro sobre Avaliação e Tratamento da Obesidade Pediátrica.
O documento, elaborado com participação da Associação Brasileira para o Estudo da Obesidade e Síndrome Metabólica (ABESO) e da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), reúne orientações para identificar problemas de saúde relacionados à obesidade na infância e na adolescência.
Entre as recomendações está a avaliação do nível de glicose no sangue, exame que ajuda a identificar alterações que podem indicar pré-diabetes ou diabetes tipo 2.
Como a obesidade infantil se relaciona com o diabetes tipo 2?
A obesidade infantil pode estar associada a mudanças no funcionamento do organismo, incluindo dificuldades no controle da glicose no sangue. O diabetes tipo 2 ocorre quando o corpo não consegue utilizar adequadamente a insulina, hormônio que ajuda a glicose a entrar nas células.
Quando esse processo não funciona como deveria, a quantidade de açúcar no sangue pode aumentar. A obesidade é um dos fatores relacionados ao risco de desenvolver a doença, mas isso não significa que toda criança com obesidade terá diabetes tipo 2.
Segundo o posicionamento, o risco de problemas de saúde aumenta conforme a idade e o grau de obesidade. Por isso, o acompanhamento médico deve considerar o conjunto das condições de saúde da criança, e não apenas o peso.
Quantas crianças brasileiras têm obesidade?
O Atlas Mundial da Obesidade 2026, citado no documento, estima que 17 milhões de crianças e adolescentes brasileiros tinham sobrepeso ou obesidade em 2025. Desse total, 7 milhões viviam com obesidade.
O levantamento também aponta que 572 mil crianças apresentam níveis elevados de glicose associados ao IMC elevado. Esse dado não significa que todas tenham diabetes tipo 2, já que a confirmação da condição depende de avaliação médica e exames específicos.
O documento também estima que cerca de 50% da população pediátrica brasileira poderá apresentar excesso de peso até 2035.
Quando a criança precisa fazer exames de glicose?
O posicionamento recomenda que crianças com obesidade a partir dos 10 anos façam exames para avaliar o nível de glicose no sangue, o colesterol, os triglicerídeos e a saúde do fígado.
Um dos exames utilizados é a glicemia de jejum, que mede a quantidade de açúcar no sangue após um período sem comer. Outros testes podem ser solicitados conforme a avaliação médica.
Para crianças de 2 a 9 anos com obesidade, o documento orienta que a realização de exames de glicose e de avaliação do fígado seja considerada principalmente quando existem outros fatores de risco.
A avaliação também pode incluir a medição da pressão arterial, o acompanhamento do crescimento e a análise de outros sinais clínicos.
Quais exames ajudam a identificar pré-diabetes e diabetes tipo 2?
O documento apresenta critérios laboratoriais da Associação Americana de Diabetes (ADA), referentes a 2024, para identificar alterações nos níveis de glicose.
Os valores indicados são:
- Glicemia de jejum: de 100 a 125 mg/dL pode indicar pré-diabetes. A partir de 126 mg/dL, pode indicar diabetes.
- Teste oral de tolerância à glicose: de 140 a 199 mg/dL após duas horas pode indicar pré-diabetes. A partir de 200 mg/dL, pode indicar diabetes.
- Hemoglobina glicada: entre 5,7% e 6,4% pode indicar pré-diabetes. A partir de 6,5%, pode indicar diabetes.
A hemoglobina glicada, também chamada de HbA1c, é um exame que mostra uma estimativa da média dos níveis de glicose no sangue nos últimos dois a três meses.
Os resultados não devem ser interpretados isoladamente. O diagnóstico depende da avaliação profissional e, em determinadas situações, da confirmação por novos exames.
Como acompanhar a saúde da criança?
O posicionamento recomenda medir o peso e a altura e calcular o índice de massa corporal (IMC) pelo menos uma vez por ano, a partir dos 2 anos de idade, durante as consultas pediátricas de rotina.
O IMC é calculado a partir do peso e da altura. Em crianças e adolescentes, o resultado precisa ser interpretado de acordo com a idade e o sexo, utilizando curvas de crescimento específicas.
O documento também recomenda que o tratamento da obesidade infantil considere a alimentação, a atividade física, o sono e a saúde mental, com acompanhamento de diferentes profissionais quando necessário.
Para crianças e adolescentes de 5 a 17 anos, a recomendação apresentada é de pelo menos 60 minutos diários de atividade física moderada a vigorosa.
A orientação é que o cuidado envolva também a família e considere as condições de vida da criança, sem atribuir a obesidade à falta de força de vontade.