Nesta semana é celebrado o Dia Nacional do Diabetes. A data é lembrada todos os anos para reforçar a importância da prevenção, do diagnóstico precoce e do cuidado contínuo com a condição. Neste ano, o Portal Um Diabético traz um recorte da entrevista que tivemos com o Dr. João Salles, presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD).
No bate-papo, o endocrinologista detalha por que a obesidade ocupa hoje o centro das estratégias de prevenção do diabetes tipo 2. Segundo ele, tratar uma doença é, na prática, tratar a outra.

Comer doce não é a explicação principal
Segundo o Dr. João Salles, um dos maiores obstáculos para prevenir o diabetes tipo 2 é a crença popular sobre suas causas. Para ele, a doença não surge apenas do consumo de açúcar. Esse entendimento simplificado desvia a atenção de um fator central: a obesidade.
“Se você descer agora aqui, for ali na rua, e parar 10 pessoas e perguntar o que causa diabetes, eu acho que a maioria delas vai falar que elas comem doce. E não é! Aquele paciente com obesidade que não come doce, ele se sente imune ao diabetes. É ali que está o risco.” Dr. João Salles | Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Nesse contexto, o especialista defende uma estratégia da SBD: usar a visibilidade do diabetes, doença já reconhecida pela população, para alertar sobre a obesidade. Além disso, ele lembra que a obesidade ainda carrega um estigma que a diferencia do diabetes na percepção pública.
“Obesidade é doença, mas a maioria das pessoas entende isso como desvio de caráter, como se bastasse fechar a boca para emagrecer. Isso também a gente precisa e vai combater.” Dr. João Salles | Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Tratar a obesidade evita o diabetes, segundo o presidente da SBD
Para o Dr. João Salles, quanto antes a obesidade for tratada, menor tende a ser a chance de o paciente desenvolver diabetes tipo 2. Ele defende uma combinação de atividade física, reeducação alimentar e, quando necessário, medicamento já no início do tratamento, não apenas como último recurso.
“Quanto mais eu tratar a obesidade com atividade física, reeducação alimentar e medicamento desde o início, eu evito a pessoa de ter diabetes. Então, eu, como SBD, não quero paciente com diabetes. Eu quero que eles nem desenvolvam.” Dr. João Salles | Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Ainda assim, o especialista reconhece que o acesso à alimentação saudável é desigual no Brasil. Segundo ele, parte da população não tem tempo nem recursos para evitar o consumo de ultraprocessados no dia a dia. Trata-se de um desafio que a SBD busca enfrentar em parceria com outras sociedades médicas e com o poder público.
Com o diabetes tipo 2 já instalado, emagrecer fica mais difícil
Um ponto destacado pelo presidente da SBD é que a própria presença do diabetes tipo 2 pode dificultar a perda de peso. Segundo ele, isso reforça a importância de agir antes do diagnóstico.
“A pessoa com diabetes tipo 2 tem mais dificuldade em perder peso do que a pessoa sem diabetes tipo 2. Em um estudo com determinado medicamento, por exemplo, há uma perda de 12% de peso em pessoas com diabetes tipo 2, contra 22% em pessoas sem diabetes tipo 2.” Dr. João Salles | Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Diagnósticos que mudaram: crianças com tipo 2, idosos com tipo 1
O Dr. João Salles também chama atenção para uma mudança no perfil de quem recebe diagnóstico de diabetes no Brasil. Crianças com diabetes tipo 2, antes uma situação rara no país, hoje aparecem com mais frequência, acompanhando o crescimento da obesidade infantil.
“Hoje a gente já consegue ver crianças com diagnóstico de diabetes tipo 2, o que antes era raro, principalmente no Brasil. E temos pessoas com mais de 60 anos recebendo diagnóstico de diabetes tipo 1.” Dr. João Salles | Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Na entrevista, o médico citou que, segundo sua estimativa, 33% das crianças brasileiras têm obesidade atualmente. Ainda segundo ele, esse número pode chegar a 50% em 2035 caso a tendência atual não seja revertida. Nesse cenário, o aumento da obesidade entre crianças pode anteceder, segundo ele, o surgimento de complicações do diabetes tipo 2 em idade mais precoce.
Trocar a ameaça por acolhimento
Para o presidente da SBD, a forma como profissionais de saúde comunicam o diagnóstico também influencia a adesão ao tratamento. Ele critica a prática de alertar pacientes sobre complicações como forma de pressioná-los a seguir o tratamento.
“O médico aprendeu, na faculdade, que a educação do paciente pode ser feita via ameaça: se você não tomar insulina, você vai ficar cego, vai amputar. Não é isso. O diabetes pode causar essas complicações, mas você não vai ter, porque vai se cuidar agora.” Dr. João Salles | Presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD)
Segundo ele, mensagens de ameaça tendem a afastar o paciente, enquanto uma abordagem positiva e acolhedora favorece o engajamento no cuidado. Esse princípio, aliás, resume o lema da atual gestão da SBD: “educação que acolhe”.
Na terceira e última matéria da série especial de Dia Nacional do Diabetes, o Portal Um Diabético vai abordar os avanços recentes no tratamento da obesidade, incluindo as chamadas canetas emagrecedoras, e como essas novas ferramentas terapêuticas podem contribuir para reduzir a obesidade, o diabetes tipo 2 e suas complicações.
