Para muitas pessoas, um sensor de glicose é apenas um pequeno dispositivo fixado no braço. Para Thamiris, que convive com diabetes tipo 1, ele faz parte de uma rotina de cuidados que exige atenção constante. O dispositivo permite acompanhar as variações da glicose ao longo do dia e está presente em decisões sobre alimentação, aplicação de insulina, atividade física e diversos outros momentos da rotina.
Foi convivendo de perto com essa realidade que Gabriela Buzetti decidiu eternizar o sensor na própria pele. A tatuagem, acompanhada da frase “O que você vive, eu vivo com você”, ganhou um significado que vai além de um gesto de amor: tornou-se um símbolo da importância da rede de apoio para quem convive com diabetes.
Embora o tratamento seja uma responsabilidade de quem vive com a condição, contar com pessoas que compreendem os desafios dessa rotina pode tornar essa caminhada menos solitária. O apoio não substitui os cuidados diários, mas oferece acolhimento, segurança e a certeza de que a pessoa não precisa enfrentar todos os desafios sozinha.
“O sensor deixou de ser apenas um dispositivo e passou a representar tudo o que ela enfrenta diariamente. Para muita gente ele é apenas um aparelho colado no braço. Para mim, o sensor simboliza coragem, resistência, cuidado e a vontade de viver bem apesar dos desafios”, conta Gabriela.
Uma rotina que poucos enxergam
Conviver com diabetes tipo 1 vai muito além da aplicação de insulina. A rotina envolve monitorar a glicemia pelo sensor, calcular doses, contar carboidratos e adaptar o tratamento às diferentes situações do dia a dia. São decisões tomadas constantemente e que, muitas vezes, passam despercebidas por quem está ao redor.
Essa atenção permanente pode gerar desgaste físico e emocional, já que o diabetes acompanha a pessoa em diferentes momentos da vida, sem pausas.
Gabriela admite que também conhecia pouco sobre essa realidade antes de conhecer Thamiris.
As duas estão juntas há cerca de um ano. A história começou de forma inesperada, quando Thamiris procurou tratamento após sofrer uma inflamação e um edema na região lombar durante uma trilha. Fisioterapeuta e instrutora de Pilates, Gabriela passou a acompanhá-la nas aulas e, com o tempo, a relação profissional deu lugar a uma conexão afetiva.
“Eu tinha um conhecimento bem superficial. Sabia que existia, mas não fazia ideia da complexidade que envolve o diabetes tipo 1”, lembra.
A convivência mudou completamente sua percepção sobre a condição.
“Percebi que são decisões o tempo todo: medir a glicose pelo sensor, contar carboidratos, calcular insulina, lidar com hipoglicemias, hiperglicemias e ainda seguir a rotina de trabalho e vida pessoal. Passei a enxergar uma força que muitas pessoas nem imaginam, porque boa parte dessa batalha é silenciosa.”
Foi justamente essa convivência que mostrou a Gabriela que apoiar alguém com diabetes não significa apenas estar presente nos momentos difíceis, mas também buscar compreender uma rotina que exige atenção permanente.
Quando o amor também aprende sobre diabetes
A tatuagem nasceu em um período especialmente delicado para Thamiris.
O desgaste provocado pela rotina intensa de cuidados e pelas oscilações da glicemia fez com que ela atravessasse um momento de cansaço emocional. Ao perceber isso, Gabriela decidiu transformar em gesto aquilo que já fazia parte da relação: estar presente e resolveu usar o sensor como símbolo.
“Quem convive com o diabetes tipo 1 sabe que existem muitos altos e baixos, e às vezes tudo isso cansa. Foi justamente nesse momento que senti vontade de fazer a tatuagem do sensor”, conta.
Mais do que tatuar um sensor de glicose, Gabriela queria transmitir uma mensagem: mostrar que Thamiris poderia contar com ela em qualquer situação.
Quando viu a homenagem da tatuagem do sensor pela primeira vez, Thamiris se emocionou.
“Foi uma das maiores demonstrações de amor que eu já recebi. Ver ela tatuar o sensor, algo que faz parte da minha vida todos os dias foi como dizer: ‘Eu escolho viver isso com você’. Me senti acolhida, amparada e muito amada.”
Para ela, o gesto representa algo que vai além do relacionamento.
“O diabetes é uma condição muito solitária, porque a maior parte das decisões e preocupações acontecem o tempo todo e ninguém vê. A tatuagem representa a parceria e o compromisso dela de caminhar ao meu lado, inclusive nos dias mais difíceis.”

O papel da rede de apoio no tratamento
A história de Gabriela e Thamiris mostra uma realidade vivida por muitas pessoas com diabetes: embora o tratamento seja individual, ninguém precisa enfrentar essa jornada sozinho. Ter ao lado pessoas que buscam informação, compreendem a rotina e oferecem apoio sem julgamentos pode fazer diferença na forma como a condição é vivida.
No relacionamento das duas, esse apoio começou pela disposição de aprender.
Gabriela conta que passou a entender melhor o tratamento da namorada, aprendeu a manusear a caneta de insulina, acompanhar os níveis através do sensor e a compreender como Thamiris calcula as doses de acordo com a glicemia e outros fatores do dia a dia.
“Isso me dá segurança para ajudá-la quando ela precisa. Além disso, acompanho os momentos em que vejo pelo sensor que a glicose sai da faixa esperada, procuro entender cada vez mais sobre o diabetes e, principalmente, estou presente.”
Para Thamiris, são justamente esses pequenos cuidados do cotidiano que demonstram a importância de ter uma rede de apoio.
“Ela monitora minha glicose pelo sensor no aplicativo 24 horas por dia, percebe quando eu não estou bem antes mesmo de eu falar, me lembra de comer quando preciso, entender quando uma hipoglicemia muda completamente o meu humor ou a minha disposição e nunca faz eu me sentir um peso. Ela transformou o cuidado em algo natural.”
Apesar da importância desse suporte, Thamiris reforça que apoiar não significa assumir o controle do tratamento. O diabetes continua sendo responsabilidade de quem convive com a condição, mas ter alguém ao lado pode tornar o caminho mais leve.
“O diabetes continua sendo responsabilidade de quem convive com ele, mas ter uma rede de apoio faz com que esse caminho seja muito mais leve. Saber que existe alguém que conhece a sua rotina, entende seus desafios e está ao seu lado nos momentos difíceis traz segurança e conforto. O apoio não controla a glicose, mas facilita a rotina e os cuidados.”
Informação também é uma forma de cuidado
Ao conhecer mais sobre o diabetes tipo 1, Gabriela também percebeu que um dos maiores desafios ainda é combater a desinformação.
Muitas pessoas ainda associam o diabetes a hábitos alimentares ou escolhas pessoais, especialmente quando se trata do diabetes tipo 1. Essa visão equivocada pode gerar culpa e preconceito para quem convive com a condição.
“Muitas pessoas ainda acreditam que quem tem diabetes tipo 1 desenvolve a doença porque comeu muito doce ou porque não teve hábitos saudáveis. Essa falta de informação acaba machucando quem convive com a condição”, afirma Gabriela.
Para ela, parceiros, familiares e amigos podem ajudar justamente buscando conhecimento e oferecendo apoio de forma respeitosa.
“O principal é buscar informação. Parceiros, familiares e amigos podem ajudar conhecendo mais sobre o diabetes, ouvindo sem julgar, respeitando os momentos difíceis e perguntando como podem ser úteis. Às vezes, a melhor forma de apoiar é demonstrar que a pessoa não precisa carregar tudo sozinha.”
Thamiris também destaca que a empatia é fundamental para quem convive com diabetes.
“Apoiar não é controlar, julgar ou dar opiniões sem conhecer a realidade. É ouvir, aprender, respeitar e estar presente. Entender que não foi uma escolha ou decisão de quem convive com essa condição. O diabetes tipo 1 não nos deixou escolher, nada que poderíamos ter feito mudaria o diagnóstico. A ignorância ainda é uma das maiores barreiras.”
Mais do que uma tatuagem
O desenho do sensor feito por Gabriela representa muito mais do que uma homenagem dentro de um relacionamento. Ele simboliza uma escolha: dividir os desafios, reconhecer as dificuldades e mostrar que o diabetes não precisa ser enfrentado em isolamento.
Ao longo dessa convivência, Gabriela também mudou sua forma de enxergar a condição.
“Aprendi que o diabetes tipo 1 exige muito mais do que as pessoas imaginam. Não é apenas aplicar insulina. É uma condição que exige atenção praticamente o tempo todo, sem pausas. Também aprendi que cada pessoa vive o diabetes de uma forma diferente e que a empatia faz toda a diferença.”
Ela espera que a história das duas ajude outras pessoas a entenderem que o diabetes não define quem vive com a condição.
“O diabetes tipo 1 não define ninguém. Amar alguém com diabetes é conhecer essa realidade, respeitar os desafios que ela enfrenta diariamente e caminhar ao lado dela sem transformá-la na doença. O diabetes faz parte da vida da Thamiris, mas nunca será maior do que os sonhos, a força e a pessoa incrível que ela é.”
Histórias como a de Gabriela e Thamiris mostram que a rede de apoio não muda o diagnóstico nem substitui o tratamento, mas pode transformar a forma como essa jornada é vivida. Informação, empatia e presença também fazem parte do cuidado.
Mais do que tatuar um sensor de glicose, Gabriela eternizou um compromisso: caminhar ao lado de Thamiris em todos os momentos. Um gesto que mostra que, embora o diabetes faça parte da rotina, ninguém precisa enfrentar essa jornada sozinho.
