Para milhões de muçulmanos ao redor do mundo, o Ramadã representa um dos períodos mais importantes do calendário religioso. Durante aproximadamente um mês, os fiéis praticam o jejum entre o nascer e o pôr do sol como forma de fortalecer a espiritualidade e a disciplina.
Para quem vive com diabetes tipo 1, no entanto, esse período também pode trazer desafios importantes relacionados ao controle da glicemia.
O jejum prolongado pode aumentar o risco de hipoglicemias, hiperglicemias e outras complicações, tornando necessário um planejamento cuidadoso antes do início do Ramadã.
Em entrevista ao jornalismo do Um Diabético, um muçulmano com diabetes tipo 1 compartilhou sua experiência ao participar do jejum religioso, enquanto uma endocrinologista especializada explicou quais cuidados são essenciais para que essa decisão seja tomada da forma mais segura possível.
A experiência de quem vive o Ramadã com diabetes
Segundo o entrevistado, um dos momentos mais marcantes da sua trajetória foi quando iniciou o uso da insulina Lantus. A mudança representou um novo período de adaptação no tratamento e também influenciou sua forma de vivenciar o Ramadã.
Entre as maiores dificuldades durante o jejum, ele destaca que o desafio não está apenas na ausência de alimentação.
O controle da glicemia se torna mais complexo devido às variações que acontecem mesmo sem ingestão de alimentos.
“Gerenciar a contagem de carboidratos, ajustar o bolus e lidar com alterações da glicemia que não estão diretamente ligadas à alimentação acabam sendo alguns dos maiores desafios”, explica.
Apesar dessas dificuldades, ele afirma que não costuma realizar adaptações específicas na rotina ou na alimentação para participar do Ramadã.
Ao longo dos anos, já enfrentou episódios de hipoglicemia e hiperglicemia durante o período de jejum. Nessas situações, lembra que a própria tradição islâmica orienta que a preservação da saúde deve vir em primeiro lugar.
“Pelas regras, eu nem deveria continuar. Se estou passando mal, tenho a obrigação de quebrar o jejum”, afirma.
Para outras pessoas com diabetes tipo 1 que desejam participar do Ramadã, seu principal conselho é simples: conversar com o endocrinologista antes do início do período e não insistir no jejum caso seja necessário interrompê-lo por questões de saúde.
A avaliação médica é o primeiro passo
Segundo a endocrinologista entrevistada, a decisão de participar do Ramadã nunca deve ser tomada sem uma avaliação médica individualizada. Antes de autorizar o jejum, diversos fatores precisam ser analisados.
Entre eles estão o tempo de diagnóstico do diabetes tipo 1, o tratamento utilizado, o controle glicêmico atual, a frequência de hipoglicemias, episódios prévios de cetoacidose diabética, presença de complicações crônicas, conhecimento sobre contagem de carboidratos e capacidade de ajustar corretamente as doses de insulina.
Além disso, ela destaca que o acesso à tecnologia também faz diferença. Pacientes que utilizam sensores de monitorização contínua da glicose ou sistemas automatizados de infusão de insulina costumam ter mais recursos para acompanhar possíveis alterações durante o jejum.
A endocrinologista lembra ainda que as diretrizes da International Diabetes Federation, em parceria com a Diabetes and Ramadan International Alliance, recomendam que toda decisão seja baseada em uma avaliação estruturada de risco e construída em conjunto entre médico e paciente.
Nem todos os pacientes podem jejuar com segurança
Embora muitas pessoas consigam participar do Ramadã com planejamento adequado, existem situações em que o jejum não é recomendado. Pacientes considerados de muito alto risco geralmente são orientados a não jejuar.
Entre os principais fatores estão episódios recentes de hipoglicemia grave, cetoacidose diabética, hipoglicemia sem percepção dos sintomas, controle glicêmico muito instável, internações recentes relacionadas ao diabetes, gestação associada ao diabetes tipo 1, doença renal avançada e crianças pequenas que ainda não conseguem realizar automonitorização adequada.
Caso, após discussão cuidadosa, o paciente decida seguir com o jejum, a equipe médica elabora um plano individualizado.
Esse planejamento pode incluir ajustes nas doses de insulina antes do início do Ramadã, orientação para reconhecer sinais de hipoglicemia e hiperglicemia, organização das refeições do Suhoor, realizada antes do amanhecer, e do Iftar, que marca a quebra do jejum ao pôr do sol.
Também são definidos previamente os momentos em que o jejum deve ser interrompido para preservar a saúde.
Respeito às crenças e decisões compartilhadas
Além da avaliação clínica, a endocrinologista destaca que compreender o significado religioso do Ramadã faz parte do atendimento.
Segundo ela, o objetivo não é simplesmente orientar o paciente a não jejuar.
É necessário construir uma decisão compartilhada que respeite tanto os aspectos médicos quanto as convicções religiosas da pessoa.
Esse diálogo envolve educação sobre possíveis complicações, participação da família quando necessário e, em alguns casos, até o apoio de líderes religiosos.
Ela lembra que as próprias tradições islâmicas permitem interromper o jejum quando existe risco significativo para a saúde ou para a vida.
Por isso, corrigir uma hipoglicemia durante o Ramadã não representa um descumprimento da fé, mas sim um cuidado previsto pela própria religião.
Fé, informação e segurança podem caminhar juntas
Embora o Ramadã represente um desafio adicional para pessoas com diabetes tipo 1, tanto o paciente quanto a endocrinologista concordam que informação e planejamento fazem toda a diferença.
O acompanhamento médico antes do início do jejum, ajustes individualizados no tratamento e monitorização frequente da glicemia ajudam a reduzir riscos e tornam as decisões mais seguras.
Ao mesmo tempo, compreender que interromper o jejum pode ser necessário em determinadas situações permite que a prática religiosa aconteça de forma responsável e alinhada às próprias orientações do Islã.
A experiência compartilhada pelos entrevistados mostra que viver com diabetes tipo 1 não significa abandonar a fé ou as tradições religiosas. Com acompanhamento adequado, respeito às limitações individuais e decisões tomadas em conjunto entre paciente, equipe médica e família, é possível buscar um equilíbrio entre espiritualidade e cuidado com a saúde.