Aos 23 anos, Laura Cursino de Sousa recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1 e precisou adaptar uma rotina que já conhecia de perto desde a infância. Médica recém-formada, ela transformou a própria experiência com a condição em inspiração para criar “Sofia: A Menina que Carregava Sonhos e Insulina”, um livro infantil que busca levar acolhimento e representatividade a crianças com diabetes.
Aos 6 anos, ela aprendeu a carregar um doce consigo
Aos 6 anos, Laura Cursino de Sousa aprendeu que precisava estar preparada para uma possível queda da glicemia. Ao sair da escola, teve a primeira hipoglicemia. Depois daquele episódio, outras aconteceram e, ainda criança, ela passou a carregar um doce consigo.
Na época, Laura não imaginava que aquela relação com a glicemia acompanharia diferentes fases de sua vida. Hoje, aos 26 anos, ela é médica, mora em São Paulo e se prepara para a residência médica. O diagnóstico de diabetes tipo 1 veio somente em 2023, aos 23 anos.
No caso dela, trata-se do LADA (diabetes autoimune latente do adulto), uma forma de diabetes autoimune que costuma apresentar evolução mais lenta. Antes do diagnóstico definitivo, porém, sua trajetória já incluía episódios de hipoglicemia e, em 2019, um diagnóstico de pré-diabetes, que levou ao acompanhamento médico e ao controle da glicemia, principalmente por meio da alimentação.
“Apesar de ter recebido o diagnóstico aos 23 anos, essa relação com a doença começou a fazer parte da minha vida muito antes”, conta Laura.
Quando o conhecimento médico encontrou a experiência de paciente
Estudar medicina fez com que Laura conhecesse o diabetes pelo ponto de vista técnico. O diagnóstico, porém, apresentou uma realidade que nenhum conteúdo acadêmico poderia reproduzir completamente.
A partir de então, glicemia, insulina, alimentação e planejamento passaram a fazer parte das decisões do cotidiano. O que antes poderia parecer automático ganhou uma nova camada de atenção.
“Apesar de estudar Medicina e já conhecer o diabetes teoricamente, viver o diagnóstico na própria pele é completamente diferente”, afirma.
A adaptação também envolveu aceitar que aqueles cuidados fariam parte da vida de maneira permanente. Com o tempo, Laura encontrou uma forma de conviver com o diabetes sem permitir que a condição determinasse sua identidade.
Ela continuou estudando, se formou em medicina e começou a construir a carreira que havia escolhido. Mas a experiência de viver o diabetes também despertou nela o desejo de transformar aquilo que sentia em algo que pudesse alcançar outras pessoas.

Da própria experiência nasceu uma personagem
Desde pequena, Laura gostava de escrever. Depois do diagnóstico, percebeu que colocar os sentimentos no papel ajudava a organizar pensamentos e transformar em palavras situações que nem sempre eram fáceis de explicar.
A escrita, então, deixou de ser apenas uma forma de expressão pessoal. Laura começou a pensar em como poderia transformar sua experiência em algo capaz de acolher outras pessoas, principalmente crianças que acabavam de descobrir que teriam uma nova rotina de cuidados.
Foi assim que nasceu “Sofia: A Menina que Carregava Sonhos e Insulina”, livro infantil escrito por Laura.
A personagem tem elementos da experiência da autora, mas não é uma autobiografia. Sofia representa também outras crianças que vivem com diabetes tipo 1 e precisam conciliar os cuidados com tudo aquilo que continua fazendo parte da infância: brincar, estudar, fazer amigos, descobrir o mundo e imaginar o futuro.
“Quis criar uma personagem que tivesse diabetes, mas que fosse muito mais do que o seu diagnóstico”, explica.
Uma criança com diabetes que continua sendo criança
Essa ideia está no centro da história.
Laura não queria escrever apenas um livro que explicasse o que é diabetes. A proposta era apresentar uma personagem com a qual uma criança pudesse se identificar e perceber que o diagnóstico não apaga aquilo que ela era antes dele.
A escolha pelo público infantil veio justamente dessa preocupação. Para uma criança, receber o diagnóstico pode significar aprender, de repente, sobre glicemia, insulina, alimentação e uma série de cuidados que não faziam parte da rotina anteriormente.
Ao mesmo tempo, ela continua querendo brincar, ir à escola, fazer amizades e descobrir o mundo.
“Queria criar uma história que acolhesse essa criança nesse momento, que mostrasse que ela não está sozinha e que é possível aprender a conviver com o diabetes sem deixar de ser criança”, afirma.
Por isso, o diabetes está presente na história de Sofia, mas não ocupa todos os espaços. A personagem tem uma condição de saúde, mas também tem personalidade, desejos e planos.
É justamente aí que Laura encontra uma das principais funções do livro: oferecer representatividade sem reduzir a criança ao diagnóstico.

O diabetes também mudou a forma como ela enxerga a medicina
A experiência de viver com diabetes também modificou a maneira como Laura olha para a profissão que escolheu.
Depois do diagnóstico, ela passou a perceber de outra maneira aquilo que existe por trás de uma orientação médica. Medos, inseguranças, mudanças na rotina e a necessidade de adaptar o tratamento à vida real deixaram de ser apenas conceitos aprendidos durante a formação. Tornaram-se experiências que ela própria precisava administrar.
Para a médica, isso ampliou a empatia na relação com os pacientes e mostrou que uma recomendação que parece simples no consultório pode representar um desafio muito maior para quem precisa colocá-la em prática todos os dias.
“Isso me fez desenvolver ainda mais empatia e perceber que, muitas vezes, aquilo que parece simples na teoria pode ser muito mais complexo para quem está vivendo aquela situação todos os dias”, relata.
A própria rotina profissional também exige planejamento. Como os horários podem ser corridos e imprevisíveis, Laura precisa estar preparada para cuidar da glicemia mesmo durante os compromissos do dia.
Na bolsa, mantém alimentos e tudo o que precisa para lidar com o diabetes. O doce que começou a acompanhá-la na infância continua presente.
“Hoje isso já faz parte da minha vida de uma maneira muito mais natural, mas é um cuidado que está presente todos os dias”, diz.
O livro também fala sobre não ter vergonha do diabetes
Para a autora, representar uma criança com diabetes também significa mostrar os cuidados de saúde de forma natural.
Aplicar insulina, medir a glicemia ou parar para cuidar do corpo não deveria ser motivo de vergonha. Laura gostaria que as crianças pudessem fazer esses cuidados diante de outras pessoas sem sentir que precisam esconder o diabetes para serem aceitas.
A mensagem, segundo ela, é especialmente importante durante a infância, quando a sensação de ser diferente pode ganhar um peso maior.
“Eu gostaria que ela se sentisse acolhida e representada. Que ela pudesse se reconhecer na Sofia e perceber que existem outras crianças vivendo com diabetes, que ela não está sozinha”, afirma.
A representação também alcança as famílias, que passam a acompanhar a criança na adaptação à nova rotina. Encontrar uma história que mostre outras possibilidades pode ajudar a construir uma relação mais leve com o diagnóstico.
Da ideia à publicação
Transformar Sofia em um livro exigiu muito mais do que escrever a história.
Laura precisou pensar na linguagem destinada às crianças, desenvolver a personagem e acompanhar etapas como ilustrações, diagramação e publicação. Tudo isso aconteceu enquanto ela iniciava a carreira médica e se preparava para a residência.
O projeto foi crescendo aos poucos. O que começou como uma maneira de colocar sentimentos no papel se transformou em uma história, depois em um projeto editorial e, finalmente, em um livro publicado.
“Foi um processo muito especial e, ao mesmo tempo, cheio de desafios”, conta.
Para Laura, ver a personagem sair do papel significou também perceber que uma experiência pessoal poderia alcançar outras crianças e famílias que convivem com o diabetes.
Uma mensagem para quem acabou de receber o diagnóstico
Aos 6 anos, Laura aprendeu a carregar um doce consigo. Aos 23, recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1. Aos 26, transformou parte dessa trajetória em uma história destinada a crianças que também estão aprendendo a conviver com a condição.
O caminho entre esses momentos foi marcado por mudanças, adaptação e aprendizado. Mas também pela construção de uma carreira e pela descoberta de que a própria experiência poderia se transformar em uma forma de acolher outras pessoas.
É essa mensagem que Laura gostaria que chegasse a uma criança que acabou de receber o diagnóstico e está com medo de que o diabetes mude o tamanho do futuro.
Ela sabe que a condição pode trazer uma nova rotina e exigir cuidados, mas acredita que isso não precisa determinar até onde uma criança poderá chegar.
“Eu diria para ela não deixar o diabetes decidir o tamanho dos seus sonhos.”
Brincar, viajar, estudar, fazer amigos, praticar esportes, escolher uma profissão e conhecer o mundo continuam sendo possibilidades.
E, para Laura, existe uma mensagem que resume tudo aquilo que ela gostaria que Sofia pudesse transmitir:
“Continue sonhando. O diabetes faz parte da sua vida, mas nunca deve ser maior do que os seus sonhos.”
