A glicose alta pode interferir em tratamentos dentários em pessoas com diabetes, principalmente quando o procedimento exige cicatrização, cirurgia ou resposta do organismo.
O alerta é da dentista Bruna Ricci, especialista em doenças periodontais e dentística, que também convive com diabetes tipo 1 há 29 anos. Em entrevista ao DiabetesCast, ela explicou que a saúde bucal e o controle glicêmico precisam ser avaliados juntos no consultório odontológico.
Tratamentos dentários em pessoas com diabetes exigem controle glicêmico
Segundo Bruna Ricci, muitos pacientes chegam ao consultório com problemas bucais e diabetes tipo 2. Em alguns casos, o tratamento envolve implantes, cirurgias ou outros procedimentos eletivos.
Esses procedimentos exigem um controle glicêmico adequado. A dentista cita o exemplo de um paciente com hemoglobina glicada de 13%. Nesse cenário, um implante odontológico tende a não apresentar resultado esperado.
A explicação está na cicatrização, na formação dos tecidos e na defesa do organismo. Quando a glicose fica elevada, esses processos podem ficar comprometidos. Por isso, o planejamento odontológico precisa considerar o estado geral do paciente.
Quando o procedimento dentário pode esperar
Bruna explica que tratamentos eletivos, como implantes e cirurgias programadas, podem precisar de adiamento quando a glicemia está fora do controle. A decisão depende da avaliação do dentista e do quadro de saúde do paciente.
Nesses casos, o encaminhamento ao endocrinologista faz parte do cuidado. O objetivo é melhorar o controle glicêmico antes de realizar o procedimento. Essa etapa pode reduzir riscos e aumentar a chance de um resultado adequado no tratamento odontológico.
A orientação também reforça a importância da comunicação entre dentista, endocrinologista e paciente. O diabetes não deve ser avaliado apenas pelo olhar odontológico. O tratamento precisa considerar a saúde como um todo.
Dor e abscesso não devem ser ignorados
Nem todo procedimento dentário pode esperar. Segundo Bruna Ricci, casos de dor, abscesso e infecção precisam de atenção. Essas situações podem impactar a saúde geral do paciente.
Quando há dor ou abscesso, o tratamento pode ser realizado mesmo em pessoas com diabetes. A diferença é que o cuidado odontológico deve caminhar junto com o acompanhamento médico.
A dentista explica que o paciente deve ser encaminhado ao endocrinologista para melhorar o controle da glicose. Assim, o tratamento da urgência e o ajuste do diabetes acontecem de forma conjunta.
Cáries e diabetes não têm relação direta
No episódio, Bruna Ricci também explicou a relação entre cáries e diabetes. Segundo ela, a glicose alta no sangue não aumenta diretamente a chance de ter cáries.
A cárie ocorre pela desmineralização do dente. Esse processo acontece quando bactérias produzem ácido na boca. Essas bactérias se alimentam do açúcar, incluindo o açúcar dos doces e dos carboidratos que ficam retidos nos dentes.
Mesmo sem uma relação direta, pessoas com diabetes podem ter fatores de rotina que aumentam o risco. Por isso, a avaliação individual tem papel central na prevenção.
Salivação, lanches e hipoglicemia podem influenciar a saúde bucal
Pessoas com diabetes podem apresentar menor salivação. A saliva ajuda a regular o pH da boca. Quando a salivação diminui, a boca pode ficar mais ácida, o que favorece problemas dentários.
Outro ponto citado é o consumo frequente de lanches. Quando a pessoa come várias vezes ao dia, os dentes ficam mais expostos ao açúcar e aos resíduos de carboidratos.
A correção da hipoglicemia também entra nessa discussão. Muitas pessoas usam açúcar ou bebidas açucaradas para tratar uma queda de glicose. Quando isso acontece à noite, a escovação nem sempre vem depois.
Bruna relatou que, em uma pesquisa informal feita por ela, todos os pacientes com diabetes consultados disseram não escovar os dentes após uma hipoglicemia noturna. Esse hábito pode aumentar o risco para a saúde bucal.
Escovação correta e fio dental fazem parte do cuidado
A dentista orienta que a escovação seja feita três vezes ao dia. Escovar mais do que isso não é indicado para todos, porque pode causar desgaste dental.
O tempo de escovação também importa. Segundo Bruna, o ideal é escovar por dois minutos, dividindo 30 segundos para cada quadrante da boca.
Ela também destaca o uso do fio dental pelo menos uma vez ao dia. Quando há alimento preso entre os dentes, o fio dental também deve ser usado.
No consultório, Bruna utiliza corantes para mostrar ao paciente onde a escovação falha. A estratégia ajuda a ensinar a técnica correta e mostra que apenas escovar não garante remoção adequada da placa.
Enxaguante bucal não substitui escova e fio dental
Bruna Ricci também alerta que muitos enxaguantes têm função cosmética. Eles podem deixar o hálito refrescante, mas não removem placa bacteriana.
A remoção da placa depende da escova e do fio dental. O enxaguante pode ter indicação em situações específicas, como doença periodontal, pós-cirúrgico, estímulo salivar ou aumento de flúor.
O uso deve ser orientado pelo dentista. Nem todo paciente precisa incluir enxaguante na rotina.
Dentistas também podem identificar sinais de diabetes
A entrevista também chama atenção para o papel do dentista na identificação de problemas de saúde. Bruna afirma que profissionais da odontologia devem observar sinais que podem indicar condições como diabetes e hipertensão.
Isso vale principalmente para pessoas com diabetes tipo 2 que ainda não receberam diagnóstico. Problemas bucais recorrentes, infecções e dificuldade de cicatrização podem exigir uma investigação mais ampla.
A saúde bucal e a saúde geral não devem ser tratadas separadamente. Para quem convive com diabetes, o consultório odontológico também pode ser um ponto de cuidado e orientação.