Era uma manhã como qualquer outra quando a glicemia de Leonardo Enrique Baesso despencou. A mãe nem teve tempo de pegar o glicosímetro, mas ao chegar ao hospital o nível marcava 54 mg/dl. O adolescente de 13 anos, diagnosticado com diabetes tipo 1 em outubro de 2025, estava em hipoglicemia severa. No corre para o hospital, o pai, Lucimar Paulo Baesso, tropeçou e quebrou o dedo do pé. Na hora nem percebeu, porque a única coisa que importava era colocar o filho em segurança.
Por sorte, Leonardo não precisou de UTI. Ficou em observação até a tarde e foi para casa. Essa história, vivida pela família de Eliane e Lucimar Baesso em Erechim (RS), não é uma exceção: a hipoglicemia grave pode acontecer de forma rápida e silenciosa, desestabilizando não apenas quem tem diabetes, mas todos ao redor.
O que é hipoglicemia e por que pode virar emergência
A hipoglicemia e definida pela queda da glicose no sangue abaixo de 70 mg/dL. Em casos mais graves, os níveis caem ainda mais, comprometendo o funcionamento do cérebro e podendo levar a perda de consciência, convulsões e até coma. Para crianças e adolescentes com diabetes tipo 1, como Leonardo, o risco e ainda maior: a capacidade de reconhecer os próprios sintomas ainda está em desenvolvimento.
Os sinais mais comuns incluem sudorese, tremores, taquicardia, palidez, fome intensa, irritabilidade, dor de cabeça, visão turva e confusão mental. Nos casos mais graves, pode ocorrer perda de consciência ou convulsão. O problema e que, muitas vezes, o episódioavança antes que a pessoa ou a família consiga identificar o que está acontecendo.
| Nivel de glicose | Classificacao e conduta |
| 70 a 54 mg/dl | Hipoglicemia leve a moderada: agir imediatamente com carboidrato de rápida absorção |
| Abaixo de 54 mg/dl | Hipoglicemia grave: risco elevado de perda de consciência, buscar socorro médico |
| Com perda de consciência | Emergência: não oferecer alimentos pela boca, chamar SAMU (192) imediatamente |
A manhã que a família não esquece
Eliane conta que, desde o diagnóstico em outubro de 2025, a família já adquiria o sensor FreeStyle Libre por conta própria e Leonardo nunca ficou sem usar. Ainda assim, a crise de marco de 2026 chegou rápido demais. Na correria, nem houve tempo de pegar o glicosímetro. Só depois de entregar Leonardo a equipe médica e que o pai percebeu que estava machucado.
Leonardo também tem histórico de epilepsia, o que torna a identificação dos sintomas ainda mais desafiadora, já que uma crise convulsiva pode ser confundida com uma crise hipoglicêmica. Esse tipo de sobreposição reforça a importância de um monitoramento contínuo e confiável.
Para Eliane Baesso não dá nem imaginar como mães recebem o diagnóstico dos filhos sem a opção do sensor. “Não consigo imaginar. O fato de não ter que estar furando meu filho a cada pouco já e um acalento pro coracao, conta a mãe do Leonardo.
Fatores que precipitam a hipoglicemia: o que as famílias precisam saber
A hipoglicemia não acontece do nada. Existem fatores precipitantes que as famílias de crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 devem conhecer para agir preventivamente.
Principais fatores de risco em crianças e adolescentes
• Dose excessiva de insulina ou erro na técnica de aplicação
• Omissão ou aceitação parcial de uma refeição
• Atividade física ou brincadeiras extenuantes sem ajuste prévio
• Alterações no sono (sono prolongado pode mascarar a queda glicêmica)
• Jejum prolongado para exames ou procedimentos
• Calor intenso: favorece absorção mais rápida da insulina
• Comorbidades como epilepsia, que podem complexificar o quadro clínico
Como o sensor de monitoramento contínuo muda o cenário
O sensor de monitoramento contínuo de glicose (CGM) registra os níveis de glicose em tempo real, com alertas programáveis que avisam quando os níveis estão caindo, antes que a crise se instale. Para famílias como a de Leonardo, o dispositivo já faz parte da rotina desde o diagnóstico.
A Prefeitura de Erechim, no Rio Grande do Sul, realizou em 30 de abril de 2026 a entrega de sensores CGM para crianças e adolescentes com diabetes tipo 1 entre 2 e 17 anos residentes no município. O investimento superou R$ 320 mil, com recursos próprios e emendas impositivas de vereadores. Para a família de Leonardo, o alívio e concreto: antes da distribuição, o custo mensal do dispositivo chegava a R$ 660.
O que fazer durante uma crise hipoglicemica
Saber como agir faz diferença direta no desfecho. As orientações das Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) indicam uma resposta escalonada conforme a gravidade.
| Hipoglicemia leve ou moderada (glicose entre 54 e 70 mg/dL)• Oferecer imediatamente 15 g de carboidrato de rápida absorção: 1 copo de suco de laranja natural, 3 a 4 balas de glucose, 1 colher de mel ou 150 mL de refrigerante comum• Aguardar 15 minutos e medir novamente a glicemia• Se ainda abaixo de 70 mg/dL, repetir o procedimento• Após normalização, oferecer um lanche leve com carboidrato e proteína |
| Hipoglicemia grave (com perda ou risco de perda de consciência)• Não oferecer nada pela boca: risco de aspiração• Posicionar a pessoa de lado (posição lateral de segurança)• Chamar o SAMU: 192• Se disponível e orientado por médico, aplicar glucagon• Ir imediatamente ao pronto-socorro mais próximo |
O que as famílias podem fazer agora
• Conhecer os sintomas de hipoglicemia específicos para a faixa etária do filho
• Manter sempre uma fonte de carboidrato de rápida absorção disponível (bala de glucose, suco, gel de glucose)
• Treinar outros cuidadores e membros da família para reconhecer e agir em crises
• Perguntar ao endocrinologista sobre a indicação de monitoramento contínuo de glicose (CGM)
• Verificar se o município ou o SUS oferece acesso ao sensor
• Estabelecer alertas no sensor para receber aviso antes que a glicose caia para níveis críticos
• Não adiar a busca por ajuda médica ao menor sinal de crise