O inverno chegou e, com ele, o aumento dos casos de gripe. Para a maioria das pessoas, a infecção significa alguns dias de desconforto, repouso e chá. Para quem convive com diabetes, no entanto, o quadro pode ser bem mais sério, e exige atenção desde os primeiros sintomas.
O problema começa no próprio mecanismo de defesa do organismo. Ao enfrentar o vírus, o corpo libera hormônios do estresse, como o cortisol e a adrenalina, que reduzem a eficácia da insulina. Ao mesmo tempo, o organismo produz glicose adicional para fornecer energia ao sistema imunológico. O resultado é uma elevação da glicemia difícil de controlar, inclusive em quem segue o plano terapêutico à risca.
Por que a gripe é mais perigosa para quem tem diabetes
Quando a insulina perde eficiência e a glicose se acumula no sangue, o organismo busca outra fonte de energia: as cetonas. A combinação de cetonas elevadas com hiperglicemia torna o sangue excessivamente ácido. Essa condição, chamada cetoacidose diabética, é uma emergência médica e exige atenção imediata.
Outro risco é a síndrome hiperglicêmica hiperosmolar não cetótica. Ela ocorre quando a glicose sobe tanto que o corpo tenta compensar eliminando o excesso pela urina, levando à desidratação severa. Trata-se também de uma emergência com risco de vida.
Além dessas complicações metabólicas, o sistema imunológico enfraquecido deixa o organismo mais vulnerável a infecções secundárias, como pneumonia e bronquite. Em pessoas com diabetes, essas condições costumam evoluir com maior gravidade e maior taxa de hospitalização.
“A gripe coloca o organismo em estado de alerta máximo. Esse estresse fisiológico eleva hormônios que competem diretamente com a ação da insulina, e o resultado é uma hiperglicemia que pode persistir por dias, mesmo com o tratamento habitual mantido”, explica o infectologista Igor Marinho.
A vacinação é a principal forma de prevenção
O Ministério da Saúde recomenda que pessoas com diabetes tomem a vacina contra a gripe anualmente. A imunização reduz significativamente as chances de contrair o vírus e, principalmente, de desenvolver complicações. A recomendação, segundo Igor Marinho, se estende também à vacina antipneumocócica, já que o risco de a gripe evoluir para pneumonia é mais elevado nesse grupo. Pessoas com alergia a ovos devem consultar o médico antes da vacinação.
O que fazer se a gripe já chegou
Mesmo com todas as precauções, o contágio pode acontecer. O vírus influenza é altamente contagioso e muda constantemente. Nesse caso, monitorar a glicemia com mais frequência é o primeiro passo. A Associação Americana de Diabetes orienta que pessoas com diabetes tipo 1 meçam a glicose a cada quatro horas durante a doença. Para quem tem diabetes tipo 2, a recomendação é de pelo menos quatro medições diárias.
“Na presença de qualquer infecção, a orientação é aumentar a frequência das medições de glicose. Não espere sentir sintomas de descompensação para agir. O monitoramento frequente é o que permite corrigir o curso antes que a situação fuja do controle”, alerta o médico.
A hidratação também é fundamental. Além de apoiar a recuperação, ingerir líquidos em quantidade adequada ajuda a eliminar o excesso de glicose e cetonas pelo organismo. O plano alimentar pode precisar de ajustes pontuais, especialmente em relação à quantidade de carboidratos, com orientação da equipe de saúde.
Um detalhe que costuma passar despercebido: muitos medicamentos vendidos sem receita para gripe e resfriado contêm açúcar na formulação. Ao comprar xaropes ou antigripais, vale verificar a composição ou pedir orientação ao farmacêutico sobre versões sem açúcar.
Quanto antes a gripe for diagnosticada, melhor. Os medicamentos antivirais funcionam melhor nas primeiras 48 horas da infecção. Iniciados nesse prazo, podem reduzir significativamente as chances de complicações, o que é especialmente relevante para quem tem diabetes.
Sinais que pedem atendimento imediato
A Associação Americana de Diabetes aponta os principais sinais de alerta durante um episódio gripal que merecem avaliação médica. Vômito ou diarreia que persistam por mais de seis horas exigem atenção, assim como febre ou mal-estar que não melhorem em dois dias. Glicemia acima de 240 mg/dl e cetonas moderadas a altas na urina também indicam a necessidade de avaliação. O mesmo vale para sintomas de cetoacidose, como hálito adocicado, dificuldade para respirar, boca e pele secas ou confusão mental. Sinais de desidratação completam a lista de alertas.
Esses são indicativos de que o organismo está sob estresse além do que o tratamento habitual consegue compensar. Nesses casos, a intervenção médica precisa ser rápida.
