A rotina de quem vive com diabetes tipo 1 depende do acesso contínuo à insulina, ao monitoramento da glicose e a outros insumos essenciais. Na Faixa de Gaza, porém, pessoas com a condição enfrentam dificuldades para manter o tratamento em meio à escassez de medicamentos e equipamentos.
Aos 20 anos, Hamza Al-Ghazali convive com diabetes tipo 1 desde 2015, quando recebeu o diagnóstico aos 9 anos. Atualmente, ele mora no bairro de Al-Zaytoun, no norte da Faixa de Gaza, região onde relata dificuldades para conseguir insulina e materiais necessários para o controle da glicose.
Como era o acesso à insulina antes da guerra
Segundo Hamza, antes da guerra ele já precisava custear integralmente o próprio tratamento. Por não ser refugiado, não tinha acesso aos programas de distribuição gratuita oferecidos em algumas clínicas voltadas a refugiados.
Ele conta que comprava toda a insulina e os suprimentos com recursos próprios. Para manter o tratamento, utilizava mensalmente três canetas de NovoRapid, insulina de ação rápida, e três canetas de Levemir, insulina de ação prolongada.
Na época, cada caneta de insulina custava cerca de 35 shekels israelenses (ILS), o equivalente a aproximadamente R$ 61, considerando a cotação atual da moeda. Hoje, segundo Hamza, o preço varia entre 35 e 90 ILS por caneta, o que corresponde a cerca de R$ 61 a R$ 157, quando o produto está disponível.

Escassez obrigou redução da alimentação
Durante os períodos de bloqueio e falta de insulina, Hamza afirma que precisou mudar a própria rotina para tentar preservar o medicamento disponível.
Segundo ele, a estratégia foi reduzir drasticamente a quantidade de alimentos consumidos para fazer uma única caneta durar mais tempo.
“Fui forçado a racionar rigorosamente minha alimentação e comer muito menos, apenas para fazer com que uma única caneta de insulina durasse o máximo possível”, relata.
Embora não tenha desenvolvido complicações físicas graves até o momento, ele afirma que o cenário gera preocupação constante entre as pessoas que dependem da insulina diariamente.
Falta de tiras de glicemia se tornou um dos principais desafios
Além da dificuldade para encontrar insulina, Hamza afirma que a falta de glicosímetros e de tiras reagentes para medir a glicose também compromete o controle do diabetes tipo 1 em Gaza.
Segundo ele, entram quantidades limitadas desses materiais no território. Como consequência, as tiras disponíveis costumam acabar rapidamente.
Quando isso acontece, muitas pessoas precisam comprar um aparelho novo apenas para conseguir acesso a um novo conjunto de tiras de teste.
De acordo com Hamza, o preço de um único glicosímetro ultrapassou 100 dólares em alguns momentos.
Nesse contexto, o monitoramento da glicose, etapa fundamental do tratamento do diabetes tipo 1, também passa a ser comprometido.
Grupo reúne relatos de pessoas sem acesso à insulina
Hamza participa de um grupo de WhatsApp que conecta pessoas com diabetes tipo 1 em diferentes regiões de Gaza. Segundo ele, os relatos de dificuldades para encontrar insulina são frequentes.
As mensagens incluem pedidos de ajuda para localizar canetas de insulina disponíveis e relatos de pessoas que não conseguem comprar o medicamento mesmo quando ele aparece para venda.
Além disso, Hamza afirma que muitos pacientes enfrentam dificuldades financeiras para adquirir os produtos quando eles chegam ao mercado.

Mercado paralelo influencia os preços
O custo da insulina também mudou ao longo do conflito. Antes da guerra, Hamza pagava cerca de 35 shekels israelenses (ILS), o equivalente a aproximadamente R$ 61, por cada caneta de insulina. Atualmente, segundo ele, os preços variam entre 35 e 90 ILS por unidade, o que corresponde a cerca de R$ 61 a R$ 157, quando o medicamento pode ser encontrado.
Ele relata que a comercialização ocorre principalmente por meio do mercado paralelo, o que gera variações constantes de preço e disponibilidade.
Por outro lado, a instabilidade do fornecimento faz com que muitas pessoas não saibam quando conseguirão adquirir a próxima caneta necessária para o tratamento.
Ministério da Saúde de Gaza e ajuda humanitária
Hamza explicou que o Ministério da Saúde citado por ele é o Ministério da Saúde de Gaza, que atua de forma independente do Ministério da Saúde da Palestina vinculado à Autoridade Nacional Palestina.
Segundo o jovem, algumas organizações humanitárias internacionais também conseguem coordenar a entrada de caminhões com suprimentos médicos para o território.
Ainda assim, ele relata que a chegada desses materiais não tem sido suficiente para garantir acesso contínuo aos insumos necessários para todas as pessoas que vivem com diabetes tipo 1.
O que Hamza gostaria que o mundo entendesse

Ao falar sobre a situação enfrentada por pessoas com diabetes em Gaza, Hamza afirma que gostaria que houvesse maior atenção internacional para a questão.
Segundo ele, existe uma comunidade significativa de pessoas com diabetes tipo 1 que depende diariamente do acesso à insulina para sobreviver.
Hamza também defende que a cobertura jornalística internacional acompanhe de forma contínua os impactos da escassez de medicamentos e equipamentos utilizados no tratamento.
A falta de insulina e de materiais para monitoramento da glicose representa um risco para pessoas com diabetes tipo 1, já que o tratamento depende desses recursos para o controle da condição.
Instituições foram procuradas pelo Um Diabético
Para compreender melhor a situação, o jornalismo do Um Diabético entrou em contato com as organizações Life for a Child e T1 International.
A reportagem buscou informações sobre o cenário atual do atendimento às pessoas com diabetes em Gaza, possíveis formas de ajuda humanitária e iniciativas em andamento relacionadas ao fornecimento de insulina e insumos. Até a publicação desta reportagem, não houve retorno das instituições.