Muitas pessoas com diabetes associam qualquer aumento da glicose ao que foi consumido nas refeições. No entanto, especialistas alertam que a alimentação é apenas uma parte da equação. Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco e o endocrinologista Ricardo de Rienzo, existem pelo menos 42 fatores capazes de influenciar o controle glicêmico, e apenas nove deles estão diretamente relacionados à alimentação.
A explicação foi apresentada durante um episódio do DiabetesCast e ajuda a responder uma dúvida comum entre pessoas que convivem com diabetes: por que a glicose sobe mesmo quando a alimentação permanece igual de um dia para o outro?
Alimentação influencia, mas não explica tudo
A alimentação continua sendo um dos pilares do tratamento do diabetes. A quantidade e o tipo de carboidrato consumido têm impacto direto sobre a glicemia. Além disso, fatores como proteínas, gorduras, álcool, cafeína, hidratação, horário das refeições e microbiota intestinal também podem interferir na resposta glicêmica.
Segundo Denise Franco, muitas pessoas recebem o diagnóstico e imediatamente passam a pensar apenas no que podem ou não comer. No entanto, limitar o controle do diabetes à alimentação não reflete a complexidade da doença.
Ricardo de Rienzo destaca que dos 42 fatores discutidos pelos especialistas, apenas nove estão ligados à comida. Os outros 33 envolvem aspectos biológicos, comportamentais, ambientais e relacionados ao tratamento.
Sono e estresse podem aumentar a glicose
Uma noite mal dormida pode afetar diretamente o controle glicêmico. Segundo os especialistas, a privação de sono interfere no metabolismo e dificulta o controle da glicose ao longo do dia.
Além disso, o estresse também exerce influência importante. Situações de pressão, preocupações e excesso de tarefas estimulam a liberação de hormônios que podem elevar a glicemia, mesmo quando a alimentação permanece inalterada.
Nesse contexto, duas pessoas podem consumir exatamente o mesmo café da manhã e apresentar respostas glicêmicas diferentes dependendo da qualidade do sono ou do nível de estresse daquele dia.
Infecções e doenças também alteram a glicemia
Quando o organismo enfrenta uma infecção ou outro problema de saúde, a glicemia pode sair do padrão habitual. Segundo Denise Franco, algumas infecções podem provocar aumento da glicose, enquanto outras podem inicialmente favorecer episódios de hipoglicemia.
Além disso, doenças associadas ao diabetes, como a doença celíaca, também podem modificar a absorção dos nutrientes e interferir no controle glicêmico.
Exercício físico pode aumentar ou reduzir a glicose
A atividade física costuma ser lembrada como uma ferramenta para reduzir a glicemia. No entanto, o efeito não é igual em todas as situações.
Segundo Ricardo de Rienzo, fatores como intensidade, duração, horário e tipo de exercício influenciam diretamente a resposta glicêmica. Exercícios de menor intensidade costumam aumentar o consumo de glicose e favorecer quedas glicêmicas. Por outro lado, atividades mais intensas podem estimular a liberação de adrenalina e provocar aumento temporário da glicose.
Além disso, o mesmo exercício pode produzir respostas diferentes dependendo do horário em que é realizado ou da rotina individual de cada pessoa.
Medicamentos podem interferir no controle do diabetes
Outro grupo importante envolve as medicações. A dose, o horário de uso e a interação entre diferentes medicamentos podem alterar a glicemia.
Entre os exemplos citados pelos especialistas está o corticoide. O medicamento pode elevar os níveis de glicose e, em algumas situações, favorecer o aparecimento do chamado diabetes medicamentoso em pessoas que já apresentam predisposição para a doença.
Além disso, medicamentos utilizados no tratamento da depressão também podem interferir no controle glicêmico. Por esse motivo, os endocrinologistas recomendam que toda mudança de tratamento seja informada à equipe de saúde responsável pelo acompanhamento do diabetes.
Hormônios influenciam a necessidade de insulina
As alterações hormonais representam outro grupo importante entre os fatores que afetam a glicemia.
Nas mulheres, o ciclo menstrual pode provocar mudanças significativas. Segundo Denise Franco, o período pré-menstrual costuma favorecer episódios de hiperglicemia, enquanto os primeiros dias da menstruação podem aumentar o risco de hipoglicemia.
Já durante a puberdade, adolescentes podem apresentar aumento importante da necessidade de insulina devido às alterações hormonais e ao crescimento acelerado. Além disso, o aumento do apetite também faz parte desse processo fisiológico.
Problemas na aplicação da insulina podem causar glicose alta
Nem sempre uma glicemia elevada está relacionada à alimentação ou aos hormônios. Em alguns casos, a causa pode estar na aplicação da insulina.
Os especialistas alertam que a aplicação repetida no mesmo local pode provocar lipohipertrofia, conhecida popularmente como caroço ou endurecimento da pele. Essa alteração dificulta a absorção adequada da insulina e pode comprometer o controle glicêmico.
Além disso, quem utiliza bomba de insulina deve observar possíveis problemas na cânula, como obstruções ou desconexões, que podem resultar em aumento da glicose.
Meio ambiente também pode interferir
Fatores ambientais também entram na lista dos 42 elementos que influenciam a glicemia.
Temperaturas extremas, queimaduras solares, desidratação, altitude e até mudanças de pressão durante viagens aéreas podem interferir tanto nas leituras dos dispositivos quanto no controle glicêmico.
Além disso, o armazenamento inadequado da insulina pode reduzir sua eficácia e comprometer o tratamento.
Autocuidado ajuda a entender os padrões da glicose
Para Ricardo de Rienzo, existe um elemento que conecta todos os demais fatores: o autocuidado. Segundo o endocrinologista, entender os próprios padrões, observar a rotina e aprender com as oscilações da glicemia são etapas importantes para o manejo do diabetes.
Denise Franco reforça que uma glicemia alta não deve ser encarada automaticamente como consequência de um erro alimentar. Antes de buscar uma explicação, vale considerar fatores como sono, estresse, doenças, medicamentos, atividade física, hormônios e outros aspectos do dia a dia.
