O número de mulheres em idade fértil com diabetes vem crescendo no Brasil e no mundo, especialmente entre aquelas com diabetes tipo 2.
Nesse cenário, a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) atualizou as orientações sobre diabetes e gravidez. Nesse sentido, a explicação é da endocrinologista Lenita Zajdenverg, coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD. Ela detalhou ao Portal Um Diabético os principais pontos da atualização.
Por que o controle da glicemia antes de engravidar é tão importante
Segundo a especialista, tanto mulheres com diabetes tipo 1 quanto com diabetes tipo 2 que engravidam com controle glicêmico inadequado têm risco aumentado de complicações. Níveis elevados de glicose, especialmente nas primeiras semanas de gestação, aumentam significativamente o risco de malformações fetais, explica Lenita. Segundo ela, a glicose mal controlada ao longo da gestação também aumenta outros riscos. Entre eles estão bebês grandes para a idade gestacional, hipoglicemia e traumatismo no parto.
Quando a gravidez deve ser adiada
Com base nesses riscos, a nova diretriz da SBD recomenda que mulheres com hemoglobina glicada acima de 9% sejam aconselhadas a evitar engravidar. Nesse caso, a hemoglobina glicada é o exame que avalia o controle glicêmico médio dos últimos dois meses.
“A decisão de engravidar é da mulher, mas o profissional de saúde deve aconselhar a evitar a gravidez quando a hemoglobina glicada estiver acima de 9%, e orientar sobre métodos contraceptivos eficazes nesse período.”
Lenita Zajdenverg | Coordenadora do Departamento de Diabetes Gestacional da SBD
Já o momento ideal para engravidar, segundo a diretriz, varia conforme o tratamento. Mulheres que não usam medicamentos com risco de hipoglicemia devem buscar hemoglobina glicada até 6% antes de engravidar. Para quem usa insulina ou outros medicamentos com esse risco, no entanto, o valor aceitável sobe para até 6,5%.
Canetas emagrecedoras: por que ainda não são recomendadas na gravidez
O uso de canetas antiobesidade tem crescido entre mulheres com diabetes tipo 2, incluindo aquelas em idade fértil. Nesse contexto, a diretriz reforça um alerta: ainda não há estudos de segurança sobre o uso dessas medicações durante a gestação. Segundo Lenita, existem relatos de mulheres que usaram essas canetas inadvertidamente no primeiro trimestre, sem saber que estavam grávidas.
Nesses casos, não houve efeitos adversos relatados na fase inicial. Estudos em modelos animais, no entanto, mostram associação com alteração do crescimento fetal. Por isso, até o momento, o uso dessas medicações não é recomendado durante a gestação, reforça a especialista.
Por isso, o ideal é que, no momento do planejamento da gravidez, essas canetas sejam substituídas por outras medidas eficazes para o tratamento do diabetes. Além disso, a recomendação inclui mudanças no estilo de vida que evitem o reganho de peso nessa fase.
Monitoramento contínuo de glicose ganha espaço na gestação
A diretriz também passa a indicar mais o uso de tecnologia no acompanhamento da gravidez. Estudos recentes mostram que o sensor de glicose ajuda a melhorar os resultados da gestação. Esse benefício é observado principalmente em mulheres com diabetes tipo 1. A especialista explica que a recomendação vale para o uso do monitoramento contínuo associado ao monitoramento capilar.
Isso vale para mulheres com diabetes tipo 1, diabetes tipo 2 e diabetes gestacional que fazem uso de insulina. Os estudos ainda são escassos, mas alguns mostram vantagem do uso do CGM, que pode ser considerado uma indicação junto à glicose capilar, afirma Lenita.
Insulina segue como primeira escolha e metformina pode ser associada
Em relação ao tratamento medicamentoso, a insulina segue como primeira escolha para mulheres com diabetes gestacional sem resposta à mudança de estilo de vida. A recomendação vale também para todas as mulheres com diabetes tipo 1 e tipo 2.
Em mulheres com diabetes tipo 2 que evoluem com ganho de peso excessivo, tanto materno quanto fetal, a especialista recomenda associar a metformina. A mesma orientação vale quando há dificuldade de controle glicêmico apenas com insulina. Ela também vale para mulheres com diabetes gestacional com ganho de peso fetal excessivo e mau controle, mesmo com uso de insulina, completa Lenita.
Vacinação e ácido fólico no planejamento
A diretriz também destaca a importância da vacinação dentro do calendário vacinal brasileiro, antes de engravidar. Algumas vacinas, no entanto, são indicadas mesmo durante a gestação, como as de vírus sincicial respiratório, antitetânica e covid-19.
Além disso, a recomendação de uso do ácido fólico deve começar no planejamento da gravidez e seguir até a 12ª semana de gestação.
