Um hambúrguer vegetal pode parecer uma escolha naturalmente mais saudável do que um alimento de origem animal. No entanto, para quem tem diabetes, olhar apenas para a palavra “vegetal” na embalagem não conta toda a história. O mesmo vale para uma alimentação sem carne: retirar determinados alimentos não garante, por si só, uma refeição equilibrada. A diferença está no que aparece no lugar deles.
Feijão, lentilha, grão-de-bico, tofu, verduras, legumes, cereais integrais, sementes e oleaginosas podem fazer parte de um padrão alimentar baseado em vegetais. Por outro lado, pães, massas, biscoitos, doces e produtos ultraprocessados também podem estar presentes em uma dieta vegetariana ou vegana. Segundo a nutricionista Martha Amodio, uma das principais perguntas antes de mudar a alimentação deve ser: “O que vai entrar no lugar?”.
Alimentos vegetais não são todos iguais
Uma alimentação vegetariana ou vegana pode ser adequada para pessoas com diabetes tipo 2 quando é planejada de forma a atender às necessidades nutricionais individuais. A Sociedade Brasileira de Diabetes reconhece diferentes abordagens nutricionais para o diabetes tipo 2 e recomenda, de forma geral, uma alimentação equilibrada, com atenção à qualidade dos carboidratos, priorizando alimentos ricos em fibras e minimamente processados e reduzindo carboidratos refinados e açúcares adicionados.
Contudo, isso não significa que exista um único modelo de alimentação adequado para quem tem diabetes, como explica Martha:
“É perfeitamente possível ter uma alimentação vegetariana ou vegana rica em pães, massas, biscoitos, doces e produtos ultraprocessados. Portanto, ser vegetariano ou vegano, por si só, não garante melhor qualidade da alimentação nem melhor controle do diabetes.”
Para a nutricionista, o mais importante é olhar o conjunto: a qualidade e a quantidade dos carboidratos, a adequação das proteínas, gorduras, fibras, vitaminas e minerais, a variedade dos alimentos e a resposta glicêmica. É justamente por isso que olhar apenas para a origem vegetal de um alimento pode ser insuficiente. Na prática, dois produtos feitos à base de vegetais podem ter composições muito diferentes, especialmente quando um deles é ultraprocessado.
Plant-based é mesmo saudável?
Nos últimos anos, a oferta de produtos apresentados como alternativas aos alimentos de origem animal aumentou. Hambúrgueres vegetais, nuggets, almôndegas, salsichas e outros produtos plant-based podem facilitar a rotina ou ajudar algumas pessoas durante a transição para uma alimentação vegetariana ou vegana. O problema aparece quando esses produtos passam a ocupar o lugar dos alimentos vegetais menos processados na maior parte das refeições.
O Guia Alimentar para a População Brasileira recomenda que a alimentação tenha como base alimentos in natura ou minimamente processados e orienta limitar o consumo de alimentos ultraprocessados. Logo, feijão, lentilha, grão-de-bico, arroz, frutas, verduras, legumes, castanhas e sementes estão entre os alimentos que podem compor essa base. Entretanto, é importante ressaltar que um produto vegetal ultraprocessado não é nutricionalmente equivalente a uma preparação feita com alimentos não industrializados ou minimamente processados apenas porque todos são de origem vegetal. A nutricionista reforça que é preciso olhar além da frente da embalagem:
“Não basta ler ‘vegano’ ou ‘plant-based’ na frente da embalagem. É preciso virar a embalagem e ler a lista de ingredientes e a tabela nutricional”, orienta a especialista.
Isso não significa que esses produtos precisem ser completamente excluídos. Eles podem ter uma função prática e fazer parte das escolhas individuais. A questão é não confundir uma alternativa industrializada com a base de uma alimentação variada.
O que colocar no lugar da carne?
Quando a carne deixa de fazer parte da refeição, uma das preocupações é o que ocupará esse espaço no prato. Uma possibilidade é aumentar a participação das leguminosas, como feijão, lentilha, grão-de-bico e ervilha. Tofu, tempeh e edamame, derivados da soja, também podem contribuir para a ingestão de proteínas. Nesse contexto, o tradicional arroz com feijão continua sendo uma combinação possível dentro de uma alimentação baseada em vegetais.
“As leguminosas fornecem proteína vegetal, fibras, carboidratos, vitaminas, minerais e diferentes compostos bioativos”, afirma a especialista.
Ela também destaca que não é necessário buscar alimentos considerados “da moda” para construir uma boa alimentação vegetariana. A variedade pode ser alcançada com alimentos presentes na rotina brasileira. A ideia, portanto, não é encontrar um único alimento capaz de substituir a carne, mas distribuir diferentes fontes de nutrientes ao longo do dia e da semana.
Feijão, lentilha e grão-de-bico também têm carboidratos
Para quem tem diabetes, existe um detalhe importante nessa substituição: os alimentos não precisam pertencer a uma única categoria nutricional.
Feijão, lentilha e grão-de-bico são fontes de proteína vegetal, mas também fornecem carboidratos. Por isso, a retirada da carne não significa que a quantidade total de carboidratos da refeição deixe de ser relevante. O mesmo vale para arroz, massas, batatas, pães e outros alimentos que podem aumentar de quantidade quando a carne é retirada do prato. “Os alimentos não cabem sempre em uma única ‘caixinha’”, como explica a especialista.
A composição da refeição continua sendo importante. A quantidade de carboidratos, a presença de fibras, as fontes de proteína e gordura e o tamanho da porção precisam ser considerados em conjunto. A própria Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes destaca a importância de priorizar fontes de carboidratos ricos em fibras e minimamente processados e reduzir o consumo de carboidratos refinados no diabetes tipo 2.
Uma alimentação vegetariana pode mudar a glicemia?
Estudos clínicos indicam que padrões vegetarianos e veganos podem ser considerados entre as opções de cuidado nutricional para adultos com diabetes tipo 2. Uma revisão sistemática e meta-análise publicada em 2024 reuniu sete ensaios clínicos randomizados e encontrou redução da hemoglobina glicada e do índice de massa corporal nos grupos que seguiram padrões vegetarianos, em comparação com dietas não vegetarianas.
Os autores classificaram como moderada a certeza das evidências para esses dois resultados. Para outros desfechos, como sensibilidade à insulina e redução de medicamentos, a certeza foi menor. A revisão não encontrou efeito significativo sobre glicemia de jejum, insulina de jejum ou colesterol LDL.
Os resultados não significam que retirar a carne, isoladamente, seja responsável por melhorar a glicemia. A composição geral da alimentação e outros fatores do tratamento também influenciam os resultados. Por isso, uma alimentação baseada em vegetais precisa ser avaliada pelo conjunto das escolhas, e não apenas pela ausência de produtos de origem animal.
E quem segue uma alimentação vegana?
Quando a alimentação exclui todos os alimentos de origem animal, alguns nutrientes merecem atenção especial. A vitamina B12 é um dos principais exemplos. Ela está naturalmente presente em alimentos de origem animal, enquanto alimentos vegetais só fornecem B12 quando são fortificados. Por isso, pessoas que seguem uma alimentação vegana precisam garantir a ingestão adequada por meio de alimentos fortificados ou suplementação orientada por profissional de saúde.
Mas, de acordo com a nutricionista, outros nutrientes também podem exigir atenção, dependendo de como a alimentação é construída. Entre eles estão ferro, cálcio, vitamina D, zinco, iodo e ômega 3, além da quantidade adequada de proteínas.
No caso do ferro, uma das estratégias práticas é combinar fontes vegetais de ferro, como feijões e outras leguminosas, com alimentos ricos em vitamina C na mesma refeição, uma vez que essa combinação ajuda a favorecer a absorção do ferro não heme.
Mas isso não significa que toda pessoa vegetariana ou vegana precise utilizar vários suplementos . A necessidade depende do padrão alimentar, da fase da vida, das condições individuais e, quando indicado, dos exames laboratoriais.
Quem usa insulina precisa ficar atento à mudança
A alimentação vegetariana ou vegana não determina, sozinha, uma quantidade maior ou menor de carboidratos. Tudo depende de como as refeições são construídas. Ainda assim, uma mudança significativa no padrão alimentar pode alterar a quantidade, a qualidade e a distribuição dos carboidratos ao longo do dia. Para quem utiliza insulina ou medicamentos associados ao risco de hipoglicemia, isso pode exigir acompanhamento e eventual ajuste do tratamento.
Para quem utiliza insulina nas refeições, por exemplo, a quantidade de carboidratos continua sendo relevante para o cálculo da dose. Já para pessoas que usam doses fixas de insulina ou determinados medicamentos, uma mudança importante na alimentação sem o ajuste correspondente pode aumentar o risco de hipoglicemia.
Por isso, a recomendação é conversar com o seu médico antes de fazer mudanças importantes na alimentação e não alterar doses de insulina ou medicamentos por conta própria. Para quem usa sensor de glicose, o período de adaptação também pode ajudar a observar como o organismo responde às novas combinações de alimentos, sempre considerando as orientações da equipe responsável pelo tratamento.
Aumentar as fibras de uma vez pode causar desconforto
Uma alimentação com maior participação de vegetais também pode mudar o funcionamento do intestino. Quando a pessoa aumenta rapidamente o consumo de feijão, lentilha, grão-de-bico, verduras, legumes e outros alimentos ricos em fibras, podem surgir gases, distensão abdominal ou alterações no hábito intestinal.
Segundo a especialista, isso não significa necessariamente que esses alimentos estejam fazendo mal. Em muitos casos, o desconforto pode ocorrer porque houve um aumento rápido da quantidade de fibras e de outros componentes fermentáveis da alimentação. A adaptação pode precisar ser gradual, especialmente quando existem condições gastrointestinais prévias. A hidratação também merece atenção quando o consumo de fibras aumenta de forma significativa.
A própria SBD recomenda que a meta de fibras seja individualizada e alcançada gradualmente para minimizar desconfortos gastrointestinais.
O que é importante entender
Uma alimentação vegetariana ou vegana pode fazer parte da rotina de pessoas com diabetes. Mas retirar a carne ou outros alimentos de origem animal, por si só, não determina a qualidade da alimentação. O que entra no lugar desses alimentos também precisa ser considerado.
Para quem tem diabetes, a escolha dos alimentos deve levar em conta a quantidade e a qualidade dos carboidratos, a composição das refeições, as fontes de proteína, fibras e gorduras, além dos medicamentos utilizados e da resposta individual à alimentação. Para Martha, antes de retirar um alimento, é importante pensar não apenas no que será eliminado, mas também no que vai ocupar esse espaço no prato.
“Ter diabetes não impede uma alimentação vegetariana ou vegana. Mas retirar alimentos de origem animal não é suficiente para tornar uma alimentação saudável. É preciso pensar no que entra no lugar: variedade de alimentos, boas fontes de proteína vegetal, qualidade e quantidade dos carboidratos, fibras, gorduras e micronutrientes, sempre considerando o tratamento do diabetes e a resposta individual.”
Ela também chama atenção para a diferença entre seguir uma alimentação baseada em vegetais e simplesmente retirar os alimentos de origem animal.
“Vegetariano, vegano ou plant-based não são sinônimos automáticos de saudável. Uma alimentação pode ser 100% vegetal e, ainda assim, ser baseada em ultraprocessados. Quanto mais conseguirmos construir esse padrão com comida de verdade e variedade, melhor.”
Quer saber como combinar melhor os alimentos no prato? Confira neste episódio do DiabetesCast.