Apenas três meses após iniciar a distribuição gratuita de sensores de monitoramento contínuo da glicose, Balneário Camboriú (SC) ampliou o programa e passou a atender todas as pessoas com diabetes tipo 1 que utilizam insulina e são acompanhadas pela rede municipal de saúde. Com a terceira fase da iniciativa, o número de beneficiários aumentou de 35 para cerca de 150 pacientes.
A expansão coloca o município catarinense entre os poucos do país a oferecer esse tipo de tecnologia pelo Sistema Único de Saúde (SUS) para pessoas com diabetes tipo 1 de todas as faixas etárias, mostrando que a ampliação do acesso pode ocorrer de forma gradual.
O avanço ganha destaque porque o acesso aos sensores de glicose ainda é uma realidade distante para grande parte das pessoas com diabetes tipo 1 no Brasil. Embora a tecnologia seja reconhecida por facilitar o controle glicêmico, reduzir episódios de hipoglicemia e aumentar a segurança no dia a dia, sua oferta na rede pública ainda ocorre de forma limitada, geralmente por meio de programas estaduais, municipais ou de decisões judiciais.
Expansão em três etapas permitiu ampliar o acesso
A distribuição dos sensores de glicose foi implantada de forma gradual ao longo dos últimos meses. Na primeira etapa, iniciada em abril, o programa contemplou crianças, adolescentes menores de 18 anos e gestantes com diabetes que utilizavam insulina.
Em maio, a distribuição foi ampliada para pacientes com até 24 anos. Agora, na terceira fase, o município estendeu o benefício para todas as faixas etárias, incluindo adultos e idosos.
Com essa estratégia, Balneário Camboriú ampliou a capacidade de atendimento sem interromper o funcionamento do programa e passou a oferecer o monitoramento contínuo da glicose para toda a população com diabetes tipo 1 cadastrada e acompanhada pela rede municipal.
Para participar da iniciativa, é necessário ser morador do município, possuir cadastro ativo na Unidade Básica de Saúde (UBS) de referência e utilizar insulina para o tratamento do diabetes tipo 1.
Como funciona o sensor de glicose distribuído pelo SUS
O equipamento disponibilizado é o FreeStyle Libre 2 Plus, um sensor aplicado na parte posterior do braço que mede continuamente os níveis de glicose por meio do líquido intersticial.
Cada sensor permanece em funcionamento por até 15 dias e realiza leituras da glicose durante 24 horas por dia. Dependendo do dispositivo utilizado para a leitura, a tecnologia também permite receber alertas para episódios de hipoglicemia e hiperglicemia, possibilitando uma resposta mais rápida diante de alterações importantes nos níveis de glicose.
Os pacientes contemplados pelo programa recebem dois sensores por mês, garantindo o monitoramento contínuo ao longo de todo o período.
Segundo as Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e os Standards of Care da American Diabetes Association (ADA), o monitoramento contínuo da glicose pode contribuir para aumentar o tempo em que a glicemia permanece dentro da faixa-alvo, reduzir episódios de hipoglicemia e oferecer informações mais completas para ajustes no tratamento, sempre em conjunto com a equipe de saúde.
Investimento busca manter o programa nos próximos anos
Para viabilizar a ampliação, o município adquiriu 2 mil sensores, com investimento de R$ 641,8 mil, recursos provenientes de emenda parlamentar.
De acordo com a prefeitura de Balneário Camboriú, a previsão inicial é de que o programa tenha duração de 12 meses. A expectativa da administração municipal é transformá-lo em uma política pública permanente, garantindo a continuidade da distribuição gratuita dos sensores.
O investimento também permitiu ampliar o número de beneficiários em mais de quatro vezes desde o lançamento do programa.
O que a experiência de Balneário Camboriú representa para o Brasil
O monitoramento contínuo da glicose é apontado por especialistas como uma das principais evoluções tecnológicas no tratamento do diabetes tipo 1 nas últimas décadas. Além de reduzir a necessidade de múltiplas medições na ponta do dedo, o sistema permite identificar tendências da glicemia ao longo do dia e da noite, favorecendo decisões mais seguras sobre alimentação, atividade física e aplicação de insulina.
Apesar desses benefícios, o acesso à tecnologia ainda é desigual no Brasil. Atualmente, diferentes estados e municípios possuem programas próprios de distribuição de sensores, mas os critérios variam de acordo com a disponibilidade orçamentária e as políticas locais. Em nível nacional, a distribuição universal dessa tecnologia pelo SUS ainda não faz parte da rotina da assistência pública.
Nesse contexto, a experiência de Balneário Camboriú (SC) mostra como uma implantação gradual pode ampliar o acesso ao monitoramento contínuo da glicose dentro da rede municipal. Embora cada cidade tenha uma realidade financeira e estrutural diferente, iniciativas como essa contribuem para ampliar o debate sobre a incorporação de tecnologias que podem melhorar o cuidado das pessoas com diabetes tipo 1.
Para quem convive com a doença, avanços desse tipo representam mais do que acesso a um dispositivo. O monitoramento contínuo oferece informações que ajudam pacientes e profissionais de saúde a tomar decisões mais seguras no dia a dia, contribuindo para um tratamento mais individualizado e para a prevenção de complicações relacionadas às variações da glicemia.