Quem utiliza insulina diariamente costuma desenvolver hábitos que tornam a rotina mais prática. Um deles é escolher sempre a mesma região do corpo para as aplicações. Embora pareça uma decisão sem grandes consequências, essa prática pode comprometer o tratamento do diabetes e dificultar o controle da glicose.
Segundo a endocrinologista e pesquisadora Denise Franco e o endocrinologista Ricardo de Rienzo, aplicar insulina repetidamente no mesmo local pode provocar alterações no tecido subcutâneo e interferir na forma como o medicamento é absorvido pelo organismo. A consequência pode aparecer diretamente nos resultados da glicemia.
Por que aplicar insulina no mesmo lugar pode ser um problema?
Durante um episódio do DiabetesCast, os especialistas destacaram que a repetição constante das aplicações em uma mesma área pode provocar uma condição chamada lipohipertrofia.
A alteração é conhecida por muitas pessoas com diabetes como “caroço”, “endurecimento” ou “bolinha” sob a pele. Ela surge após inúmeras aplicações na mesma região ao longo do tempo.
Segundo Denise Franco, o problema vai além da aparência ou da sensação ao toque. Essas áreas podem dificultar a absorção adequada da insulina, comprometendo a ação esperada do medicamento.
Como a lipohipertrofia afeta a glicose?
Quando a insulina é aplicada em uma área com lipohipertrofia, a absorção pode acontecer de forma irregular.
Na prática, isso significa que a mesma dose pode produzir resultados diferentes em dias distintos. Em alguns momentos, a insulina pode agir mais lentamente. Em outros, a absorção pode ser diferente do esperado.
Nesse contexto, a pessoa pode perceber glicemias mais altas sem entender a causa, mesmo mantendo alimentação, doses e horários habituais.
Por esse motivo, os especialistas reforçam que avaliar os locais de aplicação faz parte do acompanhamento do diabetes.
O rodízio das aplicações ajuda a evitar o problema
Uma das orientações mais importantes para quem utiliza insulina é realizar o rodízio dos locais de aplicação.
Segundo Ricardo de Rienzo, essa recomendação não existe apenas para evitar alterações na pele. O objetivo principal é garantir que a insulina seja absorvida da forma prevista.
Além disso, o rodízio reduz o risco de formação de áreas endurecidas que podem comprometer o tratamento ao longo do tempo.
Por isso, mesmo dentro de uma mesma região do corpo, é importante alternar os pontos utilizados nas aplicações.
Quando a glicose alta pode indicar um problema na aplicação?
Nem toda glicemia elevada está relacionada à alimentação ou à quantidade de insulina utilizada.
Segundo os especialistas, dificuldades na absorção da insulina também podem explicar parte das oscilações glicêmicas observadas no dia a dia.
Por esse motivo, pacientes que apresentam glicemias frequentemente elevadas devem observar se estão utilizando sempre os mesmos locais para aplicação.
Além disso, vale verificar se existem áreas endurecidas, doloridas ou diferentes do restante da pele.
Quem usa bomba de insulina também deve ficar atento
Os cuidados não se limitam às canetas e seringas.
Durante o episódio, os endocrinologistas lembraram que pessoas que utilizam bomba de insulina também podem enfrentar problemas relacionados ao local de infusão.
Uma cânula entupida, deslocada ou desconectada pode impedir a entrega adequada da insulina. Como consequência, a glicose pode subir rapidamente e tornar mais difícil o controle glicêmico.
Nesses casos, verificar o funcionamento do sistema faz parte da investigação quando a glicemia permanece elevada sem explicação aparente.
Observar a pele também faz parte do tratamento
Segundo Denise Franco, a avaliação dos locais de aplicação deve fazer parte da rotina de quem utiliza insulina.
Durante consultas, endocrinologistas frequentemente perguntam sobre os pontos utilizados e procuram sinais de lipohipertrofia justamente porque alterações na pele podem impactar diretamente a eficácia do tratamento.
Além disso, o acompanhamento regular permite identificar precocemente problemas que poderiam passar despercebidos no dia a dia.
Controle da glicose depende de vários fatores
Os especialistas lembram que a absorção da insulina faz parte de um conjunto maior de fatores que influenciam a glicemia.
Durante o DiabetesCast, Denise Franco e Ricardo de Rienzo explicaram que existem pelo menos 42 fatores capazes de alterar os níveis de glicose. Entre eles estão alimentação, medicamentos, atividade física, sono, estresse, hormônios, doenças e comportamento.
Nesse cenário, quando a glicose não responde da forma esperada, vale olhar além da alimentação e considerar também a forma como a insulina está sendo aplicada.
