Há alguns anos, muitas pessoas com diabetes chegavam às academias carregando dúvidas e receios. O medo da hipoglicemia, a falta de informação e até alguns mitos sobre a prática de exercícios faziam parte da rotina de quem desejava adotar um estilo de vida mais ativo. Hoje, esse cenário começa a mudar.
Com mais informação sobre os benefícios do exercício e o avanço das tecnologias de monitoramento, cada vez mais pessoas têm incluído a atividade física no cuidado com a condição. Em paralelo, academias e profissionais vêm adaptando suas rotinas para oferecer um acompanhamento mais seguro e individualizado.
Para entender essa transformação, o Portal Um Diabético conversou com Danilo Garcia, educador físico formado, que acompanha de perto essa mudança no perfil dos alunos e nas estratégias utilizadas dentro das academias.
Segundo o Atlas da Federação Internacional de Diabetes (IDF) de 2025, cerca de 16,6 milhões de adultos brasileiros entre 20 e 79 anos convivem com diabetes, colocando o Brasil entre os países com maior número de pessoas com a condição no mundo. A estimativa é que esse número continue crescendo nas próximas décadas, reforçando a importância de iniciativas que promovam qualidade de vida e prevenção de complicações, incluindo a prática regular de atividade física.
Esse cenário ajuda a explicar uma mudança percebida por profissionais de educação física, que observam uma procura cada vez maior por orientação especializada e por academias preparadas para atender as necessidades desse público.
“Essa é uma tendência bem clara nos últimos anos. Com o crescimento dos casos de diabetes tipo 2 e uma maior conscientização sobre o papel do exercício no controle da glicemia, mais pessoas chegam às academias orientadas por médicos ou motivadas por informações que encontram nas redes sociais e por experiências positivas de outras pessoas”, explica Danilo.
Treinos deixam de ser padronizados e passam a considerar a realidade de cada pessoa
Uma das principais mudanças observadas nos últimos anos é a personalização dos treinos para quem convive com diabetes.
Hoje, os profissionais consideram fatores como o tipo de diabetes, os medicamentos utilizados, o condicionamento físico, a rotina de monitoramento da glicose e possíveis complicações associadas para adaptar cada treino à realidade do aluno.
Segundo Danilo Garcia, a adaptação envolve intensidade progressiva, acompanhamento constante e escolhas estratégicas que ajudam a reduzir riscos durante a prática esportiva.
“A combinação de exercícios de força com atividades aeróbicas costuma trazer resultados muito positivos e um comportamento glicêmico mais estável do que a realização de apenas um tipo de treino”, afirma.
Além disso, existe uma atenção especial à saúde dos pés, principalmente em pessoas que apresentam neuropatia ou outras condições que possam aumentar o risco de lesões e dificultar a cicatrização.
O objetivo não é limitar a prática de exercícios, mas permitir que cada pessoa encontre uma rotina compatível com sua realidade, promovendo segurança e autonomia.
Avaliação médica continua sendo um passo fundamental
Embora a atividade física ofereça inúmeros benefícios para quem convive com diabetes, especialistas reforçam que o início de qualquer programa de exercícios deve ser precedido por uma avaliação médica individualizada.
A realização de exames e a liberação do profissional responsável pelo acompanhamento ajudam a identificar possíveis restrições, orientar adaptações necessárias e garantir que a prática aconteça de maneira segura.
Segundo Danilo, algumas informações são fundamentais para que o planejamento dos treinos seja feito da melhor forma possível:
- Tipo de diabetes e tempo desde o diagnóstico;
- Medicamentos utilizados e horários de aplicação ou administração;
- Histórico de episódios frequentes de hipoglicemia ou hiperglicemia;
- Existência de complicações como neuropatia, retinopatia ou alterações cardiovasculares;
- Rotina de monitoramento da glicose;
- Uso de sensores contínuos ou glicosímetros;
- Liberação médica para a prática de atividades físicas.
Quanto maior a integração entre médico, aluno e profissional de educação física, mais personalizado e eficiente tende a ser o acompanhamento.
Diabetes tipo 1 e tipo 2 exigem estratégias diferentes
Apesar de os benefícios da atividade física serem amplamente reconhecidos para todos, o planejamento dos exercícios pode variar de acordo com o tipo de diabetes e o tratamento adotado.
No diabetes tipo 1, especialmente para pessoas que utilizam insulina, existe uma atenção maior ao risco de hipoglicemia durante ou após os treinos. Nesses casos, o monitoramento da glicose e eventuais ajustes na alimentação ou nas doses de insulina devem ser discutidos com a equipe médica.
Já no diabetes tipo 2, principalmente entre aqueles que não utilizam insulina, a atividade física costuma ser uma ferramenta importante para melhorar a sensibilidade do organismo ao hormônio e favorecer o controle glicêmico ao longo do tempo.
Danilo destaca que, independentemente do tipo de diabetes, quem utiliza insulina precisa considerar o horário das aplicações para evitar treinar durante os períodos de pico de ação do medicamento, reduzindo assim o risco de quedas acentuadas da glicose.
Sensores de glicose transformaram a relação entre exercício e diabetes
A popularização dos sensores de monitoramento contínuo da glicose também representa uma das grandes mudanças dos últimos anos para quem pratica atividades físicas.
Hoje, muitas pessoas conseguem acompanhar, em tempo real, como a glicose reage a diferentes tipos e intensidades de exercício, tornando os ajustes mais precisos e seguros.
Para Danilo Garcia, essa tecnologia trouxe mais segurança e precisão tanto para os profissionais quanto para os próprios alunos.
“Os sensores permitem entender exatamente como cada pessoa reage aos estímulos do treino. Isso ajuda nos ajustes e também aumenta a confiança de quem está começando a praticar exercícios”, afirma.
Apesar dos avanços, o custo dos dispositivos ainda é apontado como um desafio para parte da população, limitando o acesso a essa ferramenta.
Academias avançaram, mas capacitação ainda é um desafio
Na avaliação do educador físico, as academias evoluíram nos últimos anos, mas ainda existe espaço para melhorias na preparação das equipes.
Segundo ele, muitos profissionais ainda não recebem capacitação específica para lidar com condições metabólicas e reconhecer rapidamente situações de emergência, como episódios de hipoglicemia.
“Muitas vezes, sintomas como suor frio, tremores ou confusão podem ser confundidos com um cansaço normal do treino. Conhecer esses sinais é fundamental para oferecer segurança ao aluno”, destaca.
Danilo também defende uma integração cada vez maior entre profissionais de educação física, médicos e endocrinologistas, permitindo que as orientações sejam complementares e adaptadas à realidade de cada pessoa.
Mitos ainda afastam muitas pessoas da atividade física
Mesmo com mais informação disponível, alguns mitos continuam fazendo parte do imaginário popular e acabam gerando insegurança.
Entre os mitos mais frequentes estão a ideia de que pessoas com diabetes não podem fazer musculação ou de que apenas exercícios aeróbicos ajudam no controle da glicose. Segundo especialistas, ambas as afirmações estão equivocadas.
O treinamento de força, por exemplo, desempenha um papel importante no metabolismo da glicose e pode trazer benefícios significativos quando realizado de forma adequada e acompanhada por profissionais.
Outro mito recorrente é acreditar que o uso de insulina impede a realização de treinos mais intensos. Na prática, o que muda é a necessidade de planejamento, monitoramento e ajustes individualizados.
Também não é recomendado abrir mão do acompanhamento da glicose apenas porque a pessoa se sente bem, já que episódios de hipo ou hiperglicemia nem sempre apresentam sintomas evidentes.
O medo diminui quando a informação aumenta
Para quem deseja começar uma rotina de exercícios, mas ainda sente insegurança, a orientação é dar os primeiros passos com tranquilidade e buscar profissionais dispostos a compreender as particularidades da condição.
Levar exames atualizados, obter a liberação médica e conversar abertamente com os profissionais são atitudes que tornam o início da prática mais seguro e tranquilo.
“O diabetes não é uma limitação, mas uma informação importante para que o treino seja planejado da melhor forma possível. Com acompanhamento adequado, a atividade física pode se tornar uma das principais ferramentas para viver com mais saúde e qualidade de vida”, conclui Danilo Garcia.
O que considerar antes de começar a treinar
✔ Realize uma avaliação médica e faça os exames solicitados pelo seu médico;
✔ Informe ao profissional de educação física sobre seu tratamento e os medicamentos utilizados;
✔ Monitore a glicose conforme as orientações da equipe de saúde;
✔ Tenha sempre uma fonte de carboidrato de rápida absorção por perto durante os treinos;
✔ Respeite a adaptação gradual do corpo e evite comparações com outras pessoas;
✔ Em caso de dúvidas sobre alimentação, insulina ou ajustes no tratamento, converse com seu médico ou endocrinologista.
A atividade física vai além do controle da glicemia
Os benefícios da prática regular de exercícios para quem convive com diabetes vão muito além da redução dos níveis de glicose. A atividade física contribui para melhorar a sensibilidade à insulina, auxilia no controle do peso corporal e reduz fatores de risco cardiovasculares, que estão entre as principais preocupações relacionadas à condição.
Além disso, o fortalecimento muscular ajuda o organismo a utilizar melhor a glicose mesmo em períodos de repouso, enquanto a prática regular também está associada à melhora do humor, da qualidade do sono e do bem-estar geral. Quando realizada com acompanhamento adequado, a atividade física se torna uma importante aliada para promover mais autonomia, disposição e qualidade de vida.
Importante: a prática de exercícios deve ser iniciada com orientação médica e acompanhamento profissional, respeitando as necessidades e características individuais de cada pessoa.