Uma mancha escura no pescoço, uma ferida que demora mais do que o esperado para cicatrizar ou infecções que voltam com frequência podem parecer problemas exclusivamente dermatológicos. Em algumas situações, porém, alterações na pele também podem estar relacionadas à resistência à insulina, ao diabetes ou à permanência da glicose elevada por longos períodos.
O alerta não significa que seja possível descobrir se uma pessoa tem diabetes apenas olhando para a pele. Muitas dessas alterações possuem diversas outras causas e precisam ser avaliadas por um profissional de saúde.
O próprio Centers for Disease Control and Prevention (CDC), dos Estados Unidos, destaca que mudanças na pele estão entre as manifestações que podem ocorrer no diabetes e que, em alguns casos, podem indicar que a glicose permaneceu elevada por algum tempo. A American Diabetes Association (ADA) também informa que problemas de pele podem, eventualmente, ser um dos primeiros sinais percebidos da doença.
Veja sete alterações que merecem atenção.
1. Pele escurecida e com aspecto aveludado no pescoço
Uma das alterações mais relacionadas à resistência à insulina é a acantose nigricans. Ela costuma provocar áreas de pele mais escura, espessa e com textura semelhante a veludo, principalmente na parte posterior do pescoço, axilas e virilha. Também pode aparecer nas mãos, cotovelos e joelhos.
A alteração está associada à resistência à insulina e pode estar presente em pessoas com pré-diabetes ou diabetes tipo 2. Isso não significa, entretanto, que toda pessoa com uma região escurecida no pescoço tenha diabetes.
No Brasil, a Sociedade Brasileira de Diabetes considera a presença de acantose nigricans um dos fatores de risco que devem ser levados em conta no rastreamento do diabetes tipo 2.
2. Pele muito seca e com coceira
Ressecamento e coceira são extremamente comuns e podem ter inúmeras causas. Em pessoas com diabetes, entretanto, podem estar relacionados à hiperglicemia e a alterações na circulação.
Segundo o CDC, quando existe excesso de glicose no sangue, o organismo elimina parte desse excesso pela urina. A maior perda de líquidos pode contribuir para o ressecamento da pele. A ADA também aponta que pessoas com glicose elevada tendem a apresentar pele mais seca.
Por ser um sinal bastante inespecífico, pele seca isoladamente não é motivo para concluir que alguém tenha diabetes.
3. Feridas que demoram para cicatrizar
Uma ferida que permanece aberta ou apresenta dificuldade de cicatrização merece avaliação médica, principalmente em quem já tem diabetes.
A exposição prolongada a níveis elevados de glicose pode, ao longo do tempo, contribuir para alterações nos nervos e na circulação. Isso pode dificultar a percepção de pequenos machucados e prejudicar a cicatrização, especialmente nos pés e nas pernas.
A Sociedade Brasileira de Diabetes inclui a má cicatrização de feridas entre os sinais sugestivos de hiperglicemia.
Feridas nos pés de pessoas com diabetes merecem atenção especial e não devem ser tratadas apenas em casa sem avaliação adequada.
4. Infecções de pele que aparecem repetidamente
Infecções bacterianas e por fungos também podem ocorrer com maior frequência em pessoas com diabetes, especialmente quando a glicose permanece elevada.
Entre as infecções bacterianas descritas pela ADA estão furúnculos, foliculites e infecções ao redor das unhas. Já as infecções fúngicas podem atingir regiões quentes e úmidas, como axilas, virilha, espaços entre os dedos e outras dobras da pele.
O CDC explica que as infecções fúngicas são mais prováveis quando os níveis de glicose estão elevados. Isso não significa que ter uma micose seja sinal suficiente para suspeitar de diabetes, mas episódios frequentes, principalmente quando acompanhados de outros sintomas, devem ser discutidos com um profissional de saúde.
5. Manchas marrons ou avermelhadas nas canelas
Outra alteração relacionada ao diabetes é chamada de dermopatia diabética.
Ela geralmente aparece na parte da frente das pernas como pequenas manchas arredondadas ou ovais, avermelhadas ou marrons. Com o tempo, podem ficar mais planas e ser confundidas com manchas relacionadas ao envelhecimento.
Segundo a ADA, a alteração está relacionada a mudanças nos pequenos vasos sanguíneos. Normalmente não provoca dor, coceira ou feridas e, isoladamente, não exige tratamento específico.
Quem percebe essas manchas sem ter diagnóstico de diabetes deve conversar com um profissional de saúde para investigar a causa.
6. Pele mais grossa, endurecida ou com aspecto de cera
O diabetes também pode estar associado ao chamado espessamento ou esclerose digital, caracterizado por pele mais espessa, firme e com aspecto semelhante à cera, especialmente nos dedos e nas mãos.
Em alguns casos, as articulações dos dedos ficam mais rígidas e os movimentos podem se tornar mais difíceis. O CDC informa que essa manifestação é mais frequente em pessoas com diabetes tipo 1 que apresentam níveis elevados de glicose.
Existem, porém, outras doenças capazes de provocar espessamento e endurecimento da pele. Por isso, a avaliação médica é fundamental.
7. Pequenas bolhas ou lesões incomuns
Embora seja uma manifestação rara, pessoas com diabetes podem desenvolver a chamada bullosis diabeticorum, ou bolhas diabéticas.
De acordo com a ADA, elas podem surgir nos dedos das mãos, mãos, pés, dedos dos pés, pernas ou antebraços. Podem se parecer com bolhas provocadas por queimaduras, mas geralmente não causam dor nem apresentam vermelhidão ao redor.
Esse tipo de lesão não deve ser usado para fazer autodiagnóstico. Bolhas possuem diversas causas e precisam ser examinadas, principalmente quando surgem sem explicação.
A pele pode levantar uma suspeita, mas não confirma diabetes
Perceber uma dessas alterações não significa que a pessoa tenha diabetes. A confirmação depende de exames laboratoriais.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes estabelece atualmente como critérios para diagnóstico:
- Glicemia de jejum: igual ou superior a 126 mg/dL;
- Hemoglobina glicada (HbA1c): igual ou superior a 6,5%;
- TTGO após 1 hora: glicemia igual ou superior a 209 mg/dL;
- TTGO após 2 horas: glicemia igual ou superior a 200 mg/dL;
- Glicemia ao acaso igual ou superior a 200 mg/dL, quando acompanhada de sintomas típicos de hiperglicemia.
A SBD orienta que, quando apenas um exame apresenta resultado compatível com diabetes em uma pessoa sem quadro clínico inequívoco, o resultado deve ser confirmado conforme os critérios diagnósticos. Quando glicemia de jejum igual ou superior a 126 mg/dL e HbA1c igual ou superior a 6,5% aparecem simultaneamente, a diretriz considera estabelecido o diagnóstico.
Outros sintomas também precisam ser observados
As manifestações mais típicas da glicose elevada não aparecem necessariamente na pele.
Segundo a SBD, os sintomas clássicos de hiperglicemia incluem urinar muitas vezes, sentir muita sede, aumento da fome, perda de peso sem explicação e desidratação. Acordar durante a noite para urinar, visão embaçada, cansaço, infecções recorrentes e dificuldade de cicatrização também são sinais sugestivos.
Um ponto importante é que o diabetes tipo 2 pode permanecer por bastante tempo sem provocar sintomas perceptíveis. Por isso, esperar que alguma alteração apareça no corpo não é uma estratégia adequada para descartar a doença.
A SBD recomenda rastreamento do diabetes tipo 2 para todos os adultos a partir dos 35 anos. Pessoas mais jovens com sobrepeso ou obesidade também devem ser avaliadas quando apresentam pelo menos um fator adicional de risco, como histórico familiar de diabetes tipo 2, hipertensão, alterações nos níveis de colesterol ou triglicérides, síndrome dos ovários policísticos, doença cardiovascular, sedentarismo ou acantose nigricans.
Quem percebe alterações persistentes ou incomuns na pele, principalmente quando elas aparecem junto com sede excessiva, aumento da quantidade de urina, perda de peso inexplicada, visão turva ou cansaço, deve procurar uma unidade de saúde ou um médico para avaliação.
A pele pode fornecer pistas. O diagnóstico de diabetes, porém, é feito com avaliação clínica e exames, não pela aparência da pele.
Fontes: Sociedade Brasileira de Diabetes, Diretriz SBD 2026: Diagnóstico de Diabetes Mellitus; Centers for Disease Control and Prevention (CDC), Diabetes and Your Skin; American Diabetes Association (ADA), Diabetes and Skin Complications; American Academy of Dermatology (AAD), Diabetes: 10 warning signs that can appear on your skin.
