Dormir deveria ser o momento em que o corpo desacelera e se reorganiza. No entanto, para muitas pessoas com diabetes, a noite é marcada por despertares frequentes, dificuldade para pegar no sono e cansaço ao acordar. Um grande estudo internacional sugere que esse problema vai além do estresse cotidiano e pode estar ligado ao controle da glicemia e à forma como a alimentação é distribuída ao longo do dia.
A pesquisa foi publicada na revista científica Frontiers in Nutrition e analisou dados de 66.148 adultos do National Health and Nutrition Examination Survey (NHANES), coletados entre 2007 e 2020. Trata-se de um estudo observacional, o que significa que ele identifica associações, mas não estabelece relação direta de causa e efeito.
Dormir mal é mais frequente em quem tem diabetes
Os pesquisadores compararam pessoas com glicemia normal, pré-diabetes e diabetes. Os resultados mostram que indivíduos com diabetes apresentaram maior prevalência de dificuldade para dormir e de distúrbios do sono. Além disso, nesse grupo houve maior proporção de sono curto, com menos de sete horas por noite, e também de sono prolongado, acima de nove horas.
Esses extremos importam porque o sono funciona como um regulador do metabolismo. Quando o descanso é insuficiente ou excessivo, o organismo perde eficiência para equilibrar hormônios ligados à glicose. Portanto, noites mal dormidas podem contribuir para maior resistência à insulina e pior controle glicêmico no dia seguinte.
A alimentação também influencia o sono
Além do estado glicêmico, o estudo avaliou a ingestão de macronutrientes, como carboidratos, proteínas e gorduras. Entre pessoas com diabetes, dietas com baixo consumo de proteína estiveram associadas a maiores chances de distúrbios do sono.
Por outro lado, padrões alimentares com menor proporção de carboidratos e maior teor de gordura apresentaram associações mais favoráveis com a duração do sono. Ainda assim, os autores destacam uma limitação importante: a pesquisa não analisou a qualidade dos alimentos nem diferenciou tipos de gordura ou carboidratos. Portanto, os dados não indicam uma dieta específica, mas apontam tendências relevantes.
Por que sono e glicemia estão tão conectados
Durante o sono, o corpo ajusta hormônios que regulam o apetite, o estresse e o metabolismo da glicose. Quando esse processo é interrompido, ocorre algo semelhante a um celular que não carrega completamente durante a noite. Ele até funciona no dia seguinte, mas com desempenho reduzido.
Nesse contexto, dormir pouco pode elevar a glicemia em jejum e dificultar o controle do diabetes. Ao mesmo tempo, oscilações glicêmicas durante a noite, como hiperglicemias ou hipoglicemias, podem provocar despertares, sudorese e sensação de mal-estar, criando um ciclo difícil de romper.
O que isso muda na vida real de quem tem diabetes
Embora o estudo não prove causa e efeito, o grande volume de dados reforça que o sono deve ser parte da conversa sobre o cuidado com o diabetes. Queixas frequentes de insônia, sono não reparador ou cansaço persistente merecem atenção nas consultas médicas.
Nesse cenário, ajustes na alimentação, revisão do controle glicêmico e investigação de distúrbios do sono, como apneia, podem caminhar juntos. Ainda assim, os pesquisadores ressaltam que são necessários estudos clínicos para entender se mudanças específicas na dieta podem melhorar diretamente o sono em pessoas com diabetes.
Referências:
Zhang X. et al. Glycemic status and macronutrient intake as predictors of sleep outcomes: an analysis of NHANES 2007–2020 data. Frontiers in Nutrition, 2025.
Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41190157/
