Muitas pessoas sentem que estão tentando comer melhor, mas a rotina agitada simplesmente não ajuda. Para quem convive com o diabetes, essa dificuldade pode ser ainda maior, cercada de dúvidas sobre o que é permitido ou proibido. No entanto, o caminho para alimentação saudável e diabetes em harmonia com o bom controle glicêmico não precisa ser baseado em terrorismo nutricional ou dietas restritivas.
Para debater o tema, o jornalista Tom Bueno, que convive com o diabetes tipo 1, recebeu a nutricionista e educadora em diabetes, Maristela Strufaldi, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), no “DiabetesCast“. A especialista enfatizou que uma alimentação saudável e diabetes podem andar juntas de forma sustentável, leve e saborosa.
Quebrando mitos sobre a alimentação de quem tem diabetes
Um dos maiores desafios que as pessoas com diabetes enfrentam, segundo Maristela Strufaldi, é a desinformação. “Uma das coisas que eu mais vejo é realmente o quanto as pessoas que convivem com diabetes esbarram em mitos, em muitos tabus alimentares que trazem restrições desnecessárias” , aponta a nutricionista.
Existe uma crença antiga de que a comida saudável não tem sabor ou é cheia de regras chatas. Pelo contrário, a comida envolve aspectos sociais e prazer. “Comer saudável não é e nem precisa ser chato”, reforça Maristela.
A especialista destaca que a alimentação de quem tem diabetes, independente do tipo, é simplesmente uma alimentação saudável que toda a população deveria seguir, sem proibições desnecessárias, nem mesmo do açúcar. O segredo está no equilíbrio e no planejamento.
O pilar central: planejamento contra a correria
A correria do dia a dia é, talvez, a principal inimiga de uma rotina alimentar equilibrada. A falta de organização leva a escolhas pouco inteligentes por pura praticidade, como salgados ou ultraprocessados.
“Tem uma palavra-chave, gente, que a gente sempre fala, atualmente, em nutrição, que é planejamento”, explica Maristela. Sem ele, a exceção acaba virando regra. Planejar os lanches intermediários e as refeições principais é o que garante a sustentabilidade do plano alimentar a longo prazo.
Como deve ser o prato ideal?
Questionada por Tom Bueno sobre o “modelo ideal” de refeição, Maristela Strufaldi descomplica: é o básico brasileiro bem feito. O equilíbrio entre os nutrientes é a chave.
“A gente fala que 50% do prato, metade dele composto por vegetais, verduras, legumes, sejam eles crus, refogados, no vapor”, detalha. As fibras presentes nesses alimentos ajudam a atenuar a curva glicêmica, ou seja, evitam picos de açúcar no sangue.
Os outros 50% do prato devem ser compostos por carboidratos (como o arroz) e proteínas (como o feijão, carnes, ovos ou grão-de-bico). A nutricionista lembra que, mesmo o arroz branco, quando consumido junto das fibras da salada e da proteína do feijão, tem seu impacto glicêmico reduzido.
Esse equilíbrio é essencial para uma alimentação saudável e diabetes. A mesma lógica vale para um lanche: um sanduíche pode ser uma refeição completa se tiver pão (carboidrato), ovo ou frango (proteína), salada (fibras) e azeite (gordura boa).
O perigo da restrição severa
Muitas pessoas ainda associam o controle do diabetes ao corte total de carboidratos. Maristela alerta que essa prática, além de desnecessária, é nociva.
“Antigamente (…) se pensava assim, né, Tom, se diabetes é excesso de açúcar no sangue, então vamos cortar (…) E hoje a gente entende que não”, diz ela. A restrição severa de carboidratos pode levar à perda de massa muscular, pois a proteína precisa do carboidrato para ser absorvida pelo músculo.
Além disso, refeições com zero carboidrato, mas ricas em gordura e proteína, também impactam a glicemia, muitas vezes causando picos tardios, horas após a refeição. A nutricionista é clara: “Low carb, gente, é low carb, não é no-carb”.
Lanches intermediários e o papel dos produtos especializados
Os lanches entre as refeições são um ponto frequente de dificuldade. Muitas pessoas caem na armadilha de produtos “zero açúcar”, que costumam ser caros e nem sempre saudáveis, ou acreditam que apenas uma fruta não “mata a fome”.
A estratégia, novamente, é a combinação. “Poxa, dá para comer a banana, mas de repente a banana, se a gente colocar uma aveia, colocar uma castanha junto, colocar um iogurte”, sugere Maristela. A adição de fibras, proteínas ou gorduras boas ajuda na saciedade e no controle glicêmico.
Nesse contexto, produtos especializados também surgem como “ferramentas nutricionais”, como definiu a nutricionista. O próprio Tom Bueno citou que o Nutrient Control, patrocinador do episódio, o auxilia na rotina corrida. Esses produtos oferecem praticidade com composições pensadas para quem tem diabetes, geralmente com carboidratos de lenta absorção, fibras e proteínas, ajudando na saciedade e evitando picos.
Exceções, festas e a autocompaixão
Viver com uma condição crônica como o diabetes é um desafio diário, e as exceções, como festas ou viagens, fazem parte da vida. Para quem usa insulina e faz contagem de carboidratos, há uma flexibilidade maior. Para quem usa medicação oral, a chave é o equilíbrio na quantidade.
O maior problema, segundo os especialistas, é a filosofia do “já que”. “Já que eu vou comer o brigadeiro, vou comer 10”, exemplifica Maristela. É esse exagero, e não a exceção controlada, que prejudica o tratamento.
Tom Bueno compartilhou sua própria experiência com a culpa. Maristela finalizou destacando a importância da autocompaixão. Se um exagero acontecer, o caminho não é a culpa, mas o autoconhecimento.
“Dá dois passinhos para trás. Entender porque aconteceu, para a gente evitar que aconteça de novo, para a gente trazer equilíbrio na nossa vida”, aconselha. A alimentação saudável e diabetes não é uma linha reta, mas um processo de entender o próprio corpo, valorizar os pequenos ganhos e buscar ajuda profissional qualificada, longe do terrorismo nutricional.