O Brasil tem hoje cerca de 20 milhões de adultos convivendo com diabetes, segundo estimativas recentes da Sociedade Brasileira de Diabetes. Atrás desse número, existe uma rede de associações e institutos que atua diariamente para melhorar o acesso ao diagnóstico e ao tratamento dessas pessoas. O Portal Um Diabético dá continuidade à série que apresenta essas entidades.
A protagonista desta reportagem é o Vozes do Advocacy em Diabetes e Obesidade. A organização integra associações e institutos de diabetes, obesidade e complicações associadas em todo o país. Juntas, essas entidades compartilham missões e valores semelhantes, e lutam por melhor educação em saúde e por acesso a tratamento adequado no Brasil.
De projeto local a federação nacional
O Vozes do Advocacy foi oficialmente fundado em outubro de 2024. Antes disso, funcionava como um projeto sediado pela Associação Botucatuense de Assistência ao Diabético, iniciativa local que deu origem ao movimento atual. Hoje, a entidade reúne 25 associações e 3 institutos de diabetes, sob a presidência de Vanessa Pirolo. Ao todo, o Vozes do Advocacy estima ter beneficiado, direta ou indiretamente, cerca de 30 mil pessoas com diabetes e obesidade no Brasil.
“O trabalho conjunto permite que essas associações participem ativamente da conquista por tratamento adequado nas esferas municipal, estadual e federal. Para isso, o Vozes do Advocacy promove diálogo constante com sociedades médicas e outras especialidades da saúde. Também dialoga com o Governo, os meios de comunicação, influenciadores digitais e empresas parceiras de diversos segmentos”, explica Vanessa.
O objetivo dessas parcerias é sensibilizar a sociedade. A meta é mostrar a importância do diagnóstico e do tratamento precoce do diabetes, da obesidade e de suas complicações.
Capacitação, política pública e conscientização
O trabalho do Vozes do Advocacy se organiza em torno de três frentes principais. A primeira é a capacitação de profissionais de saúde do Sistema Único de Saúde (SUS) em diabetes. Essa formação já alcançou mais de 5 mil profissionais em todo o país.
A segunda frente é o advocacy propriamente dito: a defesa de políticas públicas de acesso a diagnóstico e tratamento. Essas políticas abrangem diabetes, obesidade e suas complicações, tanto no SUS quanto na saúde suplementar. A terceira é a promoção de campanhas de conscientização em datas simbólicas. Entre elas estão o Dia Mundial da Obesidade, o Dia Mundial do Rim e o Dia Mundial do Diabetes.
Além dessas frentes, a organização também conduz pesquisas para identificar os principais obstáculos enfrentados por pacientes ao longo da jornada de cuidado. Uma dessas pesquisas, divulgada recentemente, mostra na prática o alcance desse trabalho.
Sensor de glicose reduz internações, mas acesso ainda é desigual
O levantamento, batizado de “Acesso à Tecnologia de Monitorização do Diabetes no Brasil”, ouviu 1.411 pessoas com diabetes e cuidadores em todo o país. Foi conduzido pelo Vozes do Advocacy em parceria com os pesquisadores Ademar Pinezi Junior e Dr. Rodrigo Siqueira, entre 12 de março e 6 de abril de 2026.
Os resultados associam o uso de sensores de monitorização contínua da glicose a menos complicações crônicas e menos internações relacionadas ao diabetes. Entre as pessoas que nunca usaram a tecnologia, 1 em cada 3 precisou de pronto atendimento ou hospital no último ano. O motivo foram episódios de glicose alta ou baixa. Entre os usuários atuais, essa proporção cai para 1 em cada 5, uma redução de cerca de 41%.
O padrão se repete nas internações. Entre quem nunca usou sensor, 17,7% foram internados por complicações do diabetes no último ano, contra 11,5% entre os usuários atuais. As complicações crônicas também caem de forma expressiva entre quem usa a tecnologia. Complicações microvasculares, como retinopatia, neuropatia e doença renal, atingem 43,7% de quem nunca usou sensor e 21,1% dos usuários atuais, queda de cerca de 52%.
Já as complicações macrovasculares, que incluem problemas cardiovasculares e amputações, caem de 20,2% para 5,7%, redução de aproximadamente 72%. No total, 47,5% de quem nunca usou sensor relata alguma complicação crônica, contra 23,4% entre os usuários, uma diferença de cerca de 51%.
Apesar dos avanços, episódios graves continuam frequentes. Cerca de 49% dos participantes já tiveram hipoglicemia grave com necessidade de ajuda de outra pessoa, e 37,4% relataram histórico de cetoacidose diabética. A situação piora entre quem já usou sensor, mas precisou interromper: nesse grupo, 60,5% relataram hipoglicemia grave e 16,3% foram internados. A pesquisa também mostrou impacto na rotina: 97,9% dos usuários afirmaram que o sensor traz mais tranquilidade para dormir. Ainda assim, 64,3% acordam ao menos duas vezes por noite para checar a glicose.
Renda ainda determina quem tem acesso à tecnologia
A pesquisa expõe uma desigualdade marcante no acesso aos sensores. Atualmente, 40,8% dos entrevistados usam a tecnologia, 26,2% já usaram, mas precisaram interromper, e 33% nunca tiveram acesso. Entre quem abandonou o uso, 64,6% apontaram o alto custo como principal motivo. Já entre os usuários atuais, 78,6% afirmaram pagar do próprio bolso ou recorrer à judicialização para conseguir os sensores.
A diferença por faixa de renda reforça esse cenário. Entre pessoas com renda superior a 10 salários mínimos, 71,6% usam sensor atualmente. Já entre as de renda até 1 salário mínimo, apenas 21,3% têm acesso. Na prática, quem tem maior renda tem cerca de 3,4 vezes mais acesso ao sensor de glicose.
O perfil dos participantes também chama atenção: 73,4% relataram diabetes tipo 1 e 16,2% diabetes tipo 2, além de 31,2% de cuidadores. Pretos e pardos somaram 52% da amostra, mulheres foram 58% dos respondentes, e apenas 24% possuíam plano de saúde.
“Hoje o Brasil gasta bilhões de reais todos os anos tratando complicações do diabetes. A pesquisa mostra que ampliar o acesso à tecnologia e à educação em diabetes pode ajudar a reduzir hospitalizações, complicações graves e custos para o sistema de saúde”, afirma Vanessa Pirolo, presidente do Vozes do Advocacy.
Uma lei federal como resultado concreto
Um dos marcos mais recentes da atuação do Vozes do Advocacy foi a Lei nº 15.439, sancionada em 26 de junho de 2026. A organização contribuiu para sua construção. A organização integrou o processo de discussão que resultou na nova legislação. É um exemplo direto de como o trabalho de advocacy, sustentado por pesquisa própria, pode se traduzir em política pública.
O que é importante entender
O Vozes do Advocacy em Diabetes e Obesidade nasceu de uma iniciativa local, em Botucatu. Hoje é um movimento nacional que reúne 25 associações e 3 institutos. Sua atuação combina capacitação de profissionais de saúde, defesa de políticas públicas e campanhas de conscientização, sustentadas por pesquisa própria sobre a jornada do paciente.
A pesquisa mais recente da entidade mostra que o acesso à tecnologia de monitorização da glicose reduz internações e complicações. Ainda assim, esse acesso depende fortemente da renda de quem convive com diabetes no Brasil. A aprovação da Lei nº 15.439 em 2026 mostra como esse trabalho pode gerar mudanças concretas na legislação brasileira.
