Muitas pessoas acreditam que o diabetes começa apenas quando surgem sintomas como sede excessiva, perda de peso ou aumento da vontade de urinar. No entanto, principalmente no diabetes tipo 1, a doença pode ser identificada anos antes desses sinais aparecerem.
Atualmente, especialistas reconhecem diferentes estágios que marcam a evolução do diabetes tipo 1 autoimune, desde o surgimento dos primeiros anticorpos até o diagnóstico clínico tradicional.
Entender essas fases ajuda médicos, pacientes e familiares a compreenderem melhor a doença e a importância do acompanhamento precoce, especialmente em pessoas que possuem histórico familiar de diabetes tipo 1.
Além disso, o reconhecimento desses estágios abre caminho para novas estratégias de monitoramento e tratamentos capazes de retardar a progressão da doença em grupos específicos, tema que vem ganhando cada vez mais espaço nas pesquisas internacionais sobre a condição.
O diabetes tipo 1 pode ser identificado antes dos sintomas
Diferentemente do que muitas pessoas imaginam, o diabetes tipo 1 não surge de uma hora para outra.
A doença é causada por uma reação autoimune, na qual o sistema imunológico passa a atacar as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse processo pode durar meses ou até anos antes de provocar alterações significativas na glicemia.
Por isso, atualmente, a Sociedade Brasileira de Diabetes divide a evolução do diabetes tipo 1 em quatro estágios.
Estágio 1: autoanticorpos positivos, mas glicemia normal
O primeiro estágio é caracterizado pela presença de dois ou mais autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1, mesmo que a pessoa ainda apresenta níveis normais de glicose e não tenha qualquer sintoma.
Entre os principais autoanticorpos investigados estão:
- anti-GAD;
- IA-2;
- IAA;
- ZnT8.
Nessa fase, o risco de progressão para o diabetes tipo 1 é elevado, embora a doença ainda não esteja clinicamente estabelecida.
Especialistas consideram esse estágio importante porque permite acompanhar indivíduos que possuem maior predisposição ao desenvolvimento da condição, especialmente familiares de primeiro grau de pessoas com diabetes tipo 1.
É importante destacar que a pesquisa desses autoanticorpos não faz parte dos exames de rotina da população geral. Normalmente, ela é realizada em protocolos de pesquisa, em situações específicas ou no acompanhamento de pessoas com histórico familiar da doença.
Estágio 2: alterações na glicemia começam a aparecer
No estágio 2, os autoanticorpos continuam presentes, mas começam a surgir pequenas alterações no metabolismo da glicose, fenômeno conhecido como disglicemia.
Os exames podem mostrar valores acima do normal, mas que ainda não atingem os critérios diagnósticos clássicos da condição.
Mesmo assim, o risco de progressão para a doença clínica aumenta significativamente nos anos seguintes.
Nessa fase, o acompanhamento médico torna-se ainda mais importante para monitorar a evolução e orientar pacientes e familiares sobre possíveis sintomas futuros.
Estágio 3: quando o diabetes é oficialmente diagnosticado
O estágio 3 corresponde ao momento em que a hiperglicemia atinge os critérios laboratoriais necessários para confirmar o diagnóstico da condição.
Segundo a Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), essa fase pode ser dividida em duas situações.
O estágio 3A ocorre quando a pessoa apresenta exames compatíveis com a doença, mas ainda não possui sintomas.
Já o estágio 3B acontece quando surgem os sinais clássicos da doença, como:
- sede excessiva;
- aumento da frequência urinária;
- fome constante;
- perda de peso sem explicação;
- cansaço intenso;
- visão embaçada.
É justamente nesse momento que grande parte das pessoas recebe o diagnóstico pela primeira vez.
Estágio 4: diabetes tipo 1 estabelecido
O estágio 4 representa o diabetes tipo 1 já estabelecido e de longa duração.
Nessa fase, a pessoa convive com a doença, realiza o tratamento com insulina e acompanha regularmente indicadores como glicemia, hemoglobina glicada e possíveis complicações associadas.
Embora o processo autoimune já tenha ocorrido, o acompanhamento contínuo continua sendo fundamental para garantir qualidade de vida e prevenir problemas futuros.
Quais exames confirmam o diagnóstico?
Independentemente do tipo de diabetes, a confirmação do diagnóstico depende de exames laboratoriais específicos.
Segundo as diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes, quando não há sintomas clássicos, é necessário que pelo menos dois testes apresentem resultados compatíveis com a condição, podendo ser exames iguais repetidos ou testes diferentes realizados em momentos distintos.
Veja abaixo os principais valores utilizados para classificar os resultados:
| Exame | Normal | Pré-diabetes | Diabetes |
| Glicemia de jejum | Menor que 100 mg/dL | 100 a 125 mg/dL | 126 mg/dL ou mais |
| Hemoglobina glicada (HbA1c) | Menor que 5,7% | 5,7% a 6,4% | 6,5% ou mais |
| Teste Oral de Tolerância à Glicose (TTGO) | Menor que 140 mg/dL | 140 a 199 mg/dL | 200 mg/dL ou mais |
Os valores do TTGO correspondem à medição realizada duas horas após a ingestão de 75 gramas de glicose.
Glicemia de jejum
A glicemia de jejum é um dos exames mais utilizados para investigar o diabetes. Para sua realização, a pessoa deve permanecer pelo menos oito horas sem se alimentar.
Valores iguais ou superiores a 126 mg/dL, confirmados em nova avaliação, podem indicar diabetes.
Hemoglobina glicada (HbA1c)
A hemoglobina glicada permite avaliar a média da glicemia nos últimos dois a três meses e é amplamente utilizada tanto para diagnóstico quanto para acompanhamento do tratamento.
Resultados iguais ou superiores a 6,5% são considerados compatíveis com diabetes, desde que confirmados conforme as diretrizes médicas.
Teste Oral de Tolerância à Glicose (TTGO)
O TTGO é realizado após a ingestão de 75 gramas de glicose, com nova coleta sanguínea duas horas depois.
O exame é especialmente útil em situações nas quais outros testes apresentam resultados duvidosos ou em casos específicos, como o diabetes gestacional.
Quando apenas um exame já é suficiente para confirmar o diagnóstico?
Existe uma exceção prevista pelas diretrizes médicas. Quando a pessoa apresenta sintomas clássicos de hiperglicemia e realiza uma glicemia casual igual ou superior a 200 mg/dL, o diagnóstico pode ser confirmado imediatamente, sem necessidade de repetir os exames.
Entre os sintomas mais comuns estão: sede excessiva; urinar muitas vezes ao dia; fome exagerada; perda de peso inexplicada e fadiga intensa.
Nesses casos, o início rápido do tratamento é fundamental para evitar complicações mais graves, especialmente no diabetes tipo 1, que pode evoluir para quadros de cetoacidose diabética.
O diagnóstico precoce pode fazer diferença
Especialistas destacam que identificar o diabetes nos estágios iniciais permite um acompanhamento mais próximo e pode reduzir riscos associados ao diagnóstico tardio.
No caso do diabetes tipo 1, o reconhecimento das fases autoimunes representa um avanço importante na medicina, permitindo monitorar pessoas com maior risco e ampliar o conhecimento sobre a evolução da doença.
Já para o diabetes tipo 2, exames periódicos continuam sendo essenciais, principalmente para indivíduos com histórico familiar, excesso de peso, hipertensão ou outras condições que aumentam o risco de desenvolver a doença.
Quanto mais cedo o diagnóstico é realizado, maiores são as chances de iniciar o tratamento adequado, prevenir complicações e preservar a qualidade de vida.
