A insulina não atua apenas sobre a glicose que chega ao sangue depois de uma refeição. Mesmo sem comer, o organismo continua precisando de energia e liberando glicose na circulação. Por isso, pessoas com diabetes tipo 1 e parte das pessoas com diabetes tipo 2 precisam também durante o sono e nos intervalos entre as refeições.
Essa é a função da chamada insulina basal, tema explicado pela endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, colunista e consultora médica do Portal Um Diabético, em entrevista ao DiabetesCast.
“É uma insulina que a gente utiliza quando eu estou dormindo ou quando eu não estou comendo”, afirmou a médica ao apresentar o papel desse componente do tratamento.
Entender essa necessidade ajuda a responder a uma dúvida que pode surgir na rotina: se não houve uma refeição, por que ainda é preciso insulina? A resposta começa pelo funcionamento do organismo, que mantém suas atividades durante o jejum.
De onde vem a glicose quando não estamos comendo?
Durante os intervalos entre as refeições, o fígado libera glicose para ajudar a sustentar as necessidades de energia do corpo. Isso também acontece durante a noite.
A insulina participa da regulação desse processo. Nos Standards of Care de 2026, a Associação Americana de Diabetes (ADA) explica que a principal ação da insulina basal é conter a produção de glicose pelo fígado e limitar a hiperglicemia durante a noite e entre as refeições.
Portanto, não comer não significa que a glicose deixou de circular no sangue. Em quem precisa da reposição do hormônio, a insulina basal ajuda a atender uma necessidade que continua existindo independentemente da refeição.
Na entrevista, Denise diferencia essa função daquela relacionada à alimentação: a basal atua sem depender do impacto imediato da comida.
Qual é a diferença entre insulina basal e insulina das refeições?
O tratamento procura reproduzir duas funções da produção natural de insulina: uma liberação de base ao longo do dia e uma resposta à chegada dos alimentos.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) descreve essa divisão em sua diretriz sobre insulinoterapia no diabetes tipo 1. O componente basal atende às necessidades contínuas, enquanto o componente prandial, relacionado às refeições, responde à alimentação.
“Quando eu vou comer, eu preciso aplicar insulina em cada refeição, no caso de quem tem diabetes tipo 1”, explicou Denise no DiabetesCast.
Nos esquemas com múltiplas aplicações, essas funções geralmente são atendidas por insulinas com diferentes perfis de ação. A NPH, de ação intermediária, e os análogos de ação prolongada podem cumprir a função basal. As insulinas regular, rápidas ou ultrarrápidas são utilizadas para a cobertura das refeições, conforme a prescrição.
Nas bombas, a reposição basal pode ser feita pela liberação contínua de pequenas quantidades de insulina de ação rápida. Isso significa que a função basal não depende necessariamente de uma aplicação separada da prolongada.
Quem tem diabetes tipo 1 pode suspender a basal se não comer?
No diabetes tipo 1, a necessidade de reposição de insulina continua durante o jejum. A ausência de uma refeição não elimina a necessidade do componente basal.
A ADA reforça essa orientação nas recomendações para o cuidado hospitalar: pessoas com diabetes tipo 1 precisam receber insulina basal mesmo quando não estão se alimentando. A falta dela pode favorecer a cetoacidose diabética, uma complicação aguda que exige atendimento.
Isso não significa que a dose será sempre igual em qualquer situação. Jejum para exames, cirurgias ou dificuldades para comer podem exigir ajustes planejados pela equipe de saúde.
A orientação é definir previamente como proceder. Suspender a basal por conta própria porque não haverá uma refeição pode deixar o organismo sem a reposição necessária. A ADA também orienta que a insulina basal não seja interrompida por falta de alimentação em pessoas que recebem tratamento intensivo com insulina.
“A gente costuma dizer que insulina é vida para quem depende dela”, ressaltou Denise.
E no diabetes tipo 2, por que a basal pode ser indicada?
No diabetes tipo 2, algumas pessoas precisam de insulina para alcançar as metas de glicemia. Segundo a ADA, a basal pode ser acrescentada a outros medicamentos e costuma ser uma das formas de iniciar a insulinoterapia.
Sua atuação durante a noite e entre as refeições ajuda a explicar por que uma pessoa pode receber essa prescrição mesmo sem precisar de aplicações específicas para cada refeição.
No DiabetesCast, Denise comenta que novas terapias ampliaram as possibilidades de tratamento e que nem todas as pessoas com diabetes tipo 2 precisam de insulina rápida.
O esquema depende das necessidades individuais. A prescrição de basal, por si só, não determina quantas aplicações serão necessárias no futuro.
Como evitar confusões na rotina?
Compreender a função da basal é diferente de decidir sozinho como aplicá-la. As doses e os horários precisam considerar o tipo de insulina, a alimentação, a atividade física e os registros de glicose.
A SBD alerta, por exemplo, que pessoas que usam NPH podem apresentar hipoglicemia ao atrasar ou omitir refeições, devido ao pico de ação do medicamento. Por isso, a explicação de que a basal atua no jejum não deve ser entendida como autorização para pular refeições sem planejamento.
Denise destaca que a orientação precisa incluir dose, técnica de aplicação, conservação e como agir diante de glicose baixa ou alta.
O ponto central é compreender que a insulina atende também às necessidades do corpo fora das refeições. Esse conhecimento deve acompanhar um plano individual de tratamento, com orientações claras para dias habituais, períodos de jejum e mudanças na alimentação.
