Durante uma consulta, o profissional de saúde avalia os pés através da inteligência artificial e registra imagens pelo celular.
Esses dados são reunidos em uma plataforma de inteligência artificial que ajuda a gerar uma avaliação de risco e a identificar pessoas que podem precisar de maior atenção.
Esse é o caminho adotado agora pela rede pública de saúde de Niterói, no Rio de Janeiro. A cidade lançou, em 24 de agosto, o Programa PASSO, iniciativa voltada à prevenção de complicações nos pés de pessoas com diabetes e à identificação precoce de situações que podem evoluir para quadros mais graves.
O projeto começou como piloto em quatro unidades da Atenção Primária: UBS Barreto, UBS Santa Bárbara, Módulo Médico de Família Maruí e Módulo Médico de Família Ititioca. A proposta da Prefeitura é ampliar gradualmente a iniciativa para toda a rede municipal.
Por trás do programa está a plataforma AFoot, desenvolvida pela empresa brasileira LookInside e registrada na Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa). A tecnologia utiliza inteligência artificial como ferramenta de apoio à avaliação dos profissionais de saúde e à identificação do risco de complicações nos pés. O projeto foi implantado por meio de parceria entre a Secretaria Municipal de Saúde e a empresa responsável pela plataforma.
Como funciona o Programa PASSO
A proposta não é substituir o exame realizado pelo profissional por uma fotografia do pé. A tecnologia entra como mais uma ferramenta dentro da avaliação com a inteligência artificial.
Durante o atendimento, são reunidas informações sobre a saúde da pessoa com diabetes, além da avaliação física dos pés e do registro de imagens pelo smartphone. A plataforma utiliza esses dados para auxiliar na identificação e classificação do risco de complicações com o auxílio da inteligência artificial.
A intenção é dar às equipes de saúde mais informações para reconhecer pacientes que precisam de atenção antes que uma alteração evolua para uma ferida ou outro problema mais grave.
É justamente essa identificação antecipada que está no centro da proposta. O desafio é reconhecer quem apresenta fatores de risco antes do aparecimento de uma lesão.
Segundo a Prefeitura de Niterói, o Programa PASSO foi criado para apoiar a identificação precoce de pessoas com maior risco e direcionar o cuidado necessário para evitar o agravamento das complicações.
Por que os pés exigem tanta atenção no diabetes?
Uma pequena ferida pode ter consequências diferentes para quem convive com diabetes, especialmente quando há alterações na sensibilidade ou na circulação.
A neuropatia diabética, por exemplo, pode comprometer a percepção de estímulos nos pés e dificultar a identificação de pequenas lesões. Uma bolha causada pelo sapato, um corte ou uma rachadura podem passar despercebidos e evoluir sem que a pessoa perceba imediatamente.
A doença arterial periférica também pode aumentar o risco de complicações nos pés. Quando existem alterações nos nervos, na circulação ou na estrutura dos pés, a possibilidade de desenvolvimento de úlceras pode ser maior.
A Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes de 2026 aponta a neuropatia diabética como a complicação mais comum do diabetes. A entidade recomenda que todas as pessoas com diabetes, com ou sem sintomas neuropáticos, sejam examinadas anualmente para identificar a presença da neuropatia periférica.
A SBD também destaca a perda da sensibilidade protetora, a doença arterial periférica e as deformidades dos pés entre os principais fatores associados ao risco de úlceras. O exame periódico dos pés permite reconhecer essas condições antes que uma lesão apareça.

A tecnologia com inteligência artificial entra antes da complicação
É justamente nesse ponto que está o principal interesse do projeto de Niterói.
A inteligência artificial não trata uma ferida e não substitui o acompanhamento médico. Sua função, neste caso, é ajudar a identificar características que podem indicar maior risco, oferecendo mais informações para a tomada de decisão da equipe de saúde.
Na prática, isso pode contribuir para que pessoas com maior necessidade de acompanhamento sejam reconhecidas mais cedo.
A prevenção de complicações nos pés depende de diferentes fatores, entre eles a identificação do risco, o acompanhamento regular e o tratamento adequado das alterações encontradas. A identificação precoce de uma situação de risco permite que a equipe avalie a necessidade de intensificar o acompanhamento e adote medidas preventivas.
Por isso, o uso da tecnologia chama atenção não apenas pelo recurso de inteligência artificial, mas pelo momento em que ela é inserida no cuidado.
Em vez de aparecer apenas diante de uma complicação já instalada, a proposta é utilizar a ferramenta como parte de uma estratégia de prevenção.
Da consulta à prevenção: por que levar essa tecnologia para a rede pública importa
O Programa PASSO também chama atenção pelo local onde começou a ser implantado: a Atenção Primária à Saúde.
É nas unidades básicas e nos serviços de saúde da família que grande parte das pessoas com diabetes realiza o acompanhamento contínuo. É nesses espaços que alterações podem ser identificadas e acompanhadas antes da necessidade de intervenções mais complexas.
A incorporação de uma ferramenta tecnológica de inteligência artificial nesse nível de atendimento pode ampliar os recursos disponíveis para as equipes que acompanham esses pacientes no dia a dia.
O projeto ainda está em sua fase piloto e, portanto, será preciso acompanhar seus resultados para entender o impacto da tecnologia na rotina da rede e na prevenção de complicações. A expectativa do município é expandir a iniciativa para outras unidades após essa primeira etapa, com previsão de alcançar toda a rede municipal de Atenção Primária.
O modelo também coloca em discussão um caminho que deve ganhar espaço na saúde: o uso de ferramentas digitais não para substituir profissionais, mas para apoiar decisões e organizar melhor a identificação de riscos.
O desafio de encontrar o problema antes que ele apareça
As complicações nos pés podem estar relacionadas a alterações nos nervos e na circulação associadas ao diabetes. O Ministério da Saúde explica que essas alterações podem contribuir para o surgimento de feridas que, quando não identificadas e tratadas adequadamente, podem evoluir para infecções e, nos casos mais graves, amputações.
Mas o pé diabético não começa necessariamente com uma ferida visível.
Antes dela, podem existir perda de sensibilidade, alterações na circulação, deformidades, calosidades ou outros fatores que aumentam a vulnerabilidade dos pés. Identificar essas condições faz parte da prevenção.
As diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes reforçam que a prevenção de úlceras envolve a identificação das pessoas em risco, o exame regular dos pés, orientação e o tratamento dos fatores que podem contribuir para o surgimento das lesões.
É justamente nessa etapa, antes do aparecimento de uma ferida, que ferramentas com uso de inteligência artificial trazem apoio à avaliação de risco podem ser utilizadas como parte da estratégia de prevenção.
A inteligência artificial pode ajudar a reunir e analisar informações que passam pela consulta, mas o cuidado continua dependendo da avaliação clínica e das decisões tomadas pela equipe de saúde.
O avanço está no apoio ao cuidado
O lançamento do Programa PASSO não significa que a inteligência artificial seja capaz de prever sozinha uma amputação. A proposta é mais específica: usar a tecnologia para apoiar a identificação de riscos e ajudar os profissionais a agir diante de situações que merecem atenção.
Essa diferença é importante, principalmente em uma área da saúde em que ferramentas baseadas em inteligência artificial começam a ganhar espaço.
O avanço não está apenas em utilizar um algoritmo ou registrar imagens pelo celular. Está na possibilidade de incorporar novas informações à rotina de acompanhamento de pessoas que convivem com uma condição crônica e precisam de cuidados contínuos.
Para o paciente, a tecnologia pode ser praticamente invisível. O que muda é o processo por trás da consulta: informações clínicas, avaliação dos pés e imagens passam a contar com uma ferramenta adicional de análise.
O resultado esperado é um cuidado mais atento aos riscos que podem passar despercebidos.
Ainda será necessário acompanhar a experiência de Niterói para entender os resultados do projeto piloto e o impacto da tecnologia na prevenção de complicações. Até o momento, o que está confirmado é a implantação da iniciativa em quatro unidades, com previsão de expansão para toda a rede municipal de Atenção Primária.
No diabetes, algumas alterações nos pés podem se desenvolver sem sintomas perceptíveis. Por isso, identificar fatores de risco antes que uma ferida apareça continua sendo uma etapa importante da prevenção.
Em Niterói, a aposta é que a inteligência artificial possa ajudar justamente nesse momento: não para substituir quem cuida, mas para oferecer mais informações antes que o problema avance.
