Quando uma pessoa descobre o diabetes, quase sempre o primeiro atendimento acontece longe de um especialista. É na Unidade Básica de Saúde, no posto do bairro ou na porta de entrada do SUS que começam as dúvidas, os sintomas e também os desafios do tratamento.
Só que existe um problema silencioso por trás desse cenário. Muitos profissionais da atenção primária não receberam formação suficiente para lidar com as diferentes formas de diabetes, identificar sinais de alerta ou atualizar o tratamento conforme os avanços da medicina. E isso acontece justamente em um momento em que o Brasil vê crescer os casos da doença, inclusive entre crianças, adolescentes e idosos.
Nesse contexto, a capacitação em diabetes na atenção primária passou a ser uma das prioridades da nova gestão da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD). O objetivo é ampliar o acesso à educação médica e ao letramento em saúde para profissionais que atendem diariamente milhões de brasileiros.
O endocrinologista João Salles, presidente da SBD e professor da Santa Casa de São Paulo, afirma que o problema não é apenas falta de médicos no país, mas sim dificuldade de formação continuada.
“A vasta maioria das pessoas com diabetes não é vista por especialistas. Muitas vezes o profissional aprendeu diabetes na faculdade, teve uma ou duas aulas e nunca mais estudou o tema. Depois ele recebe uma pessoa com diabetes na frente dele para cuidar”, explicou.
Segundo ele, a consequência disso aparece diretamente no cuidado do paciente, principalmente em cidades menores e regiões mais afastadas dos grandes centros.
Capacitação em diabetes na atenção primária virou prioridade
A SBD pretende criar uma plataforma digital gratuita voltada para médicos, enfermeiros, nutricionistas, educadores físicos e agentes comunitários de saúde. A proposta é oferecer conteúdos práticos sobre diagnóstico, rastreamento, tratamento oral, uso de insulina, pré-diabetes, obesidade e complicações da doença.
Além disso, a ideia é levar o conteúdo diretamente aos municípios, já que a atenção primária no Brasil é municipalizada.
“A gente quer levar educação em diabetes para atenção primária. É um trabalho de formiguinha, município por município”, afirmou João Salles.
O desafio é enorme. O Brasil possui mais de 5 mil municípios e nem todos têm acesso fácil a especialistas. Portanto, fortalecer quem está na linha de frente pode fazer diferença no diagnóstico precoce e na prevenção de complicações.
Por outro lado, o próprio presidente da SBD reconhece que a plataforma sozinha não resolve tudo. A dificuldade de acesso à informação, a sobrecarga dos profissionais e as desigualdades regionais ainda são barreiras importantes.
Diabetes mudou e muitos profissionais não acompanharam essas mudanças
Durante muitos anos, o diabetes tipo 2 era associado principalmente a adultos mais velhos. Hoje, médicos já observam adolescentes e crianças recebendo esse diagnóstico por causa do aumento da obesidade.
Ao mesmo tempo, idosos podem apresentar diabetes tipo 1 tardio, o que exige um olhar mais atento para diferenciar os tipos da doença.
“Hoje você tem crianças com diabetes tipo 2 e pessoas acima dos 60 anos recebendo diagnóstico de diabetes tipo 1. Isso exige preparo da rede de saúde”, destacou João Salles.
Além disso, novos medicamentos passaram a fazer parte do tratamento, incluindo insulinas mais modernas, inibidores de SGLT2 e medicamentos da classe GLP-1. Porém, muitos profissionais ainda não receberam treinamento adequado para utilizar essas terapias no SUS.
Nesse cenário, o risco não é apenas atrasar o tratamento correto. O problema também pode aumentar complicações como amputações, doenças cardiovasculares, perda da visão e insuficiência renal.
O papel do agente comunitário pode ser decisivo
Um dos pontos mais defendidos pela SBD é fortalecer o agente comunitário de saúde como elo entre o paciente e o sistema público.
Isso porque, muitas vezes, é esse profissional que conhece a realidade da família, identifica sinais de alerta e consegue orientar sobre exames, alimentação e acompanhamento médico.
“O agente comunitário fala a mesma linguagem do paciente. Muitas vezes ele é a pessoa em quem o paciente mais confia”, afirmou João Salles.
A proposta da entidade é incluir conteúdos específicos para esses profissionais dentro da plataforma de educação em diabetes.
Além disso, a ideia também envolve combater estigmas históricos relacionados ao diabetes e à obesidade. Segundo o endocrinologista, ainda existe uma visão equivocada de que obesidade seria apenas falta de força de vontade.
Educação em saúde pode mudar o futuro do diabetes no Brasil
Outro ponto levantado pela SBD é a necessidade de abandonar abordagens baseadas em medo e ameaça durante o atendimento.
Muitas pessoas com diabetes relatam ouvir frases assustadoras durante consultas, como risco de amputação ou cegueira, sem receber orientação acolhedora sobre prevenção e tratamento.
“Educação via ameaça não resolve. O diabetes pode causar complicações, mas o paciente precisa entender que pode evitar isso com tratamento adequado”, explicou João Salles.
Além disso, o presidente da entidade acredita que o letramento em saúde precisa chegar não apenas aos profissionais, mas também à população.
Isso inclui combater fake news, melhorar o acesso à informação confiável e ampliar o entendimento sobre obesidade, alimentação e atividade física.
Hoje, a própria SBD já disponibiliza gratuitamente um aplicativo com diretrizes atualizadas sobre diabetes e inteligência artificial para auxiliar profissionais de saúde.
No fim das contas, a discussão vai muito além da tecnologia ou dos medicamentos. Trata-se de preparar quem está na linha de frente para acolher melhor milhões de brasileiros que convivem diariamente com o diabetes.
