No meio do supermercado, o jornalista Tom Bueno começou a levantar e abaixar os calcanhares, mantendo a parte da frente dos pés apoiada no chão.
O movimento de panturrilha apareceu em um vídeo que viralizou nas redes sociais, acompanhado da explicação de que poderia ajudar no controle da glicose.
Antes dele, a médica e influenciadora Maria Eduarda Dantas, conhecida como Duda, do perfil Pâncreas Artificial, já havia publicado vídeos fazendo o movimento durante viagens pela Europa. As publicações provocaram identificação: nos comentários, outras pessoas contaram que também adotavam o hábito e percebiam mudanças na glicemia.
A repercussão trouxe uma pergunta: um exercício tão discreto pode realmente ajudar a baixar a glicose?
Para entender o que acontece no organismo, o Um Diabético conversou com William Komatsu, professor de Educação Física e doutor em Ciências pela Universidade Federal de São Paulo, a Unifesp. Ele também integra o corpo docente do programa de pós-graduação em Ciências da Saúde Aplicada ao Esporte e à Atividade Física da instituição.
Por que movimentar a panturrilha pode ajudar?
Na explicação enviada à reportagem, Komatsu destaca que o ponto central é colocar o músculo para trabalhar.
“A gente precisa de uma contração muscular, né?”
Ao comentar a situação do supermercado, o especialista observa que levantar os calcanhares pode ser uma maneira discreta de fazer isso, em comparação com movimentos como o agachamento.
“Então, você faz a ponta de pé, a panturrilha, que é a mais discreta, tem bastante contração muscular.”
Os músculos precisam de energia para se movimentar, e a glicose é um dos combustíveis utilizados. Por isso, a atividade muscular pode contribuir para reduzir sua concentração no sangue. Essa relação ajuda a explicar o raciocínio apresentado por Komatsu.
“E aí, lógico, né, que utilizando glicose vai abaixar um pouquinho a glicemia, né?”
A fala descreve um possível efeito do movimento, mas não estabelece quanto a glicose cairá nem em quanto tempo. Também não significa que todas as pessoas terão a mesma resposta.
O que os estudos mostram sobre esse movimento?
Uma pesquisa publicada em 2022 na revista científica iScience, por pesquisadores da Universidade de Houston, nos Estados Unidos, investigou uma técnica chamada soleus push-up. O nome faz referência ao sóleo, um dos músculos da panturrilha.
Nesse protocolo, os participantes permaneciam sentados, com os joelhos dobrados, e realizavam elevações repetidas dos calcanhares. Os pesquisadores observaram melhora na resposta da glicose em testes realizados sob condições controladas. As sessões eram prolongadas, e o movimento foi desenvolvido para estimular especificamente esse músculo.
Essa diferença é essencial para interpretar os vídeos: levantar os calcanhares em pé no supermercado não reproduz automaticamente o exercício estudado em laboratório. Portanto, os resultados dessa pesquisa não permitem afirmar que algumas repetições durante as compras produzirão o mesmo benefício.
Em 2025, um estudo piloto publicado na revista Sports investigou a técnica sentada em um pequeno grupo de pessoas com pré-diabetes. Durante um teste de tolerância à glicose, os autores observaram redução de aproximadamente 32% em uma medida que reúne a elevação da glicose ao longo do período avaliado, em comparação com permanecer sentado sem o exercício.
Isso não significa que a glicemia de cada participante caiu 32%, nem que esse resultado possa ser esperado por quem reproduz o movimento em casa. O trabalho é preliminar e não comprova benefícios duradouros ou o mesmo efeito em pessoas com diabetes tipo 1.
Pequenas pausas com movimento também foram pesquisadas
A ciência sobre o tema vai além de um músculo específico. Um estudo publicado em 2016 na revista Diabetes Care avaliou 24 adultos com diabetes tipo 2 e comparou períodos prolongados sentados com pausas para atividade física.
Em uma das condições, os participantes faziam três minutos de movimentos simples a cada 30 minutos. A sequência incluía elevações de panturrilha, meio agachamento, contrações dos glúteos e elevações dos joelhos. Em outra, realizavam caminhadas leves.
As duas estratégias reduziram a resposta da glicose após as refeições em comparação com permanecer sentado continuamente. Como os exercícios foram realizados em conjunto, não é possível atribuir o resultado apenas à panturrilha.
O estudo reforça a possibilidade de incorporar movimento à rotina, especialmente para interromper longos períodos de inatividade.
Quem tem diabetes precisa observar a própria resposta
Para pessoas com diabetes, sobretudo quem usa insulina, a atividade física precisa considerar a glicemia e o tratamento. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda monitorar a glicose antes, durante e depois do exercício em pessoas com diabetes tipo 1, para reduzir o risco de hipoglicemia.
A entidade também destaca que a resposta varia conforme o tipo de atividade. Alguns exercícios podem inclusive elevar temporariamente a glicose, o que reforça a importância de individualizar as orientações.
Assim, o movimento que viralizou pode abrir uma conversa sobre formas de ser mais ativo ao longo do dia. Ele não deve ser apresentado como uma maneira garantida de corrigir glicose alta ou como substituto da insulina e dos demais cuidados prescritos.
Também não há, nas pesquisas citadas, um número de repetições comprovado para baixar a glicose durante uma ida ao supermercado.
A mensagem de Komatsu se concentra na participação dos músculos nessa rotina:
“Mas é isso, o importante é contrair o músculo.”
