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    Início - Jovem transforma dor em propósito após morte da irmã por complicações do diabetes
    História

    Jovem transforma dor em propósito após morte da irmã por complicações do diabetes

    Após perder a irmã, que morreu aos 24 anos por complicações do diabetes tipo 1, Ana enfrentou depressão, transtornos alimentares e transformou a própria relação com a doença
    Estefane Moitinho4 de agosto de 2026Updated:4 de agosto de 2026Nenhum comentário8 Mins Read
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    Jovem com diabetes transforma dor em propósito.
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    Durante muito tempo, Ana acreditou que sua história terminaria da mesma forma que a da irmã. As duas conviviam com o diabetes tipo 1, enfrentavam dificuldades para aceitar a doença e, por muitos anos, deixaram o tratamento em segundo plano. Quando a irmã morreu, em 2022, aos 24 anos, em decorrência de complicações relacionadas ao diabetes, ela teve a sensação de que viveria o mesmo destino.

    O luto trouxe medo, culpa e a certeza de que também desenvolveria as mesmas complicações. Mas foi justamente nesse período que Ana começou a reconstruir sua relação com a doença.

    Hoje, ela compartilha nas redes sociais a rotina de quem convive com o diabetes tipo 1. Entre glicemias fora da meta, dias difíceis e pequenas conquistas, procura mostrar uma realidade que muitas pessoas vivem, mas nem sempre encontram representada na internet: a de que controlar o diabetes nem sempre é simples, mas nunca deixa de valer a pena.

    Um diagnóstico que demorou para ser aceito

    Ana descobriu o diabetes tipo 1 aos 14 anos. Antes do diagnóstico, perdeu cerca de nove quilos em poucos dias e passou mais de uma semana apresentando sintomas intensos. Inicialmente, o quadro foi confundido com uma virose.

    Como a irmã também tinha diabetes tipo 1, a família decidiu medir sua glicemia em casa. O resultado ultrapassava 400 mg/dL. Pouco depois, o diagnóstico foi confirmado no hospital.

    Apesar de conhecer a doença desde a infância, aceitar que também viveria com diabetes foi um processo demorado.

    “Eu me conformei com o diagnóstico, mas a aceitação da doença veio bem mais tarde, praticamente já na fase adulta”, relembra.

    A história da irmã mudou tudo

    A irmã de Ana recebeu o diagnóstico de diabetes tipo 1 aos nove anos. Durante a infância, o tratamento era acompanhado de perto pela família, mas, com o passar do tempo, manter os cuidados se tornou um desafio.

    A dificuldade em manter o tratamento ao longo dos anos contribuiu para períodos de glicemia elevada, aumentando o risco de complicações associadas ao diabetes.

    Uma das mais graves afetou os rins. Com a perda progressiva da função renal, ela precisou iniciar sessões de hemodiálise três vezes por semana.

    Quando os rins deixam de funcionar adequadamente, o organismo passa a ter dificuldade para eliminar toxinas e excesso de líquidos. Nesses casos, a hemodiálise é utilizada para substituir parte dessa função e ajudar a filtrar o sangue.

    Além da doença renal, vieram internações frequentes, infecções graves e perda parcial da visão.

    Ana lembra que, mesmo diante desse cenário, a irmã começou a se dedicar mais ao tratamento. Passou a controlar melhor a glicemia e a cuidar da alimentação, mas as complicações já estavam muito avançadas.

    Ela morreu em 2022, aos 24 anos.

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    Imagem: Arquivo pessoal.

    “Eu via tudo acontecendo e continuava fazendo igual”

    O que mais marcou Ana foi perceber que ela também estava seguindo o mesmo caminho.

    Na época, deixava de aplicar insulina, passava dias sem medir a glicemia e acreditava que as complicações estavam muito distantes.

    Mesmo acompanhando de perto o agravamento da saúde da irmã, não conseguia imaginar que aquilo também pudesse acontecer com ela.

    “Na minha cabeça, a morte estava muito longe. Eu via tudo acontecendo, mas achava que isso nunca ia acontecer com a gente”, conta.

    Depois da morte da irmã, porém, esse pensamento mudou completamente.

    O medo de desenvolver as mesmas complicações passou a fazer parte da rotina.

    Ela entrou em depressão, desenvolveu transtornos alimentares e deixou de acreditar que seria possível mudar sua própria história. Em alguns momentos, chegou a omitir doses de insulina acreditando, de forma equivocada, que isso ajudaria a emagrecer.

    “Eu achava que nada do que eu fizesse mudaria o meu futuro”, relembra.

    A decisão de fazer diferente

    A mudança começou quando Ana percebeu que precisava cuidar de si.

    Na época, sua hemoglobina glicada — exame que mostra a média da glicose nos últimos dois a três meses — estava em torno de 19%, muito acima da meta recomendada para a maioria das pessoas com diabetes. O resultado refletia anos de dificuldades para manter o controle da doença.

    Ela decidiu buscar ajuda.

    Passou a utilizar uma bomba de insulina, dispositivo que libera insulina continuamente ao longo do dia e ajuda a tornar o tratamento mais preciso. Também retomou o acompanhamento com profissionais de saúde, iniciou terapia e encontrou apoio na família e na fé para enfrentar o processo de mudança.

    A transformação não aconteceu de um dia para o outro.

    Foram meses de insegurança, recaídas e aprendizados. Aos poucos, porém, Ana percebeu que não podia mudar o passado, mas ainda podia escrever uma história diferente dali em diante.

    Hoje, ela diz que cuidar do diabetes deixou de ser uma obrigação movida pelo medo e passou a ser uma forma de cuidar da própria vida.

    Um propósito que nasceu da própria história

    A mudança na forma de enxergar o diabetes acabou levando Ana a um caminho que ela nunca imaginou seguir.

    Tudo começou quando decidiu gravar um vídeo explicando como havia conseguido uma bomba de insulina. A intenção era apenas compartilhar uma experiência pessoal, mas a publicação alcançou outras pessoas que também conviviam com o diabetes e enfrentavam dúvidas parecidas.

    As mensagens começaram a chegar de diferentes partes do país. Muitos contavam que se identificavam com sua história, outros buscavam orientação sobre o tratamento ou simplesmente queriam conversar com alguém que entendesse os desafios da doença.

    Foi então que Ana percebeu que sua experiência poderia ter um propósito maior.

    “Talvez eu não precisasse guardar tudo isso só para mim. Se a minha história fizer uma pessoa se cuidar mais, ela já terá valido a pena”, afirma.

    Hoje, seus perfis nas redes sociais mostram uma rotina real, sem esconder os desafios que fazem parte da convivência com o diabetes.

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    Imagem: Arquivo pessoal.

    A vida real não é um gráfico perfeito

    Quem acompanha Ana encontra muito mais do que dicas sobre diabetes.

    Ela compartilha as dificuldades para manter a glicemia dentro da meta, fala sobre hipoglicemias, hiperglicemias, alimentação, uso da bomba de insulina e também sobre os desafios emocionais que acompanham uma condição que exige atenção todos os dias.

    Segundo ela, mostrar apenas resultados perfeitos cria uma expectativa distante da realidade.

    “A vida real não é um gráfico reto”, resume.

    Para Ana, falar sobre os dias difíceis também é uma forma de cuidado. Quando as pessoas entendem que oscilações fazem parte da rotina, tendem a sentir menos culpa e menos medo quando elas acontecem.

    Um encontro que reforçou seu propósito

    Entre as muitas mensagens que recebeu ao longo dos últimos anos, uma lembrança ganhou um significado especial.

    Durante um passeio em um parque, uma menina com diabetes tipo 1 reconheceu a bomba de insulina que Ana usava. A conversa começou por causa da capinha rosa do dispositivo e acabou aproximando as duas famílias.

    Desde então, elas mantêm contato.

    Ana conta que sempre se emociona ao perceber que a menina enxerga nela uma referência para o futuro.

    “Eu sinto que ela olha para mim e pensa que também pode crescer, trabalhar, construir uma família e viver bem mesmo tendo diabetes.”

    Para ela, momentos como esse reforçam que compartilhar a própria história pode fazer diferença na vida de outras pessoas.

    O tratamento também passa pela saúde mental

    Ao olhar para trás, Ana reconhece que a tecnologia foi importante para melhorar o controle da doença, mas faz questão de destacar que ela não foi a única responsável pela mudança.

    A bomba de insulina, a contagem de carboidratos, o acompanhamento regular com a equipe de saúde e a realização periódica de exames ajudaram a construir uma rotina mais segura.

    Como resultado, sua hemoglobina glicada, que já chegou a 19%, hoje permanece entre 6% e 7%.

    Ela também aprendeu que cuidar da saúde mental faz parte do tratamento.

    “Quem tem diabetes toma decisões o tempo todo. Se a gente não cuida da nossa cabeça, acaba ficando sobrecarregado”, afirma, ao lembrar da importância da terapia durante o processo de aceitação da doença.

    “O autocuidado precisa nascer do amor”

    Depois de tudo o que viveu, Ana costuma deixar uma mensagem para quem acabou de receber o diagnóstico ou ainda enfrenta dificuldades para aceitar o diabetes.

    Ela reconhece que o medo faz parte desse processo, principalmente quando se pensa nas possíveis complicações da doença. No entanto, acredita que o cuidado não pode ser motivado apenas por esse sentimento.

    Durante muito tempo, ela diz que aplicava insulina e tentava controlar a glicemia apenas porque tinha medo de repetir a história da irmã.

    Hoje, sua motivação é outra.

    “O autocuidado não pode nascer só do medo. Ele precisa nascer do amor pela sua própria vida”, afirma.

    Ela também incentiva outras pessoas a procurarem apoio sempre que precisarem, seja com familiares, amigos ou profissionais de saúde.

    “Aceitar o diabetes não é aceitar uma vida limitada. É aceitar uma realidade para conseguir construir uma vida melhor.”

    Hoje, ao compartilhar sua rotina, Ana espera que outras pessoas entendam que o diabetes exige cuidados diários, mas não impede a construção de uma vida com qualidade. Sua história mostra que, mesmo após o luto e as dificuldades, buscar ajuda, cuidar da saúde física e mental e retomar o tratamento pode mudar completamente a forma de conviver com a doença.

    “Aceitar o diabetes não é aceitar uma vida limitada. É aceitar uma realidade para conseguir construir uma vida melhor.”

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    Estefane Moitinho

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