João Pedro, chegou ao local do vestibular da Universidade Federal de Goiás (UFG) com a bomba de insulina preparado para realizar a prova.
Antes de entrar na sala, porém, procurou a coordenação para informar que tinha diabetes e utilizava uma bomba de insulina.
Segundo o estudante e sua mãe, Alana Ladislau, a conversa terminou com a orientação de que ele não poderia fazer o exame pela manhã utilizando o dispositivo.
A situação, segundo a família, começou ainda antes da prova. Durante a inscrição para o vestibular, realizada em julho, Alana afirma que tentou informar a condição do filho e anexar o laudo médico solicitado, mas encontrou problemas no sistema.
Família tentou informar o uso da bomba de insulina durante a inscrição
A primeira tentativa de comunicar a condição de João, segundo a família, aconteceu durante a inscrição para o vestibular.
Alana conta que, ao informar que o filho precisava de atendimento especial, o sistema solicitava o envio de um laudo médico, mas apresentava erro justamente no momento de anexar o documento.
“Quando colocava que havia uma condição especial, pedia para colocar o anexo, sempre dava erro”, relata.
Diante do problema, a mãe afirma que orientou João a concluir a inscrição e entrou em contato por e-mail com o Instituto Verbena, responsável pela execução do processo seletivo, para explicar a situação.
Segundo Alana, a resposta recebida indicava a necessidade de fazer uma nova inscrição. Ela afirma que questionou como ficaria o pagamento da taxa, que já havia sido realizado.
O edital do Vestibular UFG 2026 prevê que candidatos que necessitem de condições especiais devem informar a necessidade no momento da inscrição, preencher o requerimento correspondente e enviar a documentação médica exigida. O documento também determina que as solicitações sejam analisadas previamente pela organização.
A família afirma que tentou fazer essa comunicação, mas não conseguiu concluir o envio do documento pelo sistema.
No local do vestibular, João procura a coordenação
Mesmo depois do contato feito durante a inscrição, João decidiu explicar pessoalmente a situação antes de entrar na sala.
A experiência anterior em outro vestibular também influenciou a decisão. Segundo Alana, durante uma prova da Universidade Estadual de Goiás (UEG), o filho havia passado por uma inspeção depois que um detector de metais identificou o equipamento. Na ocasião, após explicar que se tratava de uma bomba de insulina, ele conseguiu retornar à prova.
Por isso, João chegou ao vestibular da UFG pensando em evitar que uma situação semelhante acontecesse.
“Eu chego ao local com o intuito de conversar com a coordenadora geral para não ter um erro”, relata.
De acordo com o estudante, a coordenadora fez perguntas sobre o diabetes e pediu que ele explicasse como funcionava o dispositivo. João mostrou a bomba, o sensor e os componentes conectados ao corpo.
Ele também mostrou a glicemia e explicou a função de cada parte do equipamento.
Segundo João, a intenção era esclarecer que a bomba fazia parte do tratamento e não tinha relação com comunicação ou qualquer recurso que pudesse ser utilizado para realizar a prova.
Organização consulta responsável pelo processo seletivo
Depois de ouvir as explicações, segundo João, a coordenadora entrou em contato com uma responsável pelo Instituto Verbena para verificar se ele poderia realizar o exame utilizando a bomba de insulina.
Foi nesse momento que, de acordo com o estudante, veio a negativa.
João afirma que recebeu a orientação de que não poderia fazer a prova utilizando o dispositivo.
“A única coisa que eles me falaram foi: ‘infelizmente você não vai poder fazer a prova por ser um aparelho, independente do aparelho, e pode interferir ou incomodar as pessoas ao seu redor’”, conta.
Diante da resposta, o estudante tentou encontrar uma alternativa que permitisse sua permanência no processo seletivo. Uma das possibilidades sugeridas por ele foi realizar a prova em uma sala separada dos demais candidatos.
João também afirma que chegou a se oferecer para retirar a bomba e deixá-la junto aos outros objetos pessoais, caso essa fosse a exigência para entrar na sala. Segundo seu relato, nenhuma das alternativas foi aceita.
O edital do vestibular prevê, entre as possibilidades de condições especiais, a realização da prova em sala individual ou com número reduzido de candidatos. O documento também estabelece que, quando a solicitação envolver recursos tecnológicos, poderá ser disponibilizado atendimento alternativo, considerando as condições de viabilidade e razoabilidade.
João chegou a considerar retirar a bomba
A possibilidade de realizar a prova sem o dispositivo levou João a considerar a retirada da bomba naquele momento.
O estudante afirma que explicou novamente como o equipamento funcionava e mostrou que ele estava conectado ao corpo. Segundo João, a preocupação apresentada pelos responsáveis estava relacionada à possibilidade de a bomba vibrar, emitir algum som ou incomodar outros candidatos.
A bomba de insulina é um sistema utilizado para a infusão contínua do hormônio e faz parte das opções de tratamento para pessoas com diabetes tipo 1. A Sociedade Brasileira de Diabetes explica que, nesses sistemas, a necessidade basal de insulina é suprida pela infusão contínua de insulina de ação rápida ou ultrarrápida.
Por esse motivo, a interrupção prolongada da infusão pode levar rapidamente à deficiência de insulina e aumentar o risco de hiperglicemia, cetose e cetoacidose diabética. A própria diretriz destaca a necessidade de planos de contingência para situações de interrupção do sistema.
No caso de João, a bomba faz parte da rotina desde os três anos de idade, segundo Alana. A mãe conta que ficou preocupada ao perceber que o filho estava considerando retirar o dispositivo para conseguir realizar a prova.
João também tentou explicar a importância do equipamento durante a conversa com os responsáveis.
“Falei que a bomba era a minha saúde”, afirma.
Para Alana, a situação mostrava justamente a diferença entre um aparelho eletrônico comum e uma tecnologia utilizada no tratamento do filho.
“Ele estava usando um aparelho para a vida dele, para a saúde dele”, afirma.
Estudante deixa o local sem fazer a prova da manhã
Enquanto aguardava a decisão dos responsáveis pelo processo seletivo, João conta que ficou apreensivo. Ele sabia que aquela era uma prova importante para seus planos acadêmicos e não tinha certeza se conseguiria entrar na sala.
“Durante o tempo que eu estava esperando a resposta dela, eu ficava coçando a cabeça preocupado se eu realmente podia ou não fazer a prova, estava sendo uma tortura”, relata.
Quando recebeu a confirmação de que não poderia realizar o exame pela manhã, o estudante deixou o local.
João conta que saiu chorando e ligou para a mãe para que ela fosse buscá-lo. Segundo ele, a situação foi especialmente difícil porque a prova representava uma etapa importante dos planos para o futuro acadêmico.
“Eu já fiquei totalmente apavorado por ser uma prova importante para mim, para a faculdade que eu quero”, afirma.
Depois de conversar com a família, João diz que conseguiu compreender o episódio também como uma situação relacionada ao uso do dispositivo que faz parte do seu tratamento.
“Vi que eu não estava errado, eu apenas estava lutando pelo meu direito de usar um aparelho que me faz viver, com saúde e muita felicidade”, afirma.
João conseguiu fazer a prova da tarde
Apesar de não ter realizado a prova da manhã, João retornou ao local durante a tarde para fazer outra avaliação prevista no processo seletivo.
Segundo Alana, dessa vez o estudante conseguiu entrar e concluir o exame.
Durante a prova, porém, uma pessoa teria se aproximado e perguntado seu nome completo e número de inscrição. Segundo a mãe, João não soube identificar quem era o responsável pela abordagem.
A experiência da tarde também ganhou importância para o estudante porque ele pretende realizar o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem) e considera o exame uma possibilidade de ingresso em uma universidade federal.
A família agora busca esclarecimentos sobre o que aconteceu durante a prova da manhã e sobre quais alternativas poderiam ter sido adotadas diante da condição apresentada pelo estudante.
O que é uma bomba de insulina?
A bomba de insulina é uma tecnologia utilizada para administrar insulina de forma contínua. Os sistemas de infusão podem fornecer a quantidade basal do hormônio ao longo do dia e também permitir a administração de doses adicionais, conforme a programação do tratamento.
Na Diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes 2026, os sistemas de infusão contínua de insulina são descritos como dispositivos médicos utilizados principalmente no tratamento do diabetes tipo 1. Alguns sistemas podem ser integrados a sensores de monitorização contínua da glicose e a tecnologias que automatizam parte da administração de insulina.
O dispositivo permanece conectado ao corpo por meio de um conjunto de infusão, dependendo do modelo utilizado. Por isso, a bomba pode acompanhar a pessoa em diferentes situações do cotidiano, inclusive em ambientes como escolas, universidades, concursos e vestibulares.
No caso de João, a família afirma que justamente por se tratar de um equipamento ligado ao tratamento tentou comunicar previamente a condição à organização do vestibular.
O que diz o edital do vestibular
O edital do Vestibular UFG 2026 estabelece que candidatos que necessitem de condições especiais devem fazer a solicitação durante o período de inscrição, preencher o requerimento e apresentar a documentação médica correspondente. Entre as possibilidades previstas estão sala individual ou com número reduzido de candidatos, além de outros recursos definidos de acordo com a necessidade apresentada.
O documento também determina que solicitações envolvendo recursos tecnológicos podem receber atendimento alternativo, desde que consideradas as condições de viabilidade e razoabilidade.
De acordo com o edital, a solicitação de condições especiais passa por análise prévia. O resultado dos pedidos é disponibilizado conforme o cronograma do processo seletivo.
A família afirma que tentou fazer essa comunicação ainda durante a inscrição, mas encontrou dificuldades para anexar o laudo médico no sistema. Posteriormente, segundo Alana, o problema também foi informado por e-mail ao Instituto Verbena.
Instituto Verbena foi procurado
O Instituto Verbena, responsável pela execução do processo seletivo junto à UFG, foi procurado pelo Um Diabético para esclarecer o caso.
A reportagem questionou a organização sobre a tentativa da família de informar o uso da bomba durante a inscrição, o problema relatado para anexar o laudo, a comunicação feita antes da prova e os motivos pelos quais não foi autorizada uma alternativa para que João realizasse o exame.
Até a publicação desta reportagem, o Instituto Verbena não havia respondido aos questionamentos. Caso a organização se manifeste, o conteúdo poderá ser atualizado.
Para João, o episódio também revela uma falta de informação
Além da prova que não conseguiu realizar pela manhã, João afirma que a experiência mostrou a necessidade de ampliar o conhecimento sobre as tecnologias utilizadas no tratamento do diabetes.
Ele conta que precisou explicar aos responsáveis pelo local o que era a bomba, como ela funcionava e por que permanecia conectada ao seu corpo.
“Eu queria que as pessoas soubessem ou estudassem mais sobre o diabetes, principalmente sobre os aparelhos que estão cada vez mais aumentando no Brasil”, afirma.
Dispositivos como bombas de insulina e sensores de glicose fazem parte da rotina de pessoas com diabetes e podem acompanhar seus usuários em diferentes situações do cotidiano.
No caso de João, a família agora aguarda esclarecimentos sobre o episódio, principalmente sobre a comunicação feita antes da prova e sobre quais procedimentos poderiam ter sido adotados para que ele realizasse o exame da manhã utilizando o dispositivo que faz parte de seu tratamento.
