A hipoglicemia continua sendo um dos principais desafios para quem convive com diabetes. Além dos riscos imediatos à saúde, episódios de glicose baixa podem interferir na rotina, aumentar o medo do tratamento e dificultar o controle da doença.
Durante o Congresso da Associação Americana de Diabetes (ADA 2026), os endocrinologistas Levimar Rocha Araújo, ex-presidente da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), e Fernando Valente, integrante do Comitê de Diretrizes da SBD, comentaram os principais pontos apresentados em um simpósio dedicado à prevenção da hipoglicemia.
Segundo os especialistas, as seis apresentações reforçaram que prevenir a hipoglicemia depende de uma combinação de fatores que vai muito além da escolha da medicação.
Hipoglicemia ainda preocupa médicos, pacientes e familiares
De acordo com Levimar Rocha Araújo, a hipoglicemia continua sendo uma das maiores preocupações no tratamento do diabetes.
O especialista destacou que médicos, pacientes e familiares convivem com o receio dos episódios de glicose baixa. Nesse contexto, o simpósio apresentou diferentes situações que podem aumentar o risco de hipoglicemia e estratégias para reduzir esse problema.
Além disso, os debates abordaram tanto pessoas com diabetes tipo 1 quanto pessoas com diabetes tipo 2.
Sulfonilureias seguem associadas a maior risco de hipoglicemia
Entre os temas discutidos, uma das apresentações analisou o impacto de diferentes medicamentos no risco de hipoglicemia em pessoas com diabetes tipo 2.
Segundo Levimar, os dados mostraram que as sulfonilureias continuam entre as medicações mais associadas à ocorrência de episódios de glicose baixa.
Enquanto isso, os especialistas reforçaram que o acompanhamento individualizado continua sendo importante para identificar fatores de risco e ajustar o tratamento quando necessário.
Insegurança alimentar pode aumentar o risco de glicose baixa
Outro ponto que chamou a atenção dos especialistas foi a relação entre insegurança alimentar e hipoglicemia.
Durante uma das apresentações, pesquisadores avaliaram uma pergunta simples: nos últimos 12 meses, a pessoa precisou reduzir a quantidade de comida ou deixar de fazer refeições por falta de dinheiro?
Segundo os dados apresentados, quem respondeu positivamente teve o dobro de chance de apresentar hipoglicemia quando utilizava sulfonilureias.
Para Fernando Valente, essa informação mostra a importância de investigar aspectos da rotina que nem sempre fazem parte das consultas.
Nesse contexto, compreender se o paciente enfrenta dificuldades para manter uma alimentação regular pode ajudar na prevenção de episódios de glicose baixa.
Direção veicular entrou em debate durante o simpósio
O simpósio também apresentou uma comparação entre motoristas com diabetes dos Estados Unidos e do Reino Unido.
Os dados mostraram que muitos participantes adotavam poucos cuidados relacionados ao risco de hipoglicemia durante a condução de veículos.
Segundo Fernando Valente, apenas um terço das pessoas carregava o glicosímetro consigo o tempo todo. Além disso, a frequência de monitorização da glicose durante o dia também foi considerada baixa.
Outro dado chamou atenção. Apenas cerca de 50% dos participantes mantinham no carro uma fonte de carboidrato de ação rápida para uso em caso de hipoglicemia.
Os especialistas destacaram que esses resultados levantam questionamentos sobre a realidade de motoristas profissionais e de aplicativos, embora não tenham sido apresentados dados específicos do Brasil.
Regra britânica prevê espera após episódio de hipoglicemia
Uma das apresentações discutiu as regras adotadas no Reino Unido para pessoas com diabetes que dirigem.
Segundo Levimar Rocha Araújo, quando ocorre uma hipoglicemia, o motorista precisa corrigir a glicose, aguardar que ela alcance 90 mg/dL e permanecer em observação por 45 minutos antes de voltar a dirigir.
No entanto, relatos apresentados durante o simpósio mostraram que algumas pessoas, quando estavam em hipoglicemia, tentavam chegar mais rapidamente ao destino em vez de interromper a condução.
Para os especialistas, esse comportamento demonstra a complexidade envolvida no reconhecimento e no manejo da glicose baixa.
Bombas de insulina mostraram redução de hipoglicemias
As tecnologias em diabetes também fizeram parte das discussões.
Os especialistas citaram um estudo apresentado pela pesquisadora Bianca Bilal, que avaliou pessoas utilizando sistemas de bomba de insulina com looping fechado.
Segundo os resultados comentados durante o simpósio, a tecnologia contribuiu para reduzir episódios de hipoglicemia sem sintomas.
Além disso, os participantes apresentaram melhora no Time in Range, indicador que mede o tempo em que a glicose permanece dentro da faixa recomendada.
Apoio de pessoas próximas pode influenciar nos desfechos
Outro trabalho apresentado analisou um fator pouco discutido na prevenção da hipoglicemia grave.
Segundo os especialistas, pessoas que moravam próximas de profissionais da área da saúde ou tinham vizinhos com conhecimento médico apresentavam menor risco de desenvolver hipoglicemia grave, classificada como grau 3.
Nesses casos, a presença de alguém capaz de reconhecer sinais de emergência e prestar auxílio pode fazer diferença no atendimento rápido e na busca por ajuda.
Educação em diabetes segue como ferramenta central
Ao comentar os principais aprendizados do simpósio, Levimar Rocha Araújo e Fernando Valente destacaram que a prevenção da hipoglicemia depende de diferentes estratégias.
Além da escolha adequada da medicação, os especialistas reforçaram a importância da educação em diabetes, da monitorização frequente da glicose e da identificação dos fatores de risco presentes na rotina de cada pessoa.
Eles também lembraram que a hipoglicemia não acontece apenas no diabetes tipo 1.
Segundo Fernando Valente, pessoas com diabetes tipo 2 também podem apresentar episódios de glicose baixa, embora muitos casos não sejam diagnosticados.
