A lipohipertrofia, também chamada de lipodistrofia insulínica, é uma condição que pode surgir em pessoas que usam insulina por longos períodos sem seguir algumas práticas recomendadas de aplicação. O problema costuma aparecer como um caroço ou endurecimento sob a pele e pode comprometer a absorção da insulina, dificultando o controle da glicose.
As orientações foram apresentadas pela enfermeira e educadora em diabetes Gisele Filgueiras, que também convive com diabetes tipo 1, durante participação no DiabetesCast. Segundo ela, a condição não surge da noite para o dia. No entanto, hábitos repetidos ao longo do tempo podem favorecer seu desenvolvimento.
O que é a lipohipertrofia?
A lipohipertrofia é considerada um efeito associado ao uso contínuo de insulina no mesmo local. Ela provoca um acúmulo de gordura e deixa a região endurecida, formando um nódulo perceptível ao toque.
Segundo Gisele Filgueiras, o principal problema não é apenas o aspecto da pele. A alteração pode prejudicar a ação da insulina e provocar oscilações importantes na glicemia.
Ela explica que muitas pessoas continuam aplicando insulina nesses locais porque sentem menos dor. No entanto, essa prática pode dificultar ainda mais o controle glicêmico.
Estudo mostrou impacto na glicemia
Durante o DiabetesCast, Gisele citou um estudo publicado na revista científica Diabetes Care que avaliou pessoas com diabetes tipo 1 que aplicavam insulina em áreas com lipohipertrofia.
Os pesquisadores observaram aumento médio de cerca de 26% na glicemia, especialmente após as refeições. Em alguns casos, os níveis ultrapassavam 300 mg/dL. Segundo a educadora, o estudo concluiu que trocar para insulinas mais modernas não resolve o problema quando as técnicas de aplicação continuam inadequadas.
5 dicas para evitar caroços após aplicações de insulina
1. Faça o rodízio correto dos locais de aplicação
Segundo Gisele, aplicar repetidamente na mesma região aumenta o risco de desenvolver lipohipertrofia. Embora seja comum ter um local preferido, é importante variar os pontos de aplicação.
Ela recomenda utilizar a chamada regra do “M” ou do “W”, alternando os pontos dentro da mesma área e respeitando o espaçamento entre as aplicações.
Além disso, o tamanho da mão da própria pessoa deve ser usado como referência para definir as áreas de aplicação.
2. Não reutilize agulhas
A reutilização das agulhas aumenta o risco de lesões na pele e favorece o aparecimento da lipohipertrofia.
De acordo com Gisele, após a primeira aplicação a agulha perde o lubrificante que facilita sua entrada na pele. Com o uso repetido, a ponta sofre desgaste, aumenta o desconforto e pode comprometer a administração adequada da insulina.
A educadora destacou ainda que muitas pessoas reutilizam agulhas por comodidade e não necessariamente por questões financeiras.
3. Inspecione a pele regularmente
Observar o local das aplicações deve fazer parte da rotina. Se a pessoa notar caroços, endurecimento, dor, calor local ou alterações na pele, a orientação é interromper temporariamente as aplicações naquela região e buscar outros locais adequados.
Segundo Gisele, alguns nódulos podem levar meses ou até anos para regredir. Em alguns casos, as alterações permanecem mesmo após a interrupção das aplicações naquele ponto.
4. Troque cânulas e dispositivos dentro do prazo recomendado
A recomendação também vale para quem utiliza bomba de insulina. Gisele explica que manter a mesma cânula por mais tempo do que o indicado pode aumentar o processo inflamatório local. Além disso, pode ocorrer vermelhidão, dor, formação de caroços e até infecção.
Por esse motivo, a troca deve seguir os intervalos recomendados para cada dispositivo.
5. Massageie áreas que apresentam endurecimento
Quando a pessoa percebe o início de um acúmulo de tecido endurecido, massagens suaves podem ajudar. Segundo a educadora, a medida pode contribuir para reduzir a fibrose local e favorecer a recuperação da região. Ela afirma que isso pode ser feito pela própria pessoa durante os cuidados diários, sem necessidade obrigatória de acompanhamento estético.
Outros cuidados que ajudam na aplicação da insulina
Além do rodízio e da troca das agulhas, Gisele destacou outras práticas importantes:
- Higienizar a pele com álcool 70% antes da aplicação;
- Na ausência de álcool, utilizar água e sabão;
- Evitar álcool em gel no local da aplicação;
- Fazer o teste da gota nas canetas de insulina;
- Aguardar cerca de 10 segundos antes de retirar a agulha após a aplicação;
- Utilizar, sempre que possível, agulhas de 4 mm, consideradas mais seguras para crianças e adultos.
Quando procurar orientação
Quem percebe caroços, endurecimento, dor persistente ou dificuldade para controlar a glicemia deve conversar com a equipe de saúde responsável pelo tratamento.
Segundo Gisele Filgueiras, muitas vezes o problema não está na dose da insulina, mas na forma como ela está sendo aplicada. Por isso, revisar a técnica de aplicação pode ser tão importante quanto ajustar o tratamento.
