Começar a usar insulina não significa, obrigatoriamente, que uma pessoa com diabetes tipo 2 precisará manter as aplicações pelo resto da vida. Em determinadas situações, o medicamento é necessário para tratar um período de glicose muito elevada e pode ser substituído depois. Essa possibilidade depende da resposta ao tratamento e de avaliação médica.
A orientação está na diretriz da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), que prevê a revisão do uso de insulina após o tratamento agudo inicial. A dúvida também foi discutida pela endocrinologista e pesquisadora Denise Franco, colunista e consultora médica do Portal Um Diabético, em entrevista ao DiabetesCast.
“Isso não quer dizer que, principalmente o paciente com diabetes tipo 2, ele vai precisar sempre de insulina”, afirmou a médica ao explicar a indicação para pessoas que chegam ao diagnóstico com glicose elevada e sintomas.
A possibilidade de retirar o medicamento, porém, não é uma promessa feita no início do tratamento. Há pessoas que precisam de insulina de forma contínua. Entender essa diferença ajuda a esclarecer uma dúvida comum: começar as aplicações determina, por si só, como será o cuidado nos próximos anos?
Quando a insulina pode ser necessária logo no diagnóstico
Na entrevista, Denise descreve pessoas que recebem o diagnóstico já com sintomas, emagrecimento e hemoglobina glicada elevada. Nesse contexto, a insulina pode ser indicada para reduzir a glicose e tratar a descompensação.
“Então, neste momento que a gente chama de toxicidade, glicotoxicidade, eu posso precisar de insulina nesse primeiro momento”, explicou.
A SBD recomenda terapia à base de insulina para adultos com diabetes tipo 2 de início recente, hemoglobina glicada acima de 9% e sinais e sintomas de hiperglicemia, como urinar muito, sede excessiva e perda de peso. O documento também destaca seu uso em situações clínicas agudas e durante internações.
Nos Standards of Care de 2026, a Associação Americana de Diabetes (ADA) orienta considerar quando há sintomas de hiperglicemia ou valores muito elevados, como hemoglobina glicada acima de 10% ou glicose a partir de 300 mg/dL.
Esses critérios orientam a decisão clínica. A indicação não depende apenas de um número isolado nem deve ser interpretada como uma punição para quem vive com diabetes.
O que é glicotoxicidade e por que ela importa?
A glicotoxicidade é um dos pontos centrais para entender por que o uso de insulina pode ser temporário. A glicose persistentemente elevada pode prejudicar o funcionamento das células que produzem ela.
Ao reduzir essa elevação, o tratamento permite reavaliar quais medicamentos serão necessários para manter a glicemia dentro das metas definidas para cada pessoa.
A ADA afirma que, com a resolução da toxicidade da glicose, pode ser possível simplificar o esquema de tratamento ou passar para medicamentos que não sejam insulina. Isso explica por que uma prescrição feita em um momento de descompensação não determina necessariamente o tratamento definitivo.
Denise resume essa possibilidade no DiabetesCast:
“Pode ser que a gente não precise mais se a gente sair daquela situação, mas insulina é uma das formas de tratar o diabetes tipo 2.”
Por que algumas pessoas continuam precisando?
O diabetes tipo 2 também pode evoluir com redução da capacidade do pâncreas de produzir insulina. Nesse cenário, mesmo depois de resolvido um episódio de glicose elevada, o organismo pode continuar precisando da reposição.
“Com o passar do tempo, eu posso ter uma perda de função da minha célula que produz insulina e eu posso vir a precisar usar insulina como uma terapia para o resto da vida”, explicou Denise.
Na avaliação da médica, começar a usar o hormônio não significa necessariamente que houve um agravamento naquele momento. A indicação precisa ser compreendida dentro da situação clínica de cada paciente.
Por isso, a pergunta sobre parar as aplicações deve ser acompanhada de outra: qual tratamento permite manter a glicose nas metas com segurança? Para algumas pessoas, a resposta continuará incluindo insulina.
A retirada precisa ser planejada com a equipe de saúde
A diretriz da SBD registra que a insulina pode ser substituída por uma combinação de outros medicamentos após o tratamento agudo inicial. Isso exige reavaliação clínica, acompanhamento da glicose e definição de um novo esquema.
Um resultado melhor enquanto a pessoa usa insulina pode indicar que o tratamento está funcionando. Não é, sozinho, uma autorização para interromper as aplicações.
Denise também destaca que iniciar a terapia exige aprendizado. Na entrevista, ela menciona orientações sobre dose, técnica de aplicação, conservação e como agir diante de glicose baixa ou alta.
“Primeiro, ele precisa ser orientado”, afirmou.
Esse acompanhamento permite que as mudanças sejam feitas com segurança, tanto para começar quanto para reduzir ou substituir o tratamento. A decisão sobre suspender a insulina precisa fazer parte desse cuidado.
No diabetes tipo 1, a situação é diferente
A possibilidade de suspensão discutida na entrevista se refere ao diabetes tipo 2 e não deve ser transferida para o diabetes tipo 1, em que a reposição de insulina é essencial. As recomendações da ADA tratam essa reposição como parte central do tratamento.
“A gente costuma dizer que insulina é vida para quem depende dela”, ressaltou Denise.
Para quem tem diabetes tipo 2, o uso pode ser temporário ou contínuo. O caminho depende da necessidade do organismo, da evolução da glicemia e da avaliação da equipe de saúde, sem um prazo único para deixar as aplicações.
