O diabetes faz parte da rotina de quem recebe o diagnóstico, mas também alcança as pessoas que compartilham a vida com ele. Parceiros, familiares e amigos acabam aprendendo novos termos, entendendo situações de emergência e incorporando cuidados que antes pareciam distantes da própria realidade.

No Dia dos Namorados, a história de Victor Franco e Tom Bueno mostra como o diabetes tipo 1 pode estar presente na vida de quem não tem a condição, mas escolhe caminhar ao lado de alguém que convive com ela todos os dias.
Victor é namorado de Tom Bueno, jornalista com diabetes tipo 1, CEO da TB Content e criador do Portal Um Diabético. Embora não tenha diabetes, ele afirma que a condição passou a fazer parte da rotina do casal de forma espontânea.
O diabetes não foi assunto no primeiro encontro
Victor conta que o assunto diabetes não surgiu logo no início da relação. Segundo ele, a descoberta aconteceu algum tempo depois, quando passou a acompanhar o trabalho de Tom nas redes sociais.
“Para mim, não foi uma grande questão. No dia em que nos conhecemos, isso não foi um tópico abordado e, posteriormente, acabei descobrindo pelo Instagram, já que ele trabalha diretamente com o tema.”

Naquele momento, Victor percebeu que sabia pouco sobre a condição. Por isso, começou a buscar informações para entender melhor como funcionava a rotina de uma pessoa com diabetes tipo 1.
“Eu tinha um conhecimento bem vago sobre o tema, mas, depois do relacionamento, comecei a me informar e aprender sobre os diversos pontos que passaram a fazer parte do nosso dia a dia: controle glicêmico, alimentação, insulina e os impactos e ajustes que, às vezes, precisam ser feitos ao longo do dia.”
Aprender sobre diabetes também significa lidar com imprevistos
Uma das principais descobertas para Victor foi entender que o diabetes não segue uma fórmula exata.
Muitas pessoas acreditam que basta repetir os mesmos hábitos diariamente para manter a glicose sempre dentro da faixa desejada. No entanto, a experiência ao lado de Tom mostrou uma realidade diferente.
“A maior dificuldade foi entender que não existe um controle perfeito. Cada dia pode ser diferente, mesmo com todos os cuidados.”
Segundo ele, diversos fatores podem interferir nos resultados da glicose.
“Muitas coisas afetam o controle glicêmico, como alimentação, estresse, atividade física e até o estado de saúde. Uma simples gripe pode interferir significativamente.”
Além disso, Victor aprendeu que nem sempre o organismo responde da forma esperada.
“É possível entender como o corpo responde a esses estímulos e tentar corrigir, mas haverá dias em que o corpo simplesmente não vai responder como esperado.”
Quando as jujubas passaram a fazer parte da rotina
Antes mesmo de vivenciar situações de hipoglicemia, Victor tomou uma atitude que demonstra como o aprendizado foi acontecendo aos poucos.
Na primeira vez em que Tom viajou para Salvador e ficou hospedado em sua casa, ele decidiu comprar jujubas e deixá-las ao lado da cama.
Victor sabia que Tom utilizava o alimento para corrigir episódios de hipoglicemia. Por isso, deixou as jujubas no criado-mudo para que estivessem ao alcance durante a madrugada, caso fosse necessário.
O gesto simples nasceu da preocupação de facilitar o acesso a uma fonte rápida de açúcar em uma eventual queda da glicose durante a noite.

Reconhecer uma hipoglicemia faz diferença
Com o passar do tempo, Victor também precisou aprender a identificar situações que exigem atenção.
Ele conta que já acompanhou episódios de hipoglicemia e hiperglicemia e que, no início, sentia insegurança por não saber exatamente como agir.
“Sim, já passei por ambas as situações. No começo, eu ficava mais apreensivo, porque ainda não sabia exatamente como agir, mas, com o tempo, fui aprendendo a reconhecer os sinais, tanto de piora quanto de melhora da situação.”
Segundo ele, a hipoglicemia costuma exigir uma resposta mais rápida.
“A hipoglicemia precisa de ações imediatas por envolver muitas vezes o estado de consciência, mas a hiperglicemia também acaba afetando bastante quando ocorre de forma prolongada.”
Apoio sem cobrança
Com a popularização dos sensores de glicose e dos aplicativos de compartilhamento de dados, muitos familiares e parceiros passaram a acompanhar os níveis glicêmicos em tempo real.
Na rotina do casal, essa tecnologia também faz parte do dia a dia.
Victor acompanha os níveis de glicose de Tom pelo celular e utiliza essas informações como uma forma de apoio. “Eu procuro apoiar mais com presença.”
Segundo ele, a intenção não é fiscalizar, mas ajudar quando necessário.
“Acompanho os níveis de glicose dele pelo aplicativo e, quando sei que ele pode estar com a atenção voltada para outras demandas, tento avisar.”

Além disso, ele costuma alertar quando percebe mudanças mais rápidas na glicose.
“Às vezes pergunto se ele já corrigiu uma hipo ou hiperglicemia e aviso quando percebo mudanças mais rápidas nos níveis para agir de forma preventiva.”
O diabetes exige atenção mesmo nos dias tranquilos
Ao longo do relacionamento, Victor também passou a compreender uma característica frequentemente relatada por pessoas que vivem com diabetes: a necessidade de atenção contínua.
Para ele, esse foi o momento em que percebeu o impacto real da condição.
“Acho que foi quando percebi que o diabetes exige atenção o tempo todo, mesmo quando tudo parece estar bem e dentro dos limites.”
Segundo Victor, entender essa realidade mudou sua percepção sobre a doença.
“Não é algo que permite simplesmente se desligar, e isso me fez entender a dimensão real da condição.”
Além disso, existe a preocupação com os efeitos do diabetes ao longo dos anos.
“Sim, existe uma preocupação, acredito que seja natural, principalmente em relação aos impactos a longo prazo.”
Ao mesmo tempo, ele afirma que o comprometimento de Tom com o próprio tratamento traz tranquilidade.
“Vejo o quanto ele é responsável com o próprio cuidado, e isso me traz segurança.”
O que o diabetes ensinou sobre amor e parceria
Para Victor, a convivência com o diabetes trouxe aprendizados que vão além da saúde. Entre eles está a diferença entre apoiar e assumir o controle da condição. “Me ensinou muito sobre empatia e parceria.”
Segundo ele, o cuidado aparece em atitudes cotidianas. “Que cuidar não é controlar, e sim estar presente.”
Além disso, ele acredita que o amor se manifesta em pequenos gestos.
“O amor também está nos detalhes: na atenção, na paciência, no respeito aos limites e no apoio constante. Às vezes pode ser um simples doce na cabeceira da cama.”
Uma relação como qualquer outra
Ao falar sobre sua experiência, Victor faz questão de destacar que o diabetes não define o relacionamento.
Para ele, a condição representa apenas uma das características presentes na vida do casal.
“Gostaria que soubessem que é uma relação como qualquer outra. Todos nós temos nossas particularidades.”
Segundo Victor, toda relação exige adaptações e construção conjunta.
“Sempre será necessário fazer ajustes quando se quer viver uma relação a dois, independentemente de haver uma condição de saúde envolvida ou não.”