Mais uma vez, a Comissão Nacional de Incorporação de Tecnologias no Sistema Único de Saúde (Conitec) emitiu um parecer inicial desfavorável ao sensor de glicose para pessoas com diabetes tipo 1. Pela segunda vez, o órgão se manifestou contra a incorporação dos sistemas de monitoramento contínuo da glicose ao Sistema Público de Saúdo (SUS), decisão que deve gerar frustração entre os pacientes.

A recomendação foi apresentada durante a 153ª Reunião Ordinária da Conitec, realizada em 3 de julho de 2026. Na pauta do Comitê de Produtos e Procedimentos, o item que avaliava a incorporação do monitoramento contínuo da glicose em tempo real recebeu a seguinte deliberação:
“Recomendado o encaminhamento à consulta pública com parecer desfavorável.”
Isso significa que, neste momento, a comissão entende que a tecnologia não deve ser incorporada ao SUS. No entanto, a decisão ainda não é definitiva.
O que significa esse parecer?
É importante destacar que esse é um parecer preliminar. O processo da Conitec prevê que, após essa recomendação inicial, seja aberta uma consulta pública para que profissionais de saúde, pesquisadores, entidades médicas, associações de pacientes e a população possam enviar contribuições técnicas e relatos de experiência.
Somente após analisar essas manifestações a comissão poderá manter ou alterar sua recomendação antes da decisão final do Ministério da Saúde.
Histórico: tecnologia já foi rejeitada pela Conitec em 2024
O novo parecer desfavorável ocorre cerca de um ano e meio após a última decisão definitiva da Conitec sobre sensores de glicose.
Em 6 de dezembro de 2024, durante a 136ª Reunião Ordinária, a comissão concluiu o processo de avaliação do sistema flash de monitoramento de glicose para pessoas com diabetes tipo 1 e tipo 2 e decidiu não recomendar a incorporação da tecnologia ao Sistema Único de Saúde (SUS).
Na ocasião, a decisão foi tomada após uma consulta pública que reuniu manifestações de pacientes, familiares, profissionais de saúde, sociedades médicas e entidades representativas. Apesar da ampla mobilização, a recomendação final foi pela não incorporação.
Após a reunião, as endocrinologistas Karla Melo e Luciana Bahia, representantes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), lamentaram a decisão em entrevista ao portal Um Diabético.
Para Karla Melo, a expectativa era de que a tecnologia fosse incorporada pelos benefícios clínicos e sociais já demonstrados em diversos estudos.
“Após tanto trabalho para a construção do dossiê, discussões, enfim, desanima. As nossas intenções em relação à nossa saúde pública e principalmente para a incorporação de tecnologias disruptivas que podem de fato mudar o controle, a qualidade de vida, a vida como um todo de uma pessoa. Especificamente nesse caso agora, com diabetes tipo 1, que tem tantas decisões a serem tomadas no dia a dia e que essas tecnologias novas ajudam no enfrentamento das barreiras que nós enfrentamos.”
Agora, em 2026, a Conitec volta a discutir o acesso aos sensores de glicose por meio de um novo processo de avaliação, desta vez envolvendo o sistema de monitoramento contínuo da glicose em tempo real (rt-CGM). No entanto, mais uma vez, a análise começa com um parecer preliminar desfavorável.
Tecnologia já faz parte da rotina de milhões de pessoas
Os sistemas de monitoramento contínuo da glicose permitem acompanhar os níveis de glicose durante todo o dia e a noite, reduzindo ou até eliminando a necessidade de múltiplas picadas no dedo para o monitoramento da glicemia.
Além da praticidade, estudos científicos demonstram benefícios importantes para pessoas com diabetes tipo 1, entre eles:
- redução dos episódios de hipoglicemia;
- aumento do Tempo na Faixa Alvo (Time in Range);
- melhora da hemoglobina glicada (HbA1c);
- maior segurança, especialmente durante o sono;
- mais qualidade de vida para pacientes e familiares.
Por esse motivo, sociedades científicas brasileiras e internacionais recomendam o uso do monitoramento contínuo da glicose para pessoas com diabetes tipo 1.
Acesso ainda é desigual no Brasil
Embora o monitoramento contínuo da glicose ainda não tenha sido incorporado nacionalmente ao SUS, a tecnologia já faz parte da rotina de pacientes atendidos por programas públicos em diferentes regiões do país.
Atualmente, mais de 50 municípios brasileiros, além de alguns estados, criaram protocolos próprios para oferecer sensores de glicose a pessoas com diabetes. No entanto, não existe um modelo único de acesso.
Cada programa estabelece critérios específicos para definir quem tem direito ao dispositivo. Em alguns locais, o benefício é destinado a crianças e adolescentes; em outros, contempla gestantes, pessoas com histórico de hipoglicemias graves ou pacientes com maior dificuldade no controle glicêmico. As fontes de financiamento também variam, utilizando recursos municipais, estaduais, emendas parlamentares e outras formas de custeio.
Na prática, isso faz com que o acesso dependa do município ou do estado onde o paciente vive, criando uma realidade desigual em todo o país.
O que mudaria com um parecer favorável?
A recomendação da Conitec não determina automaticamente que uma tecnologia passe a ser oferecida pelo SUS, mas representa uma das etapas mais importantes do processo de incorporação.
Se, ao final da avaliação, a comissão emitisse um parecer favorável, o Ministério da Saúde poderia avançar para a incorporação do monitoramento contínuo da glicose ao SUS, estabelecendo uma política nacional para a tecnologia.
Isso permitiria a elaboração de um protocolo clínico com critérios únicos de indicação, definição do público elegível, modelo de financiamento e organização da distribuição em todo o território nacional. Na prática, reduziria as diferenças existentes entre estados e municípios e ampliaria a possibilidade de acesso para pessoas que hoje dependem exclusivamente de programas locais ou de decisões judiciais.
Como o parecer preliminar foi desfavorável, o próximo passo será a abertura da consulta pública. Nessa fase, sociedades médicas, pesquisadores, profissionais de saúde, entidades de pacientes e cidadãos poderão enviar contribuições técnicas, estudos científicos e relatos de experiência.
Após analisar esse material, a Conitec decidirá se mantém ou altera sua recomendação antes da decisão final do Ministério da Saúde.
Um debate que continua
A nova recomendação preliminar mostra que o debate sobre a incorporação dos sensores de glicose ao SUS permanece aberto.
Depois da decisão definitiva de não incorporar o sistema flash em 2024, a Conitec volta a analisar outra tecnologia de monitoramento contínuo, mas novamente inicia o processo com parecer desfavorável.
Para milhares de brasileiros que convivem com o diabetes tipo 1, a expectativa agora se concentra na consulta pública, considerada uma etapa decisiva para que pacientes, profissionais de saúde, pesquisadores e entidades científicas apresentem novas evidências sobre os benefícios clínicos, econômicos e sociais da tecnologia.
A decisão final caberá ao Ministério da Saúde após a conclusão de todas as etapas previstas no processo de incorporação.
O que diz o documento da Conitec
Na pauta da 153ª Reunião Ordinária, realizada em 3 de julho de 2026, o item referente ao monitoramento contínuo da glicose registra:
“Apreciação inicial do sistema de monitoramento contínuo da glicose em tempo real (rt-CGM) para o monitoramento de glicose em pessoas com diabetes mellitus tipo 1.”
A deliberação foi:
“Recomendado o encaminhamento à consulta pública com parecer desfavorável.”
Isso significa que a tecnologia seguirá para consulta pública antes da recomendação final da comissão.
