O horário em que uma pessoa faz as refeições pode interferir no controle da glicemia, principalmente quando a alimentação acontece mais tarde e se aproxima do período de sono. A relação envolve o funcionamento do organismo, a digestão e a resistência à insulina, segundo a nutricionista Martha Amodio.
Durante participação no DiabetesCast, a profissional explicou que o corpo humano funciona de acordo com ciclos de claro e escuro. Para ela, a rotina alimentar atual pode alterar esse funcionamento ao concentrar refeições, telas e atividades no período noturno.
Amodio também relacionou o horário da alimentação à experiência da filha, que tem diabetes tipo 1. Durante a adolescência, ela passou a dormir mais tarde e percebeu aumento da glicemia mesmo sem consumir alimentos durante a madrugada.
Segundo a nutricionista, a situação estava relacionada à piora da resistência à insulina durante períodos de sono inadequado. A experiência fez com que a família observasse a relação entre a rotina de sono e as necessidades de insulina.

O que acontece quando a alimentação é muito tarde
A alimentação noturna pode exigir mais do organismo justamente em um período em que ele deveria estar se preparando para o descanso. A digestão também demanda energia e pode interferir na qualidade do sono.
Martha Amodio explicou que refeições com grandes quantidades de gordura, carboidratos e proteínas podem aumentar esse trabalho digestivo. Por isso, a composição e o horário do jantar podem influenciar a forma como a pessoa passa a noite.
A nutricionista citou a pizza como exemplo. Segundo ela, a combinação de carboidratos e gordura pode dificultar o gerenciamento da glicemia quando consumida à noite.
A questão não envolve apenas o alimento escolhido. O horário em que ele é consumido também pode modificar a resposta do organismo, já que a resistência à insulina pode variar ao longo do dia.
Sono ruim também interfere na glicemia
A relação entre alimentação e glicemia não termina no momento da refeição. Para Amodio, a qualidade e a quantidade do sono também fazem parte da rotina que influencia o controle do diabetes.
Quando uma pessoa dorme mal, a fome pode aumentar no dia seguinte. A nutricionista explicou que o cansaço pode levar à busca por alimentos que forneçam energia rapidamente, alterando as escolhas alimentares.
Esse processo pode formar um ciclo. A pessoa dorme mal, sente mais fome, procura alimentos mais palatáveis e pode fazer refeições mais pesadas, principalmente no período noturno.
No DiabetesCast, Amodio também relatou que cerca de 70% dos brasileiros não dormiam bem, considerando problemas relacionados à quantidade ou à qualidade do sono, segundo um estudo brasileiro citado por ela.
Jantar mais leve pode facilitar o descanso
Para a nutricionista, a alimentação no período noturno não precisa ser restritiva. O jantar pode incluir alimentos presentes na rotina, mas o modo de preparo e a quantidade podem facilitar a digestão.
Entre as opções citadas por Amodio estão arroz, feijão, carnes com menor quantidade de gordura, fibras, legumes e verduras. Ela também explicou que alimentos cozidos, refogados, assados e ensopados podem exigir menos trabalho digestivo do que preparações mais pesadas.
A recomendação apresentada pela nutricionista não significa retirar alimentos crus da alimentação. A questão é considerar que o modo de preparo pode modificar a facilidade de digestão, especialmente próximo ao horário de dormir.
Café, álcool e outros fatores
A alimentação noturna também pode envolver bebidas que interferem no sono. Amodio citou o álcool e a cafeína entre os fatores que podem prejudicar o descanso.
Segundo a nutricionista, o álcool pode inicialmente produzir uma sensação de relaxamento, mas depois interferir na qualidade do sono. O efeito pode ser relevante para pessoas que já apresentam dificuldade para dormir.
A cafeína também merece atenção. Café, refrigerantes à base de cola e alguns chás contêm a substância, que pode ter efeito estimulante em pessoas que apresentam maior sensibilidade ou dificuldade para metabolizá-la.
E a ceia para quem tem diabetes?
A necessidade de fazer uma refeição antes de dormir não é igual para todas as pessoas. Amodio explicou que a quantidade de refeições deve considerar as necessidades individuais e a distribuição dos nutrientes ao longo do dia.
A ceia pode fazer parte da rotina de algumas pessoas, seja por fome, hábito ou necessidade relacionada ao controle da glicemia. Para a nutricionista, não existe uma regra única que determine que todas as pessoas devem ou não comer antes de dormir.
O mesmo vale para situações em que existe medo de uma hipoglicemia noturna. A profissional destacou que o tratamento pode ser ajustado pela equipe que acompanha a pessoa para evitar que comer seja uma obrigação constante.
Amodio relatou que, no início do diagnóstico da filha, uma das maiores dificuldades era lidar com a necessidade de comer para corrigir episódios de queda da glicemia. Para ela, ajustes no tratamento podem ajudar a reduzir situações em que a pessoa precisa se alimentar sem estar com fome.
O horário pode ser mais importante do que parece
A rotina alimentar precisa considerar não apenas o que está no prato, mas também quando a refeição acontece. Segundo Martha Amodio, uma pessoa pode observar diferenças na glicemia ao comparar um jantar feito mais cedo com outro realizado mais tarde.
A nutricionista também destacou que a resposta varia entre indivíduos. Um alimento que provoca determinada resposta em um horário pode ter efeito diferente em outro momento do dia, dependendo da resistência à insulina e de outras características individuais.
No caso de quem vive com diabetes, essas diferenças podem ser acompanhadas pela monitorização da glicose e discutidas com os profissionais responsáveis pelo tratamento.
Amodio também defendeu que a alimentação seja analisada junto com sono, atividade física e tratamento medicamentoso. Para ela, o acompanhamento conjunto entre profissionais pode ajudar a ajustar a rotina sem transformar a alimentação em uma obrigação permanente.