“A pergunta primeira é essa, o que eu vou comer a partir de agora?”. A fala do jornalista Tom Bueno no DiabetesCast resume a principal angústia de quem recebe o diagnóstico. A alimentação é, sem dúvida, o pilar mais cercado de culpa, medo e desinformação na jornada com o diabetes.
O episódio especial, que reuniu três gerações de pessoas com diabetes tipo 1 (Dona Carmen, Elo Malieri e Tom Bueno) e a endocrinologista Dra. Denise Franco, foi uma viagem no tempo pelos mitos sobre alimentação e diabetes.
A era da “polícia da comida”
Nos anos 80, quando Elo Malieri foi diagnosticada, o controle era sinônimo de restrição absoluta. “A gente que adaptava a alimentação, a dose da insulina”, lembrou ela. Elo contou que sua dieta matinal por anos foi “um quarto de pão de forma” e melão.
A Dra. Denise Franco validou essa memória com uma lembrança dos acampamentos para crianças com diabetes: “Eu lembro que as crianças ficavam na fila para pegar a comida e ficava a nutricionista no final da fila para ir tirando a comida. […] tirava mesmo, literalmente”.
Essa cultura do “não pode” gerava rebeldia. Elo confessou ter comido uma lata inteira de leite condensado após seu médico proibi-la. Tom Bueno teve uma experiência parecida: “Eu comi um bolo desse [diet] sozinho, eu tava com tanta vontade”, disse ele, lembrando que a glicose “bombou” depois, por não entender que “diet” não significa “à vontade”.
“Dieta macrobiótica” e estigmas
Os mitos sobre alimentação e diabetes também abrem espaço para promessas perigosas. Elo Malieri contou sobre uma dieta que prometia o impossível.
“Eu fui para um médico, um nutricionista, que dava uma dieta macrobiótica. Ele falou, ‘você vai comer, você vai iniciar essa dieta e você não vai mais precisar tomar insulina'”, recordou. O resultado? “É óbvio, porque eu não conseguia nem comer aquela gororoba”.
O estigma não vinha só da sociedade, mas de dentro da própria medicina. A Dra. Denise Franco contou que um professor a desencorajou a tratar pessoas com diabetes: “Tinha um professor meu que falou assim, ‘não escolhe diabetes. Porque o paciente vai te encher a noite inteira, a família é um terror'”.
Hoje, a educação em diabetes substitui a proibição pelo equilíbrio, provando que o caminho não é a restrição, mas a informação.
