Ameaça silenciosa: Glicose alta e o risco renal
A glicose constantemente elevada, um quadro comum em quem convive com o diabetes mal controlado, pode causar danos graves e, muitas vezes, silenciosos, ao longo do tempo. Assim, um dos órgãos mais afetados por essa condição é o rim, essencial para a sobrevivência humana.
Em uma live no canal Um Diabético, o jornalista Tom Bueno discutiu a importância dos cuidados renais com a participação de um time de especialistas: Dra. Bianca Bastos (nefrologista), Dr. Rodrigo Siqueira (endocrinologista), Dra. Denise Franco (endocrinologista) e Carol Netto (nutricionista e especialista em nefrologia). A nefrologista, Dra. Bianca Bastos, alerta: “Quando a gente não cuida do rim, o rim para de funcionar e a máquina para de ser limpa“.
Os rins funcionam como um filtro do corpo, limpando as impurezas e excretando-as pela urina. O endocrinologista Dr. Rodrigo Siqueira explica que a glicose alta crônica provoca lesão e inflamação nas estruturas renais. A nefrologista Dra. Bianca Bastos detalha que esse processo “vai machucando esse rim e aí a peneira vai se formando”. Com essa “peneira” danificada, moléculas grandes como a proteína, ou mais especificamente a albumina, começam a passar para a urina. A perda de proteína na urina é um marcador importante de que a lesão renal está instalada.
A importância de saber como proteger seus rins reside no fato de que o rim vai perdendo a função sem que a pessoa sinta dor ou apresente sintoma em geral. A falta de controle leva ao que se chamava antigamente de nefropatia diabética, hoje denominada doença do rim do diabetes. É um alerta sério: o diabetes, sozinho ou em conjunto com a hipertensão, está por trás de 60% dos novos casos de diálise no Brasil.
Exames essenciais e a importância do controle glicêmico
Prevenir é o melhor caminho quando se fala em doença renal. A Dra. Denise Franco reforça que o período de exposição à glicose alta e descontrolada é o que gera as complicações, e é algo que se constrói ao longo de anos. Ela destaca que o importante é buscar manter a glicemia o mais próxima possível da meta, frequentemente monitorando e corrigindo as elevações.
Assim, para quem convive com o diabetes, a prevenção de problemas renais passa por dois exames básicos, segundo a Dra. Bianca Bastos:
- Creatinina no sangue: O principal marcador de função renal.
- Exame de urina simples (ou a relação albumina/creatinina): Para detectar a presença de proteína/albumina na urina.
A perda de proteína (albuminúria) é o principal marcador da doença do rim do diabetes, embora nem todos os casos se iniciem dessa forma. O Dr. Rodrigo Siqueira complementa que, para quem tem diabetes tipo 2, o rastreio deve ser feito já ao diagnóstico, visto que a condição pode estar instalada há anos. Para quem tem diabetes tipo 1, o rastreio começa após cinco anos de diagnóstico ou no início da puberdade.
A mensagem de todos os especialistas é unânime: Como proteger seus rins começa com o controle rigoroso da glicemia. A Dra. Bianca Bastos é categórica: “obrigatoriamente a primeira conduta é controle da glicemia” para evitar a progressão para insuficiência renal crônica e a necessidade de diálise.
O papel da equipe multidisciplinar: Dieta e estilo de vida
Não é só o controle da glicose que importa. A nefrologista Dra. Bianca Bastos salienta que “o rim arremata tudo“, e outras condições, como a hipertensão e a obesidade, aceleram a lesão renal. O trabalho da equipe multidisciplinar é fundamental.
A nutricionista Carol Netto destacou a importância de uma alimentação saudável na prevenção. A obesidade aumenta o risco de hipertensão e resistência à insulina, precursores de complicações renais. No entanto, o cuidado com a dieta deve ser redobrado para quem já apresenta alguma complicação.
- Restrição de Sódio: A hipertensão, muitas vezes presente em quem tem diabetes, é um grande fator de risco renal. A Carol Netto elencou alimentos com alto teor de sódio que devem ter o consumo moderado: temperos prontos (caldos, sazón), embutidos (salsicha, linguiça, presunto) e salgadinhos. O brasileiro deve se habituar a temperos naturais e diminuir o sal de adição.
- Restrição na Doença Avançada: Para quem tem doença renal avançada, a dieta é mais restritiva, envolvendo controle rigoroso de proteínas (principalmente animal), potássio e fósforo. Por isso, a orientação de um nutricionista é indispensável. O médico prescreve o tratamento, mas o nutricionista adequa o plano alimentar para garantir nutrição e energia.
O estilo de vida também inclui a prática de atividade física. O endocrinologista Dr. Rodrigo Siqueira e a Dra. Denise Franco incentivam a atividade para manutenção e ganho de massa magra, o que é uma reserva de saúde e ajuda a evitar o ganho de peso, mesmo para quem já está em tratamento mais restritivo. A combinação de bons hábitos é a chave para saber como proteger seus rins.
Mitos, verdades e o consumo de água
O conhecimento correto afasta o medo e a desinformação. A Dra. Denise Franco e o Dr. Rodrigo Siqueira abordaram mitos comuns:
- “Insulina causa problema nos rins”: MITO. A insulina é o medicamento mais potente para reduzir a glicemia e, se necessário, ela deve ser usada. Pelo contrário, o não uso quando indicado é que prejudica os rins.
- “Metformina causa insuficiência renal”: MITO. A metformina é essencial no tratamento do diabetes. Apenas em quadros avançados de insuficiência renal é que a dose precisa ser ajustada ou o medicamento suspenso para evitar um efeito colateral raro chamado acidose.
- “Doença renal dói”: MITO. A doença renal crônica em geral não causa dor; é uma condição silenciosa.
Sobre o consumo de água, a nefrologista Dra. Bianca Bastos esclarece que não é um mito a restrição hídrica para pacientes renais. Mas a restrição de líquido é necessária principalmente para quem está em diálise (especialmente hemodiálise) e para de urinar, ou para quem tem insuficiência cardíaca ou hepática descompensada. Pacientes com doença renal crônica em estágio conservador (não dialítico) não precisam de restrição hídrica, a menos que o médico recomende. A dificuldade em segurar o xixi à noite é, inclusive, um sinal de que o rim perdeu a capacidade de concentrar a urina e pode estar funcionando menos.
A informação confiável e a parceria com a equipe de saúde são seus maiores aliados para saber como proteger seus rins e viver com qualidade.