Um vídeo viralizou nas redes sociais ao mostrar a complexidade de uma rotina para quem tem o diabetes. Nele, a estudante de Nutrição Duda Blota relata a “burocracia” de comer um sorvete, que envolveu injeções de insulina, caminhadas e até subir e descer escadas para tentar controlar os níveis de glicose. A história, que choca quem não tem a condição, é familiar para muitas pessoas que convivem com o diabetes e precisam se controlar ao chupar um simples sorvete para evitar picos de glicemia.
Para entender melhor os desafios desse controle e como é possível se alimentar de maneira mais livre, o endocrinologista Rodrigo Mendes oferece sua visão sobre a experiência da jovem. Segundo ele, o relato levanta pontos cruciais sobre o gerenciamento do diabetes, especialmente quando alimentos com açúcar e gordura estão envolvidos.
O desafio dos carboidratos e das gorduras
Alimentos como o sorvete de pistache, que a jovem consumiu, representam um desafio complexo para quem tem diabetes e precisa ficar de olho no controle da glicemia. Primeiramente, os carboidratos do sorvete são digeridos rapidamente. Por isso, eles elevam a glicemia logo após a ingestão, geralmente nas primeiras duas horas. Já a gordura age de maneira diferente, pois retarda o esvaziamento do estômago e a absorção da glicose. Como resultado, o efeito dos carboidratos pode se prolongar, gerando picos de glicemia que só aparecem de quatro a seis horas depois.
Portanto, alimentos ricos em gordura e açúcar criam um padrão de glicemia mais difícil de prever e controlar. De fato, a jovem relatou um pico de 428 na madrugada, sugerindo que o efeito da gordura só se manifestou horas depois que a insulina inicial já havia agido.
Exercício físico para controlar a glicemia
A jovem com diabetes, após chupar o sorvete, tentou usar o exercício físico — caminhar e subir escadas — para ajudar a reduzir a glicemia depois de injetar insulina. Esta, no entanto, não é a estratégia mais segura para corrigir picos.
Segundo Rodrigo Mendes, é verdade que o exercício pode, de fato, ajudar a reduzir a glicemia, pois estimula os músculos a captarem glicose. No entanto, de acordo com ele:
“Não é a estratégia mais segura para corrigir picos após grandes refeições. O ideal é que o controle seja feito com ajustes adequados de insulina, planejados conforme os níveis glicêmicos e a quantidade de carboidrato de cada refeição.”
A dose correta e o momento da aplicação são fundamentais. O endocrinologista ressalta que o exercício é uma parte importante do manejo do diabetes, mas é melhor ajustar o medicamento.
O perigo da queda brusca de glicemia
Para comer o sorvete, a jovem mencionou que precisou “despencar” a glicemia. Sim, existe risco nesta queda rápida. Uma queda brusca ou acentuada pode causar sintomas desagradáveis, como tremores, suor frio e palpitações, mesmo que a pessoa não tenha uma hipoglicemia grave.
Além disso, a prática de induzir uma queda brusca de glicose para “abrir espaço” para comer pode aumentar a variabilidade glicêmica, algo associado a complicações a longo prazo. O controle ideal busca manter a glicemia em uma faixa segura, evitando tanto picos quanto quedas extremas.
Como evitar picos de glicemia após comer
O valor de 428 na madrugada sugere que a dose de insulina da jovem não foi suficiente para cobrir a refeição, principalmente por causa do efeito tardio da gordura. Para evitar um pico tão alto, ela poderia ter feito um ajuste mais preciso da insulina. Por exemplo, fracionar a dose, aplicando uma parte no momento da refeição e o restante algumas horas depois.
Essa estratégia, no entanto, deve ser feita com orientação médica para ser segura. Outra sugestão é preferir consumir esse tipo de alimento em momentos mais adequados, quando há maior capacidade de monitorar e corrigir a glicemia, como durante o dia.
O papel da contagem de carboidratos avançada
Para evitar picos em situações como essa, a contagem de carboidratos avançada é uma ferramenta poderosa. Existem métodos que incluem a contagem de gordura e proteína, conhecidos como contagem estendida. O cálculo estima a quantidade de macronutrientes do alimento e ajusta a dose de insulina, permitindo, por exemplo, que uma bomba de insulina libere o medicamento ao longo de horas.
“Aplicativos e tabelas nutricionais podem auxiliar, mas o treinamento com um nutricionista e endocrinologista é fundamental. “
Esses profissionais ajudam a individualizar as doses e a entender o impacto de cada alimento no seu corpo, reduzindo os picos e melhorando a qualidade de vida.
O vídeo da jovem nos mostra que viver com o diabetes exige planejamento e paciência, mas com as ferramentas certas e o apoio de profissionais, é possível desfrutar de momentos especiais.
E você, já passou por uma situação parecida para comer algo que gosta? Conta para a gente nos comentários!
