A médica e influenciadora Maria Eduarda Pereira Dantas, conhecida como Duda, que convive com diabetes emocionou seguidores nas redes sociais ao publicar um vídeo produzido com inteligência artificial (IA) em que conversa com sua versão de 10 anos.
A gravação aborda os desafios de crescer com diabetes tipo 1 e mostra como mudou a relação dela com a condição desde a infância.
Criadora do perfil Pâncreas Artificial, Duda recebeu o diagnóstico aos 8 anos e passou boa parte da infância e da adolescência escondendo o diabetes. Hoje, é médica residente em Clínica Médica e compartilha informações sobre a condição com milhares de pessoas.
O vídeo começa com uma cena em que a versão criança de Duda faz um pedido:
“Deus, amanhã eu queria acordar e não ter mais diabetes. Eu estou cansada.”
A frase faz referência a um episódio real da infância da médica. Após o diagnóstico, Duda chegou a escrever uma carta a Deus pedindo para acordar e descobrir que o diabetes havia sido apenas um pesadelo.
O que Duda diz à sua versão criança no vídeo?
Na sequência da gravação, a Duda adulta encontra a menina e oferece ajuda. A criança responde que consegue fazer tudo sozinha, mas logo percebe que a mulher também tem diabetes.
Curiosa, pergunta se terá de conviver com a condição para sempre. A resposta é afirmativa.
“Eu só queria esquecer disso”, diz a menina.
“Eu sei. E durante muito tempo você vai tentar”, responde a versão adulta.
A conversa passa então a abordar o futuro. Duda explica à menina que o diabetes, que durante anos tentou esconder, acabaria aproximando-a de outras pessoas que também se sentiam sozinhas.
“Então fica tudo bem?”, pergunta a criança.
“Nem sempre. Mas fica diferente”, responde a médica.
Na parte final, Duda fala sobre as experiências que ainda estão por vir e deixa um conselho à própria versão mais jovem:
“Só não esquece de cuidar bem dessa menina aqui. Ela não precisa ser forte o tempo inteiro.”
O encontro simbólico chama atenção por mostrar duas fases da vida de Duda: a infância marcada pela dificuldade de aceitar o diagnóstico e o presente, em que utiliza sua experiência para informar outras pessoas.
Diagnóstico aos 8 anos mudou a rotina da família
Maria Eduarda nasceu em Aracaju, Sergipe, e descobriu o diabetes tipo 1 em 2008, durante o período da Páscoa.
Na época, apresentava perda de peso, sede excessiva e vontade frequente de urinar. Durante uma viagem com a família, chegou a acordar mais de dez vezes durante a noite para ir ao banheiro.
Diante dos sintomas, a mãe decidiu interromper a viagem. Ao medir a glicemia da filha, o aparelho apresentou a mensagem “HI”, que indica um resultado acima do limite de leitura do equipamento. O diagnóstico foi confirmado após avaliação médica.
A partir daquele momento, Duda precisou aprender a conviver com aplicações de insulina, medições de glicose e cuidados com a alimentação. Mas a adaptação emocional foi um dos maiores desafios.
“Os 10 primeiros anos do meu diagnóstico foram muito diferentes do que eu mostro hoje nas minhas redes sociais, porque os 10 primeiros anos foram vivendo um luto de receber esse diagnóstico, de não aceitar, de negar, de querer esconder”, contou em entrevista ao Um Diabético.
Durante anos, evitou falar sobre a condição e sentia vergonha de ter diabetes. A mudança começou na adolescência, quando passou a estudar mais sobre o tratamento e a conhecer outras pessoas com o mesmo diagnóstico.
De uma menina que escondia o diabetes a médica e influenciadora
Em 2019, Duda criou o Pâncreas Artificial, inicialmente para compartilhar informações sobre tecnologias utilizadas no tratamento do diabetes.
Com o crescimento do perfil, percebeu que havia dúvidas ainda mais básicas entre as pessoas que acompanhavam seu conteúdo.
“Eu estava falando sobre tecnologias em diabetes e eu percebi que faltava muito uma educação básica sobre diabetes para as pessoas”, explicou.
Atualmente, reúne mais de 200 mil seguidores no Instagram e 218 mil inscritos no YouTube. Seus conteúdos abordam tratamento, tecnologias, alimentação e situações comuns na rotina de quem vive com diabetes.
O interesse pela área da saúde também influenciou sua trajetória profissional. Duda chegou a cursar Administração, mas mudou de carreira para estudar Medicina.
Durante a graduação, participou de intercâmbios em um hospital afiliado à Universidade Harvard, nos Estados Unidos, e apresentou um trabalho científico no congresso da Associação Americana de Diabetes (ADA).
Hoje, já formada, faz residência em Clínica Médica e pretende seguir carreira na Endocrinologia.
Vídeo também aborda a aceitação do diabetes
A repercussão do vídeo está ligada a uma experiência comum entre pessoas que recebem o diagnóstico de uma doença crônica na infância: o desejo de voltar à vida anterior e a dificuldade de imaginar como será o futuro.
No caso de Duda, a cena criada com inteligência artificial recupera sentimentos que ela já havia relatado publicamente.
A médica também reconhece que sua relação com o diabetes não é marcada apenas por experiências positivas.
“Ter diabetes não é bom, ter diabetes não é gostoso, eu não escolheria ter diabetes, mas tendo diabetes eu aprendi muitas coisas”, afirmou em entrevista.
Ao conversar com a própria versão criança, Duda mostra que a aceitação não elimina as dificuldades do tratamento, mas pode transformar a maneira de lidar com elas.
A mensagem central do vídeo aparece justamente na resposta dada à menina que pergunta se tudo ficará bem: nem sempre, mas a vida pode ser diferente daquela que ela imaginava aos 10 anos.
