O rastreamento do diabetes tipo 1 foi um dos temas de destaque durante a EASD 2026, em Milão, na Itália.
A estratégia permite reconhecer alterações relacionadas à doença antes do aparecimento dos sintomas e está associada a uma redução de aproximadamente 90% nos casos de cetoacidose diabética no momento do diagnóstico clínico.
O tema também marcou a trajetória da médica e pesquisadora Anette-Gabriele Ziegler, que recebeu durante o congresso o Claude Bernard Prize, principal reconhecimento da Associação Europeia para o Estudo do Diabetes (EASD) por sua contribuição à pesquisa em diabetes.
Em vídeo enviado ao Portal Um Diabético, a endocrinologista Dra. Denise Franco destacou a importância dos resultados relacionados ao rastreamento e à identificação dos autoanticorpos.
Menos cetoacidose no momento do diagnóstico
A cetoacidose diabética é uma complicação aguda que ocorre quando há deficiência importante de insulina. Ela provoca aumento da glicose e da produção de corpos cetônicos, levando à acidificação do sangue. Em muitos casos, é justamente a cetoacidose que leva uma pessoa ao atendimento médico e resulta no diagnóstico do diabetes tipo 1.
O rastreamento busca antecipar esse momento.
Um dos estudos que ajudaram a demonstrar esse impacto foi realizado na Alemanha com familiares de pessoas com diabetes tipo 1. Publicado em 2012, o trabalho acompanhou crianças que foram submetidas à pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1.
Entre as crianças rastreadas que desenvolveram a doença clínica, 3,3% apresentaram cetoacidose no diagnóstico. Entre aquelas que não haviam participado do rastreamento, a frequência foi de 29,1%.
Na prática, a diferença representa uma redução de mais de dez vezes na ocorrência da cetoacidose entre os grupos, resultado que corresponde a aproximadamente 90%.
Evidências posteriores também reforçaram esse efeito. Um documento internacional sobre o rastreamento de autoanticorpos em crianças destaca que programas de identificação precoce estão associados a uma redução superior a dez vezes na frequência de cetoacidose no diagnóstico clínico.
A importância do resultado está no fato de que o diabetes tipo 1 pode ser identificado antes que a pessoa apresente os sinais mais conhecidos da doença, como muita sede, aumento da frequência urinária e perda de peso.
Uma trajetória reconhecida pela EASD
A relação entre o rastreamento e a redução das complicações no diagnóstico também está ligada ao trabalho desenvolvido por Anette-Gabriele Ziegler ao longo de décadas.
Diretora do Instituto de Pesquisa em Diabetes do Helmholtz Munich e professora da Universidade Técnica de Munique, na Alemanha, a pesquisadora dedicou parte significativa de sua carreira à compreensão de como o diabetes tipo 1 se desenvolve antes do aparecimento dos sintomas.
Esse trabalho contribuiu para o desenvolvimento de estratégias de rastreamento capazes de identificar pessoas que já apresentam sinais imunológicos da doença, mesmo antes de alterações clínicas mais evidentes.
Em 2026, Ziegler recebeu o 58º Claude Bernard Prize, concedido pela EASD por sua trajetória e contribuição à pesquisa em diabetes. O prêmio é considerado a principal distinção da associação na área de pesquisa sobre a doença.
Durante a EASD 2026, a pesquisadora também apresentou a Claude Bernard Lecture, reforçando o espaço que o rastreamento e a identificação precoce ocupam em sua trajetória científica.
O que os estudos mostram sobre o rastreamento?
Um dos trabalhos mais recentes relacionados ao tema foi publicado em 2026 no periódico científico JAMA. O estudo acompanhou 220.476 crianças e avaliou a identificação de diabetes tipo 1 em estágios anteriores ao surgimento dos sintomas.
Na primeira avaliação, 590 crianças apresentaram sinais compatíveis com estágios iniciais do diabetes tipo 1. Entre aquelas acompanhadas posteriormente, parte evoluiu para a fase clínica da doença.
O estudo também chamou atenção para outro ponto: a evolução do diabetes tipo 1 foi observada tanto em crianças com histórico familiar da doença quanto naquelas sem familiares de primeiro grau com diabetes tipo 1.
Isso reforça uma questão importante para o rastreamento: embora o histórico familiar aumente o risco, o diabetes tipo 1 também pode surgir em crianças sem esse antecedente.
Autoanticorpos ajudam a identificar o processo antes dos sintomas
O rastreamento é realizado por meio da pesquisa de autoanticorpos relacionados ao diabetes tipo 1. Eles são produzidos pelo sistema imunológico e estão associados ao ataque às células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina.
Entre os principais marcadores avaliados estão os autoanticorpos contra insulina (IAA), GAD, IA-2 e ZnT8.
A presença de dois ou mais autoanticorpos, especialmente quando confirmada em exames posteriores, está associada a um risco elevado de progressão para o diabetes tipo 1 clínico.
A identificação desses marcadores permite classificar a doença em diferentes estágios. Nos estágios iniciais, a pessoa ainda pode não apresentar sintomas e nem precisar de insulina, mas já existem alterações imunológicas e metabólicas relacionadas ao desenvolvimento da doença.
Esse período abre uma oportunidade para acompanhamento médico, orientação da família e reconhecimento dos sinais que indicam a evolução para a fase clínica.
O que acontece depois de um resultado positivo?
Um resultado positivo para autoanticorpos não significa, por si só, que a pessoa já tenha diabetes tipo 1 clínico. Por isso, a confirmação e o acompanhamento são partes importantes do processo.
A avaliação médica pode incluir novos exames para confirmar a presença dos autoanticorpos, acompanhamento da glicose e orientação sobre sintomas que precisam de atenção.
Esse acompanhamento tem uma finalidade prática: reconhecer a progressão da doença antes que ela chegue a uma situação de emergência.
É justamente nesse ponto que a redução da cetoacidose ganha importância. Quando o diabetes tipo 1 é identificado antes do aparecimento dos sintomas graves, a pessoa e a família têm mais tempo para receber informações, iniciar o tratamento adequado quando necessário e se preparar para a nova rotina.
O rastreamento muda o momento do diagnóstico
Os dados acumulados ao longo dos anos ajudam a explicar por que o rastreamento do diabetes tipo 1 ganhou espaço nas discussões científicas da EASD 2026.
Em vez de esperar que a doença se manifeste de forma clínica, a estratégia busca identificar alterações imunológicas antes dessa fase. A redução de aproximadamente 90% na ocorrência de cetoacidose observada em populações rastreadas mostra uma das principais consequências práticas dessa antecipação.
A premiação de Anette-Gabriele Ziegler durante o congresso também evidencia a trajetória de pesquisas que ajudaram a transformar o rastreamento em uma estratégia de investigação e acompanhamento do diabetes tipo 1.
Para pessoas e famílias que convivem com a doença, o impacto está principalmente na possibilidade de chegar ao diagnóstico com mais informação e menos situações de emergência.
A discussão sobre quem deve ser rastreado, em que idade e como organizar esse acompanhamento ainda faz parte das pesquisas e das políticas de saúde. Mas os resultados apresentados e discutidos ao longo dos últimos anos reforçam o papel da identificação precoce na mudança da forma como o diabetes tipo 1 pode ser reconhecido.
