Uma injeção indicada para tratar uma dor pode ter um efeito que nem sempre entra na conversa durante o atendimento: aumentar a glicose no sangue.
Quando o medicamento contém corticoide, principalmente em uma formulação de ação prolongada, esse impacto pode persistir por dias e exigir acompanhamento de quem tem diabetes.
O assunto foi discutido no DiabetesCast pelo jornalista Tom Bueno e pelos endocrinologistas Denise Franco e Fernando Valente. Durante o episódio, os especialistas explicaram que o risco depende do medicamento, da dose, do tempo de ação e da resposta de cada pessoa.
Isso não significa que toda injeção para dor aumente a glicose ou que quem tem diabetes deva recusar um tratamento. A questão é identificar o que será aplicado e conversar sobre os cuidados necessários.
“Não é só tomar”, destacou Fernando Valente ao explicar que os corticoides podem ser usados de diferentes formas, incluindo injeções. Como exemplo, o médico citou o uso em problemas ortopédicos.
Por que o corticoide pode aumentar a glicose?
Os corticoides são medicamentos utilizados no tratamento de condições inflamatórias. No episódio, os especialistas citaram situações que envolvem doenças das articulações, problemas respiratórios e alergias.
Fernando Valente explicou que esses medicamentos podem interferir na maneira como o organismo lida com o açúcar no sangue.
“Os corticoides aumentam a resistência à insulina”, afirmou. “E também fazem com que o fígado jogue mais açúcar na circulação.”
Em linguagem simples, isso significa que a insulina passa a encontrar mais dificuldade para exercer sua função, enquanto o fígado libera mais glicose no sangue. Essa combinação pode elevar a glicemia, nome dado à concentração de glicose no sangue.
O mecanismo descrito pelo endocrinologista também é reconhecido nas recomendações da Associação Americana de Diabetes, que relacionam a hiperglicemia provocada por corticoides ao aumento da resistência à insulina e da produção de glicose pelo fígado. American Diabetes Association
Uma aplicação pode ter efeito prolongado
Durante a conversa, Tom Bueno relatou uma situação em que procurou atendimento ortopédico por um problema no pé e recebeu a proposta de usar uma injeção de corticoide.
Antes da aplicação, ele entrou em contato com Denise Franco, médica que acompanha seu diabetes. Segundo o relato apresentado no programa, os profissionais conversaram e optaram por um corticoide de curta duração, em vez da formulação de ação prolongada inicialmente proposta.
“A gente acabou usando uma medicação de um corticoide de curta duração e não fez um de longa duração”, contou Denise.
Ao comentar o medicamento mencionado no episódio, a médica explicou que o tempo de ação da injeção era um ponto importante para a decisão.
“A injeção, ela tem o mecanismo dela de duração, ela é mais prolongada”, afirmou.
Por isso, uma única aplicação não significa necessariamente um efeito restrito ao dia em que a pessoa recebeu o medicamento. No caso discutido pelos especialistas, a duração prolongada também tornava mais difícil acompanhar a redução do efeito sobre a glicose.
“Ela vai terminando aos poucos, então mesmo o ajuste de dose de insulina fica mais difícil”, explicou Denise.
O relato representa uma decisão tomada para aquele atendimento. Não estabelece que todas as pessoas devam receber o mesmo medicamento ou que uma alternativa de curta duração seja adequada em qualquer situação.
A dose e o tempo de ação fazem diferença
Fernando Valente chamou a atenção para outro ponto: não é preciso usar corticoide durante um período longo para que exista impacto na glicose.
“Às vezes nem é um período longo, mas dependendo da dose, isso pode ter um impacto muito importante”, disse.
Segundo o médico, a avaliação deve considerar a necessidade do tratamento, a dose e a duração do uso.
“Então o corticoide é pra gente usar com cautela, avaliar se tem indicação pelo menor tempo possível e na menor dose necessária.”
Essa escolha cabe aos profissionais responsáveis pelo atendimento. No episódio, Valente também explicou que algumas doenças exigem doses maiores para serem tratadas, o que pode tornar necessário lidar com os efeitos sobre a glicemia durante esse período.
Quem tem diabetes pode precisar de ajustes no tratamento
Quando o corticoide é necessário, o cuidado com o diabetes pode precisar ser adaptado. Denise Franco explicou que essa avaliação envolve tanto quem usa insulina quanto quem utiliza outros medicamentos para diabetes tipo 2.
A endocrinologista destacou que o tratamento da outra doença não pode ser ignorado apenas porque existe possibilidade de elevação da glicose.
“O corticoide é um recurso terapêutico e a gente vai ter que ajustar”, afirmou.
Fernando Valente reforçou que eventuais mudanças na dose de insulina devem ser discutidas com o profissional que acompanha a pessoa.
“Isso sempre conversando com o médico.”
Os especialistas também ressaltaram que a resposta não é igual para todos. Um medicamento com potencial para aumentar a glicose pode provocar alterações diferentes entre duas pessoas. Portanto, a possibilidade de um efeito não permite prever, sozinha, sua intensidade ou duração em cada caso.
O que perguntar antes de receber a injeção?
A orientação prática do episódio é informar que tem diabetes e perguntar qual medicamento será utilizado. Também vale conversar sobre o possível impacto na glicose e sobre como acompanhar o tratamento.
Entre as perguntas que ajudam nessa conversa estão:
- A injeção contém corticoide?
- O medicamento tem ação curta ou prolongada?
- Ele pode aumentar minha glicose?
- Preciso mudar a frequência de monitoramento?
- Quem vai orientar possíveis ajustes no tratamento do diabetes?
Denise Franco destacou a importância de conferir o efeito de uma medicação nova, inclusive quando ela foi prescrita em outro atendimento.
“Se você vai tomar alguma coisa nova, dá uma checada com o seu médico para ver se aquilo vai impactar ou não.”
A mensagem final de Fernando Valente resume o cuidado proposto pelos especialistas: “A gente não pode ou não deve deixar de utilizar um medicamento quando realmente tem indicação.”
Para quem tem diabetes, saber o que será aplicado permite organizar o acompanhamento da glicose e discutir os ajustes necessários com a equipe de saúde.
