As bolhas aparecem, incomodam por alguns dias e desaparecem. Depois de um tempo, voltam a surgir. Para quem tem diabetes e convive com crises repetidas de herpes, essa sequência pode trazer uma dúvida: será que a glicose tem alguma relação com o problema?
O controle do diabetes é um dos pontos que precisam ser avaliados, mas não explica sozinho todas as recorrências. Durante entrevista ao DiabetesCast, apresentado pelo jornalista Tom Bueno, o infectologista Igor Marinho destacou que o acompanhamento deve olhar para o conjunto da saúde da pessoa, em vez de se limitar às lesões.
“Será que é o seu sono que não está sendo reparador? Será que o diabetes está realmente bem controlado?”, questiona o médico ao explicar o que pode entrar nessa investigação.
A orientação é procurar avaliação quando as crises se repetem, tanto para confirmar o diagnóstico quanto para discutir formas de reduzir os episódios e seu impacto na rotina.
Por que o herpes volta em quem tem diabetes?
O herpes simples é causado pelos vírus HSV-1 e HSV-2. Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), eles permanecem nas células nervosas e podem alternar períodos de inatividade e reativação. Isso permite o reaparecimento dos sintomas sem que tenha ocorrido uma nova infecção.
Entre os fatores associados à reativação estão doenças ou febre, estresse emocional e exposição ao sol. As circunstâncias variam de uma pessoa para outra.
No DiabetesCast, Marinho explica que o estado das defesas do organismo também merece atenção na avaliação das crises.
“Então o herpes tem uma relação direta com a sua condição imunológica naquele momento”, afirma.
Para quem vive com diabetes, isso significa incluir o acompanhamento da glicose na conversa com o profissional de saúde. Não significa concluir, apenas pelo aparecimento de uma lesão, que o tratamento do diabetes está inadequado.
Glicose alta pode prejudicar as defesas do organismo
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) explica que a hiperglicemia persistente pode comprometer mecanismos de defesa contra infecções. Entre os efeitos estão alterações no funcionamento de células que participam da resposta imunológica.
Essa relação ajuda a entender por que a avaliação das metas glicêmicas é importante quando uma pessoa com diabetes apresenta infecções recorrentes.
Entretanto, ter diabetes não significa que todas as pessoas apresentem o mesmo grau de comprometimento das defesas. A situação clínica, a presença de outras doenças e o controle glicêmico precisam ser considerados.
Na entrevista, Marinho chama a atenção para a maior vulnerabilidade quando o diabetes está fora das metas de tratamento. Por isso, investigar as recorrências da herpes envolve olhar também para o cuidado cotidiano com a condição, sem responsabilizar a pessoa por cada nova crise.
O que precisa ser investigado nas crises repetidas de herpes?
Para o infectologista, o acompanhamento não deve se resumir à escolha de um medicamento para a lesão daquele momento. É necessário avaliar se existem fatores que possam estar contribuindo para tantas manifestações.
“Além disso, esse colega profissional de saúde vai ter que olhar se existe algum fator que está causando você ter tantas repetições”, afirma.
Durante a conversa, ele cita sono, estresse, alimentação, atividade física e controle do diabetes como aspectos da avaliação global. Esses elementos devem ser analisados individualmente, sem presumir que todos sejam responsáveis pelas crises.
Na consulta, relatar quando os episódios começaram, com que frequência aparecem, onde surgem e quanto interferem na rotina ajuda a organizar essa investigação. Também é importante informar os tratamentos já utilizados e se houve melhora.
A proposta é entender o padrão das recorrências e construir uma estratégia de cuidado compatível com as necessidades da pessoa.
Quem tem diabetes pode fazer tratamento para evitar novas crises?
Em algumas situações, sim. Marinho explica que pessoas com herpes simples de repetição podem receber prescrição de antivirais por um período prolongado, com o objetivo de reduzir novas manifestações.
“É uma medicação para evitar que isso acabe se manifestando tanto”, diz.
Esse uso preventivo, também chamado de tratamento supressivo, depende de avaliação médica. A OMS informa que antivirais diários podem reduzir a frequência dos sintomas e ser considerados em episódios frequentes ou muito dolorosos. Os medicamentos, porém, não eliminam o vírus do organismo.
Ter diabetes, por si só, não determina que toda pessoa precise desse tratamento. No episódio, o especialista reforça o acompanhamento para decidir a conduta e avaliar os fatores associados às recorrências.
O herpes também pode interferir no cuidado com o diabetes
Além de investigar como está a glicose entre as crises, é importante observar o que acontece durante uma infecção. A SBD destaca que doenças infecciosas podem piorar o controle glicêmico, tornando a relação entre diabetes e infecção uma via de mão dupla.
“Inclusive, o herpes pode causar a descompensação de doenças como, por exemplo, o próprio diabetes”, afirma Marinho.
Por isso, quem percebe alterações persistentes da glicemia durante as crises deve levar essa informação à equipe que acompanha seu tratamento. A avaliação conjunta permite cuidar da infecção e das necessidades relacionadas ao diabetes.
O objetivo do acompanhamento é reduzir o desconforto, investigar as recorrências e evitar que a pessoa tenha de lidar repetidamente com o problema sem uma estratégia definida.
A entrevista completa com o infectologista Igor Marinho está disponível no DiabetesCast, no YouTube e no Spotify, com apresentação de Tom Bueno.
