O projeto Cinderella, da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD), começa a realizar testes de rastreamento do diabetes tipo 1 neste domingo, 18 de outubro, durante o Diabetes On, em São Paulo. A proposta é identificar sinais da doença antes dos sintomas e reduzir o risco de que o diagnóstico aconteça em uma emergência médica.
A iniciativa integra um projeto de pesquisa e utiliza a dosagem de autoanticorpos, marcadores que permitem identificar o processo autoimune associado à doença. A proposta envolve sete capitais: São Luís, Goiânia, São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre, Curitiba e Salvador.
Os exames serão gratuitos, custeados por recursos de um edital de pesquisa do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e pela iniciativa privada, com participação da Sanofi, segundo as informações sobre o projeto.
A detecção precoce permite acompanhar pessoas que ainda não apresentam os sinais mais conhecidos do diabetes. Com orientação e monitoramento, é possível reconhecer a progressão e agir antes de uma descompensação grave.
Quem poderá fazer os testes gratuitos
O rastreamento do Cinderella será destinado a pessoas de 2 a 17 anos que tenham um familiar de primeiro grau com diabetes tipo 1, como pai, mãe, irmão ou irmã. Para realizar o exame, os dois responsáveis deverão estar presentes no local, conforme os critérios informados para a pesquisa.
Essas condições são específicas do projeto. A recomendação de conversar com o médico sobre rastreamento não significa que qualquer pessoa esteja automaticamente incluída nessa testagem.
Por que é possível identificar a doença antes dos sintomas
O diabetes tipo 1 é uma doença autoimune. O sistema de defesa ataca, por engano, as células beta do pâncreas, responsáveis pela produção de insulina. Esse hormônio ajuda a regular a glicose no sangue.
O ataque pode começar quando a pessoa ainda se sente bem. Durante parte desse processo, o organismo continua produzindo insulina suficiente para manter a glicemia normal.
Por isso, um exame de glicose sem alterações não exclui um processo autoimune em andamento. O rastreamento procura outros sinais: os autoanticorpos detectáveis no sangue.
Entre os marcadores utilizados estão anti-GAD, anti-IA2, anti-insulina e anti-ZnT8. Eles ajudam a identificar a autoimunidade e orientar a avaliação médica.
O que significa um resultado positivo
Um resultado positivo não deve ser interpretado isoladamente. A SBD recomenda confirmar a presença de autoanticorpos em outra amostra, evitando conclusões equivocadas por resultados transitórios.
Um único autoanticorpo não equivale, por si só, ao diagnóstico de diabetes tipo 1 em estágio inicial. Dois ou mais marcadores confirmados, associados à avaliação da glicose, permitem classificar a doença.
No estágio 1, a glicemia ainda está normal. No estágio 2, já existem alterações, mas sem atingir os critérios do diabetes clínico. No estágio 3, os exames preenchem os critérios diagnósticos de diabetes, com ou sem sintomas.
Essa identificação deve ser acompanhada de orientação e seguimento especializado.
Evitar a cetoacidose é um dos principais objetivos
Para muitas famílias, o diagnóstico acontece depois de uma piora rápida da saúde. Uma das situações mais graves é a cetoacidose diabética, emergência potencialmente fatal.
A complicação ocorre quando a falta de insulina leva o organismo a utilizar gordura como fonte de energia e produzir cetonas. Em excesso, essas substâncias tornam o sangue ácido.
Vômitos, dor abdominal, desidratação, respiração alterada e sonolência podem indicar o quadro e exigem atendimento imediato.
O rastreamento, associado ao acompanhamento, ajuda a perceber a piora da glicemia antes de uma emergência. As famílias também passam a conhecer os sinais que precisam de atenção.
Uma pesquisa publicada em 2023 na revista Diabetologia avaliou 128 crianças que chegaram ao estágio clínico após terem sido identificadas precocemente no programa alemão Fr1da. Nesse grupo, apenas 2,5% apresentaram cetoacidose no diagnóstico do estágio 3.
Os pesquisadores observaram uma apresentação menos grave entre as crianças previamente identificadas. O estudo reforça a importância de combinar exames, educação e monitoramento.
Uma mudança que já acontece em outros países
Programas internacionais, como o Fr1da, mostram que identificar o diabetes tipo 1 antes dos sintomas já faz parte da pesquisa e das estratégias de cuidado em outros países.
Os exames de autoanticorpos não são uma descoberta recente. A mudança está na ampliação do rastreamento e nas possibilidades de acompanhar e intervir nas fases iniciais.
Nesse contexto, o Brasil aprovou em março de 2026 o teplizumabe para pessoas a partir dos 8 anos com diabetes tipo 1 em estágio 2. A indicação autorizada pela Anvisa é retardar a progressão para o estágio 3. O tratamento não representa uma cura.
Independentemente da possibilidade de intervenção medicamentosa, reconhecer a doença precocemente permite preparar a família e organizar o acompanhamento antes de uma descompensação.
Primeiros testes serão no Diabetes On
O início das testagens do Cinderella está previsto para o Diabetes On, neste domingo (18), no Centro de Convenções Rebouças, em São Paulo.

Segundo o site oficial, o evento acontece das 8h às 18h e reúne palestras, atividades educativas, exames e espaços de troca de experiências para pessoas que vivem ou convivem com diabetes.
