Entre estradas, entregas e longas jornadas ao volante, Miriam Aparecida Gualberto Santos, conhecida como Mirinha Santos, construiu uma carreira enfrentando desafios que vão além do transporte de cargas.
Há mais de duas décadas, trabalha como caminhoneira em Minas Gerais, conciliando a profissão com os cuidados necessários para controlar o diabetes tipo 1.
Nas redes sociais, ficou conhecida como a “caminhoneira mais doce do Brasil”, apelido que representa sua decisão de falar abertamente sobre uma condição que escondeu durante parte da vida profissional. Sua trajetória é marcada pelo preconceito, por episódios de hipoglicemia e por perdas familiares que transformaram sua relação com a saúde.
Hoje, utiliza sensor de glicose, organiza a alimentação no caminhão e compartilha suas experiências para conscientizar outras pessoas com diabetes.
O diagnóstico na adolescência e o medo de perder o sonho
Mirinha tinha entre 16 e 17 anos quando apresentou os primeiros sintomas do diabetes tipo 1. Na época, era proprietária de um salão de beleza e sonhava em dirigir carretas. A sede intensa, a perda de peso e o cansaço começaram a interferir no trabalho, fazendo com que precisasse fechar o estabelecimento para descansar.
Como tinha histórico familiar de diabetes, incluindo um irmão diagnosticado anteriormente, desconfiava do que estava acontecendo. Procurou atendimento quando os sintomas se tornaram insuportáveis. Foi sozinha, caminhando até o hospital, onde recebeu o diagnóstico e ficou internada.
“Eu fui sozinha caminhando para o hospital, mas quase não cheguei lá, de tão ruim que estava”, recorda.
Naquele momento, acreditava que aplicar insulina seria suficiente, sem compreender a importância de acompanhar a glicose.
Quando ingressou no transporte de cargas, encontrou um ambiente predominantemente masculino. Segundo ela, foi uma das primeiras mulheres de sua região a trabalhar com carretas. Além de conquistar espaço na profissão, temia que o diagnóstico impedisse sua contratação.
Por isso, escondeu que tinha diabetes tipo 1. Mesmo após mais de 20 anos de carreira, relata resistência em processos seletivos quando informa que utiliza insulina.
“Assim que eu falo que sou insulinodependente, a gente vê a fisionomia da pessoa mudar na hora.”

Os riscos que enfrentou ao volante e a mudança no tratamento
Durante muitos anos, Mirinha trabalhou sem compreender adequadamente os riscos das alterações da glicose. Seu maior medo era sofrer uma hipoglicemia enquanto dirigia. Para evitar essas situações, passou a manter a glicose elevada, acreditando que conseguiria trabalhar com segurança.
Ela relata episódios intensos de hipoglicemia, mas confiava na capacidade de reconhecer os sintomas e estacionar antes que a situação se agravasse.
“Eu quase morria de hipoglicemia, só que eu tinha sintomas. Então, ficava tranquila porque, quando estava dirigindo, dava tempo de encostar.”
Hoje, reconhece o perigo dessa confiança. A hipoglicemia pode comprometer a atenção e os reflexos, enquanto a glicose elevada por períodos prolongados aumenta o risco de complicações nos olhos, rins e outros órgãos.
A mudança começou há aproximadamente seis ou sete anos, quando acompanhou as consequências do diabetes na família. Seu irmão, também diagnosticado com diabetes tipo 1, enfrentou problemas graves ainda jovem, incluindo perda da visão, hemodiálise e transplante.
Ela se lembra das dificuldades que ele enfrentava para realizar atividades simples, justamente quando conquistava o sonho de ter o próprio caminhão.
“Eu me lembro que o meu irmão não conseguia ver a colher para comer.”
A família também sofreu com a morte precoce de um tio que apresentava complicações relacionadas ao diabetes. Essas experiências fizeram Mirinha reconsiderar os próprios cuidados.
A perda do filho e o momento em que decidiu mudar de vida
Enquanto acompanhava o sofrimento do irmão, Mirinha também enfrentava dificuldades pessoais. Passou por uma gestação complicada, marcada pelo controle inadequado do diabetes. O filho nasceu prematuramente, aumentando sua preocupação com a saúde.
Quando o menino tinha dois anos, a família enfrentou uma perda devastadora. Segundo Mirinha, ele morreu em decorrência de uma pneumonia que não teria sido identificada adequadamente durante o atendimento hospitalar.
Ela ressalta que a morte do filho não foi causada pelo diabetes. Ainda assim, a experiência deixou marcas profundas e reforçou sua decisão de não negligenciar os próprios cuidados.
“Eu queria cuidar do meu filho, queria ser mãe. E aí, infelizmente, meu filho veio a óbito com dois anos, mas foi por outra situação.”
Depois de tantos anos sem controlar adequadamente a glicose, Mirinha começou a compreender a importância do tratamento.
“Meu mundo caiu e eu acordei. Falei: poxa, diabetes é isso?”
A partir dessa conscientização, buscou informações sobre insulina, alimentação e monitoramento da glicose. Também passou a compartilhar seus erros para evitar que outras pessoas enfrentem situações semelhantes.

Como Mirinha organiza a alimentação e controla a glicose na estrada
Atualmente, Mirinha utiliza um sensor de monitoramento contínuo da glicose, que permite acompanhar as variações e receber alertas sobre possíveis quedas. Também aprendeu a realizar a contagem de carboidratos para calcular as doses de insulina conforme seu tratamento.
“Hoje a minha qualidade de vida é outra. O sensor me mostra com antecedência a questão da hipoglicemia. Hoje eu tenho controle.”
A organização se estende à alimentação. Como o trânsito e os horários das entregas podem provocar atrasos, mantém alimentos disponíveis no caminhão, incluindo ovos, frutas, pães e verduras, como repolho.
O veículo possui geladeira e uma pequena cozinha, onde prepara refeições como omeletes e cuscuz. Nos restaurantes de estrada, adapta as escolhas às opções disponíveis, considerando a quantidade de carboidratos.
A estrutura representa uma mudança em relação ao início da carreira. Naquela época, sem geladeira, Mirinha tentava conservar a insulina em recipientes com água, prática que não garante a temperatura adequada de armazenamento.
Hoje, também compartilha sugestões de alimentação com colegas caminhoneiros que convivem com diabetes tipo 2 ou desejam melhorar os hábitos alimentares.

O dia em que esqueceu a insulina durante uma viagem
Uma das situações mais difíceis aconteceu durante uma viagem de Congonhas, em Minas Gerais, até o estado do Rio de Janeiro, quando precisava entregar um caminhão na matriz de uma empresa.
Ao parar para almoçar, percebeu que havia esquecido a insulina. Sem o medicamento, decidiu reduzir o consumo de carboidratos, priorizando saladas e proteínas até retornar no dia seguinte.
Embora tenha conseguido completar o deslocamento, reconhece que a decisão foi arriscada e consequência da falta de planejamento.
“Porque o diabético não pode esquecer a insulina pra trás. De jeito nenhum.”
A conduta adotada por Mirinha não deve ser reproduzida. Pessoas com diabetes tipo 1 precisam de insulina continuamente, mesmo sem se alimentar. A interrupção pode provocar cetoacidose diabética, uma emergência médica que exige atendimento imediato.
A conscientização sobre o diabetes e o sonho do caminhão rosa
Atualmente, Mirinha trabalha em rotas que incluem Sete Lagoas e Juiz de Fora, em Minas Gerais. Embora algumas viagens permitam passar perto de casa, frequentemente dorme no caminhão, próximo aos clientes, para agilizar as entregas. Escolheu continuar na região principalmente pelas oportunidades de remuneração.
Fora das estradas, compartilha sua experiência com pessoas com diabetes, especialmente crianças e famílias que estão aprendendo a lidar com o diagnóstico.
A caminhoneira, que já precisou realizar procedimentos a laser nos olhos, acredita que o acesso à informação poderia ter evitado parte das dificuldades que enfrentou.
“Aquilo que eu não tive, que foi acesso à informação, que o meu irmão não teve, eu não quero que falte para outros.”
Sua trajetória reforça a importância de combater o preconceito, considerando também as exigências de segurança da profissão. Para pessoas com diabetes que dirigem veículos pesados, a avaliação médica individual e o controle adequado da glicose são indispensáveis.
Enquanto continua percorrendo as estradas de Minas Gerais, Mirinha mantém um objetivo: deixar de ser funcionária e conquistar seu próprio caminhão rosa. Um sonho que representa não apenas uma conquista profissional, mas a possibilidade de continuar fazendo o que ama, com uma consciência diferente sobre a importância de preservar a própria saúde.
