Durante nove meses, a massoterapeuta Nathália Fernanda de Oliveira, de 28 anos, tratou o que acreditava ser uma candidíase recorrente. Nesse período, passou por diferentes médicos e recebeu sempre o mesmo diagnóstico. No entanto, os tratamentos não resolviam o problema.
A situação só mudou quando uma nova ginecologista solicitou exames de sangue. Foi então que a verdadeira causa apareceu: glicemia em 130 mg/dL. “Foi um susto”, relata Nathália. O diagnóstico de pré-diabetes veio em setembro do ano passado.
O caso chama atenção porque não é isolado. Ao contrário, reflete uma realidade cada vez mais comum no Brasil. Milhões de pessoas convivem com alterações na glicemia sem saber.
O que é pré-diabetes?
O pré-diabetes é uma condição em que os níveis de glicose no sangue estão acima do normal. Ainda assim, não atingem os valores necessários para o diagnóstico de diabetes tipo 2. Em outras palavras, trata-se de um sinal de alerta do organismo.
“É quando identificamos a glicemia alterada, mas ainda fora do critério de diabetes”, explica o endocrinologista Fernando Valente, membro da Sociedade Brasileira de Diabetes. Segundo o especialista, essa alteração indica risco elevado de progressão da doença.
Estudos mostram que cerca de 25% das pessoas com pré-diabetes evoluem para diabetes tipo 2. Por outro lado, metade permanece no mesmo estágio. Já aproximadamente 25% conseguem reverter o quadro em três a cinco anos.
Uma condição silenciosa que dificulta o diagnóstico
O maior desafio do pré-diabetes é a ausência de sintomas claros. Por isso, muitas pessoas só descobrem a condição ao investigar outros problemas de saúde, como ocorreu com Nathália.
Além disso, a falta de sinais evidentes contribui para o atraso no diagnóstico. Como consequência, o risco de complicações aumenta com o passar do tempo.
Entre os principais fatores de risco estão:
- Circunferência abdominal elevada
- Sobrepeso ou obesidade
- Sedentarismo
- Pressão arterial elevada
- Histórico familiar de diabetes
- Síndrome metabólica
- Histórico de diabetes gestacional
- Uso crônico de medicamentos antipsicóticos
Quando o quadro evolui para diabetes tipo 2, alguns sintomas podem surgir. Entre eles estão sede excessiva, fome frequente, visão turva, formigamento em mãos e pés e feridas que demoram a cicatrizar.
Por que o rastreamento começa mais cedo
Diante do aumento dos casos, diretrizes recentes passaram a recomendar o rastreamento da glicemia a partir dos 35 anos. Antes, a indicação era iniciar os exames aos 45.
Além disso, pessoas com fatores de risco devem investigar a glicemia ainda mais cedo. Nesse contexto, a avaliação médica é essencial para definir a frequência dos exames.
Exames que ajudam a identificar o pré-diabetes
O diagnóstico é feito por meio de exames laboratoriais simples. Entre os principais, estão:
- Glicemia em jejum entre 100 e 125 mg/dL
- Hemoglobina glicada (HbA1c) entre 5,7% e 6,4%
- Curva glicêmica, que avalia a resposta do organismo à glicose
Vale destacar que valores próximos do limite superior indicam risco maior de progressão para o diabetes tipo 2.
Mudanças no estilo de vida são a base do tratamento
A boa notícia é que o pré-diabetes pode ser revertido. Para isso, o tratamento começa com mudanças no estilo de vida. O uso de medicamentos pode ou não ser necessário.
O que funciona na prática
As principais medidas incluem:
- Reeducação alimentar, com redução de açúcares e gorduras saturadas
- Prática de atividade física por pelo menos 150 minutos por semana
- Perda de peso mínima de 5% em casos de sobrepeso ou obesidade
Foi esse caminho que Nathália seguiu. Com acompanhamento nutricional e exercícios regulares, ela reduziu a hemoglobina glicada de 5,5 para 5,0. Além disso, perdeu seis quilos. “Parei de adiar os cuidados comigo mesma”, afirma.
Quando medicamentos são indicados
Quando as mudanças no estilo de vida não são suficientes, medicamentos podem ser utilizados. A metformina é a opção mais comum. Ela atua reduzindo a produção de glicose pelo fígado e melhorando a sensibilidade à insulina.
Em situações específicas, outros medicamentos podem ser considerados. No entanto, a prescrição deve ser individualizada e feita por um médico.
Aumento dos casos preocupa especialistas
O crescimento do pré-diabetes e do diabetes está diretamente ligado ao aumento da obesidade e do sedentarismo. Nesse cenário, fatores como alimentação inadequada e falta de atividade física têm papel central.
Dados nacionais mostram aumento expressivo do excesso de peso e da hipertensão nos últimos anos. Como resultado, cresce também o número de pessoas com resistência à insulina.
Diagnóstico precoce evita complicações
Atualmente, cerca de 20 milhões de brasileiros vivem com diabetes. Além disso, milhões estão em estágio de pré-diabetes sem saber.
O diagnóstico precoce permite evitar complicações como doenças cardiovasculares, problemas renais, neuropatias e perda de visão. Por isso, especialistas reforçam a importância dos exames regulares.
“O diabetes é uma doença silenciosa”, alerta o endocrinologista. Segundo ele, mais de 40% das pessoas desconhecem o diagnóstico.
Caso reforça alerta para prevenção
A história de Nathália mostra que o pré-diabetes pode ser identificado em situações inesperadas. Portanto, investigar alterações de saúde e realizar exames de rotina faz diferença.
Em resumo, o pré-diabetes é um alerta do corpo. Identificar a condição a tempo permite agir antes que ela se torne uma doença crônica.
