Você já se sentiu sem controle diante da comida, comendo grandes quantidades em pouco tempo e, logo depois, sentindo uma culpa avassaladora? Esses podem ser sinais de compulsão alimentar, uma condição que precisa ser discutida, especialmente quando analisamos a sua forte ligação com o diabetes. Para entender melhor essa conexão, o jornalista Tom Bueno, em nosso “Um Diabético” no Youtube, explorou o tema em seu canal.
O jornalista destaca que a compulsão alimentar e diabetes formam uma relação complexa e de mão dupla. Essa não é uma questão de “falta de vergonha” ou de ser “comilão”, mas sim um transtorno que exige diagnóstico e tratamento especializado. Muitas vezes, quem tem diabetes enfrenta desafios únicos que podem servir como gatilho para esse comportamento.
O que define a compulsão alimentar
É fundamental diferenciar a compulsão alimentar de um exagero pontual. O transtorno da compulsão alimentar (TCA) é caracterizado por episódios recorrentes de ingestão de grandes quantidades de comida em um curto período, acompanhados pela sensação de perda de controle.
Como o próprio Tom Bueno descreve em sua experiência pessoal após um episódio de hipoglicemia severa, a sensação é avassaladora: “praticamente tudo que você comeria num dia, por exemplo, você come em 20 minutos, em 15 minutos. Você nem se dá conta do que você tá comendo.”
Portanto, é uma condição séria de saúde mental que frequentemente está ligada a sentimentos de angústia, vergonha e culpa. Por isso, ao notar esses sinais, a busca por ajuda médica e psicológica é indispensável.
A armadilha das dietas restritivas
No contexto do diabetes, o controle alimentar é um pilar do tratamento. No entanto, existe um perigo que ronda quem busca resultados rápidos. Tom Bueno compartilhou uma advertência importante dos endocrinologistas Rodrigo Siqueira e Denise Franco: dietas excessivamente restritivas podem ser um gatilho para a compulsão.
Segundo os especialistas, quando a restrição é severa demais, o corpo e a mente podem reagir com um “efeito rebote”. Essa privação aumenta a ansiedade e a fixação pela comida, o que, consequentemente, eleva o risco de a pessoa desenvolver episódios de compulsão. Assim, o que começa como uma tentativa de controle pode acabar resultando em descontrole.
A relação de duas vias entre o diabetes e o transtorno
A ligação entre as duas condições é complexa e funciona em duas direções principais. Primeiramente, o transtorno de compulsão alimentar pode ser um fator de risco para o desenvolvimento do diabetes tipo 2. Os episódios de ingestão excessiva, muitas vezes de alimentos calóricos e ricos em carboidratos, contribuem para o ganho de peso e a obesidade, que são os principais fatores de risco para a resistência à insulina e o surgimento do DM2.
Por outro lado, quem já vive com o diabetes também apresenta um risco aumentado para o transtorno. Fatores como a ansiedade sobre o controle glicêmico, o foco constante na alimentação e, como veremos, o medo de crises, podem desencadear o problema.
O peso dos números: a estatística no Brasil
A percepção de que a ligação entre compulsão alimentar e diabetes é forte encontra respaldo em dados sólidos. Tom Bueno cita informações da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) que são alarmantes. Segundo a SBD (Sociedade Brasileira de Diabetes), o transtorno da compulsão alimentar é o mais frequente entre os transtornos alimentares em quem tem diabetes tipo 2, atingindo cerca de 34,8% desse público.
Além disso, um estudo sobre a prevalência de transtornos alimentares em pacientes com diabetes tipo 2, publicado na revista científica SciELO (Revista Brasileira de Psiquiatria), já apontava para essa alta ocorrência. O estudo também notou uma associação significativa entre a presença de transtornos alimentares e uma maior frequência de transtornos de ansiedade, mostrando o impacto profundo na saúde mental.
O medo da hipoglicemia como gatilho
Um fator muito particular de quem tem diabetes, especialmente quem utiliza insulina, é o medo da hipoglicemia (níveis baixos de açúcar no sangue). A experiência pessoal de Tom Bueno, que desenvolveu comportamentos compulsivos após uma hipoglicemia severa em 2012, ilustra perfeitamente esse gatilho.
O medo de sentir os sintomas desagradáveis ou perigosos da hipoglicemia pode levar a um comportamento de “defesa” que é, na verdade, disfuncional: comer excessivamente para evitar a queda da glicose. Esse ciclo de medo e reação pode solidificar um padrão de compulsão, dificultando ainda mais o controle glicêmico e gerando um ciclo vicioso de instabilidade e angústia.
Dessa forma, fica claro que o ciclo da compulsão alimentar e diabetes precisa ser quebrado com apoio multidisciplinar, envolvendo endocrinologista, nutricionista e, fundamentalmente, um profissional de saúde mental.
