A atividade física é um pilar fundamental no tratamento do diabetes, mas ainda é cercada de muitas dúvidas. Muita gente tem medo de treinar, não sabe qual modalidade escolher ou teme uma hipoglicemia. No DiabetesCast, apresentado por Tom Bueno (@umdiabetico), especialistas renomados abordaram os principais equívocos que cercam o tema exercício e diabetes.
O educador físico William Komatsu, com mais de 20 anos de experiência na área, e a Dra. Fernanda Benatti, especialista em clínica médica, explicaram por que muitas crenças comuns estão, na verdade, atrapalhando o seu controle glicêmico.
Conheça os 4 maiores mitos sobre o assunto e entenda como se exercitar com mais segurança e eficiência.
Mito 1: “Só o exercício aeróbico, como a caminhada, baixa a glicose”
Por muito tempo, a caminhada foi a recomendação número um para quem tem diabetes. No entanto, o educador físico William Komatsu explica que essa visão está ultrapassada. “Durante muitos anos, ficaram nessa briga [aeróbio vs. resistido]… e finalizaram que fazendo os dois exercícios, um complementaria o outro e seria o melhor resultado”, afirma.
O mais importante, segundo Komatsu, não é apenas o tipo de exercício, mas sim a intensidade. “Ah, mas a caminhada é aeróbia? Depende. Depende do que? Da intensidade”, ressalta. Ele compara: “Se você pegar um pezinho de um quilo, ficar fazendo três séries de 30, levinho… Desde quando isso é um trabalho resistido, de intensidade alta?”. Em contrapartida, uma caminhada rápida e ofegante pode ser muito mais intensa.
Mito 2: “Musculação não é importante para o controle do diabetes”
Esse mito está diretamente ligado ao primeiro. Muitas pessoas com sobrepeso ou obesidade, fatores de risco para o diabetes tipo 2, são direcionadas apenas para a esteira, o que Komatsu chama de “um grande erro”.
Mas, por que a musculação é tão crucial? Para quem precisa perder peso, o objetivo deve ser aumentar a taxa metabólica basal (a energia gasta em repouso). “Para a gente acelerar esse metabolismo, o que a gente tem que ter? Mais músculo e menos gordura”, explica Komatsu. A musculação é a ferramenta principal para construir esses músculos, que “queimam” calorias mesmo quando estamos parados.
A Dra. Fernanda Benatti complementa, lembrando que “musculação” não é a única opção de treino de força. “Pilates é um baita de um treino de força. [Em] alguns treinos aeróbicos, que nem eu nado, a natação é um treino de força. Porque é um treino resistido”, diz ela.
Mito 3: “Exercício sempre causa hipoglicemia (glicose baixa)”
O medo de ter uma queda brusca da glicose é, talvez, o maior fantasma para quem tem diabetes, especialmente o tipo 1. Esse receio faz com que muitos evitem o exercício. Embora atividades aeróbicas tendam a baixar a glicose, isso não é uma regra universal.
William Komatsu traz um ponto fundamental sobre a relação entre exercício e diabetes: a intensidade pode fazer o oposto. “Eu lembro que quando nós nos conhecemos… você falou assim, ‘nossa, mas não sabia que o exercício sobe a glicose'”, relembra Komatsu em conversa com Tom Bueno. Exercícios muito intensos (como um treino de força pesado ou um “tiro” na corrida) podem elevar a glicemia temporariamente devido aos hormônios contrarreguladores.
Isso é ruim? Não necessariamente. “Uma vez que você tem uma hiperglicemia causada pelo exercício, ela é muito mais fácil de ser controlada do que uma hiperglicemia causada pela alimentação”, tranquiliza o educador físico. Saber disso dá mais segurança para quem usa sensores de glicose e vê a seta subir durante o treino.
Mito 4: “Preciso comer muito ou tomar gel de carboidrato antes de treinar”
Quantas pessoas com diabetes não comem uma banana ou tomam um suco “só por segurança” antes de treinar, mesmo com a glicose boa? William Komatsu desafia essa necessidade, especialmente para treinos matinais.
“Se você vai fazer um exercício de manhã, a sua energia vem do jantar de ontem”, explica. Ele usa uma analogia simples: se você encheu o tanque do carro na noite anterior, não precisa parar no posto de gasolina de manhã. O corpo já tem reserva de energia.
Comer sem necessidade pode, na verdade, atrapalhar. “Hiperglicemia não quer dizer energia. Muito pelo contrário”, afirma. Além disso, o corpo fica “brigando” entre fazer a digestão e enviar sangue para os músculos, o que pode causar queda de rendimento. Para Komatsu, muitas vezes “há uma necessidade mais psicológica do que fisiológica”.
O exercício é parte do tratamento
A relação entre exercício e diabetes é complexa, mas não precisa ser um bicho de sete cabeças. Como destacou a Dra. Fernanda Benatti, “cuidar da saúde é igual a fazer atividade física, não é separado”.
Para William Komatsu, o exercício é um medicamento: “ela [a atividade física] tem a dose certa, tem indicações, tem contraindicações”. O importante é encontrar algo que você goste e começar. Como concluiu o especialista: o melhor exercício não é o que “está pago”, mas sim o que “está feito”.
