Muitas pessoas com diabetes enxergam a atividade física como uma ferramenta para controlar a glicemia. No entanto, uma situação pode gerar bastante confusão: medir a glicose e vê-la subir durante o treino. Se você já passou por isso, saiba que existe uma explicação fisiológica para essa reação. A glicose alta durante o exercício não é, necessariamente, um sinal de que algo está errado.
Para esclarecer este fenômeno, o jornalista Tom Bueno conversou com o Prof. Dr. William Komatsu, fisiologista do exercício. No vídeo para o nosso canal no Youtube, o especialista detalhou os mecanismos que regulam nosso açúcar no sangue quando movimentamos o corpo. Ele mostrou que o resultado depende de vários fatores, como a intensidade da atividade e sua glicemia inicial.
O segredo está nas vias metabólicas
Segundo o Dr. Komatsu, o ponto central está em como as células musculares captam a glicose para gerar energia. O corpo pode usar diferentes “caminhos” metabólicos para isso. O seu nível de glicose no início do exercício influencia diretamente qual caminho ele vai escolher.
Quando a glicemia está adequada, o exercício ativa uma via chamada AMPK. Essa ativação é fundamental, pois sinaliza para os transportadores de glicose (GLUT4) se moverem para a superfície da célula. Assim, eles captam a glicose do sangue para dentro do músculo, o que resulta na queda da glicemia.
Por outro lado, a situação muda quando você já inicia a atividade com a glicose elevada. Dr. Komatsu explica que, nesse cenário, o corpo pode priorizar outra via. “Então, se você tá com uma glicose muito alta… essa via não é uma via que vai ativar o GLUT4”, pontua o fisiologista. Sem essa ativação eficiente, a glicose não entra nos músculos na mesma velocidade. Consequentemente, os níveis no sangue não caem ou podem até subir.
O papel dos hormônios e da intensidade
A intensidade do exercício é outro fator crucial. O corpo interpreta atividades intensas e curtas, como musculação ou um treino HIIT, como uma situação de estresse. Em resposta, ele libera hormônios como a adrenalina e o cortisol.
Esses hormônios sinalizam para o fígado liberar sua energia estocada. Assim, o fígado lança glicose na corrente sanguínea. Esse processo causa um aumento temporário e significativo da glicemia. Foi uma surpresa para Tom Bueno, que comentou: “…nossa, mas não sabia que o exercício sobe a glicose”. O Dr. Komatsu confirmou: “Que é justamente isso, essa intensidade maior pode subir”. Portanto, a glicose alta durante o exercício é uma resposta fisiológica comum a treinos mais intensos.
Uma boa notícia para o controle
Apesar do susto que um número alto no medidor pode causar, o especialista traz uma informação tranquilizadora. A hiperglicemia provocada pelo esforço físico é diferente. O corpo consegue controlá-la mais facilmente do que a hiperglicemia vinda da alimentação ou de uma dose inadequada de insulina.
“Mas uma vez que você tem uma hiperglicemia causada pelo exercício, ela é muito mais fácil de ser controlada”, afirma Dr. Komatsu. Isso ocorre porque o corpo fica mais sensível à insulina após o treino. Além disso, os músculos continuam precisando repor a energia que gastaram. Dessa forma, o corpo utiliza naturalmente essa glicose elevada nas horas seguintes, o que ajuda a estabilizar os níveis sanguíneos. A glicose alta durante o exercício, portanto, tende a ser um evento transitório. Contudo, é fundamental conversar com seu médico para criar as melhores estratégias.
