É um consenso popular associar o diagnóstico do diabetes tipo 1 à infância ou adolescência, tanto que por muito tempo ele foi chamado de “diabetes juvenil”. No entanto, a realidade pode ser bem diferente. A prova disso é a história de Gisela Junqueira, que aos 65 anos, compartilha sua jornada após receber o diagnóstico aos 63. Embora menos comum, o diabetes tipo 1 em idosos é uma realidade que desafia estereótipos e exige uma nova perspectiva sobre a condição.
Em um episódio recente do Diabetes Cast, o jornalista Tom Bueno conversou com Gisela e com a nutricionista e educadora em diabetes, Juliana Batista. Juntos, eles exploraram os desafios, as surpresas e as vitórias de lidar com uma condição autoimune que chegou de forma inesperada na maturidade. A história de Gisela ilustra a importância do acolhimento, da informação correta e da resiliência para se adaptar a um novo estilo de vida.
Os primeiros sinais e a surpresa do diagnóstico
Gisela sempre foi uma pessoa ativa e saudável. Por isso, quando os primeiros sintomas surgiram, ela não desconfiou de uma condição interna. Cansaço extremo, sede incessante, aumento da frequência urinária e uma perda de peso inexplicável começaram a fazer parte da sua rotina. “Você sempre atribui tudo isso à parte externa, nunca é dentro de você alguma coisa que não está bem”, relata Gisela, que inicialmente creditou os sintomas ao clima seco do Mato Grosso do Sul, onde estava.
A situação mudou quando, mesmo tentando engordar com uma dieta rica em massas e milho, o peso continuava a cair. A visão turva foi o alerta final. Ao antecipar seu check-up anual, o resultado foi um choque: hemoglobina glicada de 13,9%. “Ela virou pra mim e falou assim, não, olha, você precisa urgente buscar um endocrinologista, porque a sua glicada está 13.9”, relembra. Sem entender os parâmetros, ela foi de um consultório médico direto para uma internação de cinco dias, onde o diagnóstico foi confirmado.
A importância do acolhimento e da equipe de saúde
O início da jornada de Gisela foi marcado por um tratamento restritivo, que eliminava quase todos os carboidratos e a fazia emagrecer ainda mais. A falta de um acompanhamento próximo e acolhedor a deixava insegura. Uma crise de hipoglicemia severa durante a madrugada, com a glicemia chegando a 50 mg/dL, foi o ponto de virada. “É uma sensação extremamente desconfortável, parece que estão te tirando da tomada (…) você acha que você vai morrer”, descreve.
Essa experiência a fez buscar uma nova equipe de saúde. A endocrinologista Denise e a nutricionista Juliana Batista trouxeram uma abordagem completamente diferente. O acolhimento foi imediato e transformador. Gisela conta que o encontro com outro homem que tem diabetes tipo 1 há 40 anos, comendo de tudo em um café da manhã de hotel, abriu seus olhos. “Ele falou assim, ‘você precisa ter confiança, gostar do seu médico e se sentir abraçado por este médico’. O que eu absolutamente não sentia isso com o anterior”, conta. A nova equipe a ensinou que era possível viver bem e ter prazer na alimentação, mesmo com a condição.
Redescobrindo a comida com a contagem de carboidratos
A maior mudança na vida de Gisela veio com a introdução da contagem de carboidratos, ensinada pela nutricionista Juliana Batista, que também convive com o diabetes tipo 1. Em vez de proibir alimentos, a técnica permite calcular a quantidade de insulina necessária para cada refeição, devolvendo a autonomia e a liberdade alimentar. Para Gisela, que ama cozinhar, isso foi revolucionário.
“Isso mudou a minha vida! Eu voltei a fazer as minhas lasanhas, eu faço a massa, raviolis”, comemora. Juliana explica que, embora pareça complicado no início, a prática torna o processo intuitivo. A experiência mostra que o diabetes tipo 1 em idosos não precisa ser sinônimo de restrição severa. Com a orientação correta, é possível ajustar o tratamento à rotina e aos gostos de cada pessoa, promovendo saúde sem sacrificar o prazer de comer.
Novos desafios e a força da experiência de vida
Mesmo com os avanços, a jornada ainda apresenta desafios. O principal medo de Gisela hoje é gerenciar a glicemia durante atividades físicas intensas, como as trilhas de 20 km que sonha fazer na Patagônia. O receio de uma hipoglicemia severa em um local isolado a fez, por ora, adiar a viagem. “Hoje, eu ainda não me sinto preparada para esse desafio”, admite com sinceridade.
Apesar disso, sua atitude diante da condição é um exemplo de resiliência. Ela acredita que a maturidade a ajudou a encarar o diagnóstico de frente. “Eu acho que a vivência prepara, sim, porque depende de quem é você, de como você reage às coisas da vida”, reflete. Em vez de esconder, ela conversou abertamente sobre o tema, inclusive com seus alunos em um trabalho voluntário, transformando uma dificuldade pessoal em uma oportunidade de aprendizado para outros. O manejo do diabetes tipo 1 em idosos pode ser complexo, mas a força adquirida ao longo da vida é uma ferramenta poderosa para enfrentar os obstáculos e seguir em frente.
