A insulina inalável voltou ao centro das discussões após um vídeo publicado por uma jovem dos Estados Unidos com diabetes tipo 1 mostrar o uso do medicamento para corrigir episódios de hiperglicemia. A gravação apresenta a aplicação por meio de um inalador e detalha o tempo de ação da substância.
Segundo a jovem, chamada Bella, a insulina inalável entra na corrente sanguínea em cerca de dois minutos, começa a agir por volta de dez minutos e atinge pico entre 35 e 45 minutos. Ela afirma que utiliza o recurso quando a glicose está muito elevada ou após refeições ricas em carboidratos.
No relato, Bella explica que usa bomba de insulina para a basal e reforça que a versão inalável não substitui a insulina de ação prolongada no diabetes tipo 1. Portanto, o tratamento segue combinado.
Como funciona a insulina inalável no controle da glicose
A insulina inalável é uma insulina de ação ultrarrápida usada nas refeições. Em vez de injeção, o paciente administra o pó por meio de um dispositivo próprio. Após a inalação, o medicamento é absorvido pelos pulmões e segue para a circulação sistêmica.
Atualmente, o principal exemplo nos Estados Unidos é a Afrezza. O produto é indicado para adultos com diabetes tipo 1 ou tipo 2 que utilizam insulina nas refeições.
Segundo a bula, o medicamento não deve ser usado no tratamento da cetoacidose diabética. Além disso, não é recomendado para fumantes ou para quem parou de fumar há menos de seis meses. Pessoas com doenças pulmonares também não devem utilizar esse tipo de insulina.
Bella relata que o plano de saúde não cobre o produto no caso dela. Nesse contexto, o acesso depende de compra direta pelo paciente.
Equivalência de dose gerou questionamentos
Quando autoridades aprovaram a insulina inalável, médicos adotaram conversão direta da insulina injetável. Ou seja, muitos profissionais prescreveram dose equivalente à utilizada por via subcutânea.
No entanto, a prática mostrou controle insuficiente em parte dos pacientes. Como consequência, muitos registraram picos glicêmicos após as refeições, mesmo seguindo a prescrição.
O estudo clínico INHALE-3, publicado na revista Diabetes Care, avaliou estratégias diferentes de dose. Os dados indicaram que a conversão um para um não funcionava em vários casos.
Com base nos resultados, a recomendação passou a indicar dose inicial maior, próxima ao dobro da insulina injetável anterior. Ainda assim, cada pessoa responde de forma distinta. Portanto, o médico deve ajustar o esquema de forma individual.
Uso prático e limites no diabetes tipo 1
No diabetes tipo 1, a insulina inalável atua como insulina prandial. Enquanto isso, o paciente precisa manter a insulina basal por bomba ou aplicação subcutânea.
Bella afirma que utiliza o recurso principalmente para correção rápida. As cápsulas possuem cores diferentes, que correspondem a quantidades distintas de unidades. No entanto, ela destaca que a equivalência não é direta com a insulina injetável, o que exige cálculo médico.
O próprio histórico familiar dela inclui participação do pai em estudo clínico com a insulina inalável há cerca de dez anos. Ainda assim, o uso requer avaliação de função pulmonar periódica.
Insulina inalável no Brasil: venda e descontinuação
A insulina inalável já foi comercializada no Brasil. Entretanto, o produto foi descontinuado após período de venda.
Entre os fatores estavam custo elevado, baixa adesão e resultados considerados insuficientes à época. Além disso, estratégias de dose hoje revistas podem ter influenciado parte dos desfechos observados.
Em 2022, o jornalista Tom Bueno, que vive com diabetes tipo 1 e criador do Portal Um Diabético, mostrou o uso do inalador e divulgou valores praticados em farmácias. Na ocasião, os preços variavam entre cerca de R$ 1.300 e R$ 1.900, dependendo de cadastro e descontos.
O que a evidência indica até agora
Os dados disponíveis mostram que a insulina inalável oferece início de ação rápido e pico compatível com a elevação da glicose após refeições. Por outro lado, o medicamento não substitui a insulina basal no diabetes tipo 1.
Além disso, existem limitações reconhecidas nos estudos. Portanto, o acompanhamento médico permanece indispensável. O tratamento do diabetes exige individualização, monitorização frequente e revisão constante das evidências.