A glicemia muda ao longo do dia, a insulina precisa ser aplicada em locais adequados e uma caneta esquecida em um ambiente muito quente pode não estar nas mesmas condições de quando saiu da farmácia. Situações assim fazem parte da rotina de quem cuida do diabetes em casa, mas nem sempre recebem a atenção necessária no dia a dia.
Em episódio do DiabetesCast, as enfermeiras e educadoras em diabetes Gabriela Cavicchioli e Gisele Filgueiras explicam como esses cuidados devem fazer parte da rotina de quem convive com o diabetes. Na conversa, elas abordam desde a medição da glicose e a aplicação da insulina até o armazenamento, o uso das canetas, o rodízio dos locais de aplicação e o descarte de agulhas. Mais do que seguir uma lista de regras, a proposta é entender por que cada um desses cuidados é importante
1. A forma de medir a glicose também importa
Para quem utiliza o teste de glicemia capilar, não basta apenas colocar o sangue na tira e observar o número. A técnica começa antes da picada. O Ministério da Saúde orienta lavar as mãos com água e sabonete e secá-las bem antes do teste. Se houver uso de álcool 70%, a pele deve estar completamente seca antes da punção. A recomendação do órgão é fazer a punção na lateral do dedo, e não na ponta.
O horário da medição também muda a interpretação do resultado. A glicemia pós-prandial, por exemplo, é avaliada duas horas depois do início da refeição, e não duas horas após o término. A frequência das medições, por sua vez, não é igual para todo mundo. A Sociedade Brasileira de Diabetes recomenda que o monitoramento seja definido de acordo com o tipo de diabetes, o tratamento e a situação clínica.
Para Gabriela, não basta apenas olhar para o número que aparece no aparelho:
“A pessoa com diabetes precisa entender aquele número. Eu acho que esse é o principal.”
Quem utiliza sensor de glicose tem ainda outra fonte de informação. O dispositivo acompanha a glicose no líquido intersticial e permite observar tendências, enquanto o teste capilar mede a glicose no sangue naquele momento. Por isso, entender o funcionamento do equipamento utilizado faz parte do próprio cuidado. Mas medir a glicose é apenas uma parte da rotina. Para quem usa insulina, o próximo passo também merece atenção!
2. Aplicação da insulina: quais locais utilizar
Abdômen, coxas, braços e região dos glúteos podem ser utilizados para a aplicação da insulina, desde que respeitadas as orientações sobre cada região e a técnica adequada. Antes de aplicar, a recomendação da SBD é observar e palpar o local para identificar alterações na pele ou no tecido abaixo dela. Áreas com lipohipertrofia, por exemplo, não devem ser utilizadas até que o tecido se restabeleça.
Esse cuidado pode parecer pequeno, mas interfere na absorção da insulina. Por isso, escolher sempre o mesmo ponto porque ele é mais fácil ou menos dolorido pode acabar prejudicando a aplicação ao longo do tempo.
E é justamente quando a aplicação se repete todos os dias que outro cuidado ganha importância: não concentrar as picadas sempre na mesma região.
3. Fazer o rodízio ajuda a preservar o tecido
A repetição das aplicações sempre no mesmo ponto pode levar ao surgimento de lipohipertrofia, que provoca alterações e áreas endurecidas no tecido subcutâneo. O problema vai além da aparência: nessas regiões, a absorção da insulina pode se tornar menos previsível e contribuir para maior variação da glicose.
Por isso, alternar os locais de aplicação faz parte da técnica de uso da insulina. A SBD recomenda fazer esse rodízio de forma planejada, levando em conta a quantidade de aplicações e a rotina de cada pessoa. Também é importante observar e palpar a pele regularmente, evitando áreas que apresentem alterações.
Para Gisele, o rodízio precisa fazer parte do cuidado diário, mas a escolha dos locais também pode considerar as particularidades de cada pessoa:
“O importante é a gente ter em mente que precisa rodiziar, precisa revezar os locais por causa dessa questão da lipohipertrofia. Mas a gente também pode respeitar essas individualidades, porque temos muitos locais no corpo.”
Além do lugar onde a insulina é aplicada, existe outro detalhe que pode passar despercebido e que também interfere no tratamento.
4. A temperatura da insulina também faz parte do cuidado
A conservação é outro detalhe que pode passar despercebido na rotina. Segundo a SBD, frascos, refis e canetas descartáveis ainda lacrados devem ser mantidos entre 2°C e 8°C, dentro do prazo de validade. Já a insulina em uso pode, dependendo do produto, permanecer em temperatura ambiente de até 30°C pelo período determinado pelo fabricante.
Outro cuidado é evitar que a insulina seja congelada. O Ministério da Saúde também orienta protegê-la de mudanças bruscas de temperatura, exposição direta à luz e condições inadequadas durante o transporte. Já o período em que a insulina permanece fora da geladeira, pode variar conforme o tipo e a apresentação do produto. Por isso, a bula e as instruções do fabricante devem ser consultadas para saber por quanto tempo a caneta, o refil ou o frasco pode ficar fora da refrigeração.
A conservação correta ajuda a preservar o medicamento, mas não substitui a técnica no momento da aplicação. E, para quem utiliza caneta, há alguns cuidados específicos antes mesmo de selecionar a dose.
5. A caneta também exige técnica
As canetas podem facilitar a aplicação da insulina, mas também exigem alguns cuidados. Antes de selecionar a dose, é importante verificar o fluxo do dispositivo, seguindo as orientações do fabricante. O teste consiste em selecionar a quantidade indicada e observar se há saída de insulina pela agulha.
Esse passo pode parecer pequeno, mas ajuda a confirmar que a caneta está funcionando corretamente antes da aplicação. Gabriela conta que algumas pessoas deixam de fazer o teste por considerá-lo um desperdício de insulina.
“Tem muita gente que acha que o teste da gotinha é desperdício de insulina. Fala assim: ‘Ah, vou gastar duas unidades de insulina, vou perder’. Gente, é uma segurança dentro da sua terapia.”
Depois da verificação, a dose prescrita deve ser selecionada e aplicada de acordo com a técnica indicada para aquele dispositivo. Outro cuidado importante é não compartilhar a caneta com outra pessoa, mesmo que a agulha seja trocada.
Nas canetas reutilizáveis, a troca do refil exige atenção às instruções específicas do modelo. Como existem diferentes dispositivos, a forma de preparar e utilizar cada um pode variar. Por isso, a orientação do fabricante deve ser seguida sempre que houver troca do refil ou do dispositivo.
Nem toda insulina exige exatamente os mesmos cuidados antes da aplicação. A NPH, por exemplo, tem uma característica que faz da preparação uma etapa importante do tratamento.
6. A NPH precisa ser homogeneizada antes da aplicação
Quem utiliza insulina NPH precisa ter um cuidado a mais antes da aplicação. Diferentemente das insulinas que têm aspecto transparente, a NPH é uma suspensão e precisa ser homogeneizada para que a insulina fique distribuída de maneira adequada no líquido.
A SBD orienta fazer movimentos suaves para misturar a insulina, seguindo a técnica indicada para a apresentação utilizada. Esse cuidado é importante porque, sem a homogeneização adequada, a quantidade de insulina retirada pode não ter a concentração esperada e, consequentemente, alterar o efeito do medicamento. Gisele chama atenção justamente para esse detalhe:
“A homogeneização é super importante. Se eu não faço isso e puxo só essa parte transparente, eu não tenho a ação que ela deveria ter, que é a prolongada.”
Depois de homogeneizada, a NPH deve apresentar o aspecto característico de uma suspensão. Se houver grumos, cristais ou qualquer alteração incomum na aparência do produto, a orientação é não utilizá-lo e procurar o serviço responsável pela dispensação ou a equipe de saúde.
Depois que a insulina é preparada e aplicada, ainda existe uma etapa que muitas vezes fica fora da discussão sobre o tratamento: o que fazer com a agulha usada.
7. O descarte das agulhas também faz parte do tratamento
Depois da aplicação, ainda existe uma etapa muito importante: o descarte. Agulhas, seringas e outros materiais perfurocortantes não devem ser jogados diretamente no lixo doméstico. O Ministério da Saúde orienta utilizar coletores específicos. Quando eles não estão disponíveis, pode ser utilizado um recipiente rígido, resistente à perfuração, com abertura larga e tampa.
A orientação também é não utilizar garrafas PET, devido ao risco de perfuração. Quando o recipiente estiver cheio, ele deve ser levado à unidade básica de saúde para receber a destinação adequada, conforme o fluxo local. A reutilização de agulhas e seringas também não é uma prática recomendada.
Cuidar do diabetes em casa vai além de acompanhar um número
Boa parte do tratamento de diabetes acontece longe do consultório. É em casa que a pessoa mede a glicose, organiza os medicamentos, aplica a insulina, troca a agulha, verifica a pele e decide onde guardar a caneta.
Por isso, pequenos detalhes podem ter importância no resultado do tratamento. Uma técnica inadequada de aplicação, a repetição dos mesmos locais ou uma conservação incorreta da insulina são situações que podem passar despercebidas durante a rotina.
Ao mesmo tempo, nem todo cuidado pode ser definido por uma regra única. A frequência da monitorização, o tipo de insulina, a escolha da agulha, a técnica de aplicação e os horários do tratamento dependem das características de cada pessoa e devem ser orientados pela equipe de saúde. O próprio Ministério da Saúde destaca que a educação para o autocuidado e a técnica de aplicação precisam considerar a realidade de cada paciente.
A principal orientação, portanto, é conhecer o tratamento e revisar a técnica sempre que houver mudança de insulina, dispositivo ou rotina. Dúvidas sobre dose, horário ou alteração do tratamento não devem ser resolvidas por conta própria.
