A relação entre diabetes e depressão aparece com frequência em estudos e na prática clínica. Especialistas apontam que pessoas com diabetes apresentam maior risco de desenvolver essa doença ao longo da vida.
Segundo o endocrinologista Rodrigo Siqueira, especialista em diabetes, a ligação entre as duas condições envolve alterações no organismo causadas pela glicose elevada e também mudanças no comportamento relacionadas à doença.
“O diabetes é um fator de risco para a depressão. A glicose alta gera inflamação cerebral e interfere na comunicação entre as células do cérebro”, explica.
Nesse contexto, o acompanhamento da saúde mental passa a ser parte do cuidado com o diabetes.
Glicose alta pode afetar funcionamento do cérebro
A hiperglicemia frequente pode provocar alterações no funcionamento cerebral. De acordo com Rodrigo Siqueira, a glicose elevada interfere na produção de substâncias químicas responsáveis pela comunicação entre neurônios.
Essas substâncias são os neurotransmissores, que participam da regulação do humor e do comportamento.
“A glicose alta gera inflamação cerebral e atrapalha a produção de neurotransmissores responsáveis pela comunicação no cérebro”, afirma o endocrinologista.
Além disso, o risco tende a aumentar quando o controle do diabetes permanece irregular por longos períodos.
“Quanto mais descompensado está o paciente, maior tende a ser o risco de depressão”, acrescenta.
Depressão também pode piorar o controle do diabetes
A relação entre diabetes e depressão ocorre em duas direções. Assim como o diabetes pode aumentar o risco de depressão, a depressão também pode prejudicar o controle da glicose.
Segundo Rodrigo Siqueira, o quadro pode criar um ciclo que dificulta o tratamento.
“O paciente com depressão tende a ter um controle glicêmico pior”, explica.
Isso acontece porque sintomas da depressão podem reduzir a disposição para manter cuidados diários importantes no tratamento do diabetes.
Entre esses cuidados estão:
- monitoramento da glicose;
- aplicação de insulina;
- prática de atividade física;
- organização da alimentação.
Portanto, quando as duas doenças aparecem juntas, o tratamento precisa considerar ambos os aspectos.
Depressão apresenta diferentes graus
A depressão não se manifesta da mesma forma em todas as pessoas. De acordo com Rodrigo Siqueira, o quadro pode variar em intensidade.
“A depressão vem em graus. Existem quadros leves, moderados e graves”, afirma.
Isso significa que nem todas as pessoas apresentam os mesmos sintomas ou a mesma intensidade do problema. Ainda assim, sintomas persistentes devem ser avaliados por profissionais de saúde mental.
Antidepressivos não causam dependência
Entre os receios mais comuns relacionados ao tratamento da depressão está o uso de medicamentos. Segundo Rodrigo Siqueira, esse medo costuma estar associado a uma confusão entre diferentes tipos de remédio.
“Os antidepressivos são medicações de tarja vermelha e não causam dependência”, explica.
Ele destaca que medicamentos associados à dependência pertencem a outra categoria.
“As medicações que causam dependência são de tarja preta. Os antidepressivos não estão incluídos nesse grupo”, afirma.
Atividade física pode ajudar no tratamento
Além do acompanhamento médico e psicológico, mudanças na rotina também podem ajudar no tratamento da depressão.
Entre elas está a prática regular de atividade física.
Rodrigo Siqueira explica que o exercício pode provocar efeitos diretos no funcionamento do cérebro.
“O exercício consegue ativar o cérebro de forma independente”, afirma.
Segundo ele, estudos indicam que pacientes que fazem tratamento com antidepressivos e mantêm atividade física apresentam maior chance de reduzir o uso da medicação ao longo do tempo.
Identificar o problema é o primeiro passo
Para especialistas, reconhecer os sinais e buscar ajuda profissional é fundamental para interromper o ciclo entre diabetes e depressão.
Segundo Rodrigo Siqueira, o tratamento começa com o reconhecimento da doença.
“O primeiro passo para tratar uma doença é identificar o problema e procurar um profissional especializado”, afirma.
Nesse contexto, a saúde mental passa a ser considerada parte essencial do cuidado com o diabetes.